Vou de bike, e você?

Vou de bike, e você?

Por: Kelly Stein

Ultimamente alguns assuntos andam muito na moda, na mídia, resumindo, na boca do povo mesmo. Bicicleta versus carro. É o que anda rolando nos grandes centros. Fácil falar, levantar bandeiras. Quero ver é meter o pé no pedal e deixar a praticidade do carro em casa.

Aqui em casa tentamos deixar o carro na garagem durante a semana. Vou de bike levar e buscar as crianças na escola, ao banco, correio, supermercado e tudo o mais (só sinto falta de paraciclos para prender a bicicleta… acabo saindo caçando postes pela calçada igual cachorro querendo fazer xixi). Meu marido vai ao trabalho pedalando – e já contagiou um amigo, fazendo-o pegar gosto pela brincadeira de ir trabalhar de bike também! Acho que essa é uma das faces da tal corrente do bem, eu pedalo, tu pedalas, nós pedalamos.

Alguém vai me dizer “e o trânsito minha filha, como é que fica isso?”. O trânsito, ahh, o trânsito, sempre ele, o vilão. Esse é agressivo, devo reconhecer. Com as crianças junto, tento sempre ir por ruas com pouco movimento de carros. Se, por um motivo ou outro, preciso ir por ruas mais movimentadas, o faço pelo meio da rua (para ser bem, muito bem vista por todos que estão passando – obviamente tentando não atrapalhar demais) ou pela calçada, empurrando a bike com as crianças. Como tenho duas crias, a solução foi comprar um bike trailer. E assim saio com meu micro “ônibus”. A parte divertida disso fica por conta dos “ói que da hora!”, frase que ouço com uma certa frequência. Isso já me fez pensar, seriamente, em abrir uma loja revendedora desse tipo de trailer com o nome “óikidahora”. Chique, né? Enfim… vamos pedalando.

óikidahora!

Durante nossa pedalada matinal, no percurso até a escola, meus filhos identificam árvores pelo caminho, sabem o nome dessa ou daquela planta, já sabem quem vão encontrar varrendo a calçada em determinado horário (ou quem está atrasado – pela calçada ainda cheia de folhas)… Olham para o céu e percebem folhinhas caindo sobre eles enquanto passamos por ruas mais arborizadas. Compartilhamos muitos ‘bom dia’ por onde passamos. Ganhamos sorrisos! Quantos sorrisos você ganha ao passar de carro por alguém? Ótimo jeito de começar o dia. E, de quebra, ainda me exercito!

E quem acha que para pedalar precisa arrumar um bom tênis e uma roupinha esportiva, esqueça! Adoro o movimento “Cycle Chic” – que, por sinal, também anda na moda. Sapatilhas fofas, saias longas, vestidinhos floridos… vai do gosto da freguesa. Ah, sem esquecer o make up, que deve estar em ordem. Figurino pronto, batom retocado?? Então lá vamos nós! Pedalar com estilo faz parte amiga, estilo de gente feliz, saca? O tempo ganha outro sentido para quem pedala. O humor muda. Saio e volto animada, sentindo o vento no rosto (ok, e o sol torrando na testa de vez em quando) – mas isso tudo faz com que me sinta viva. De carro, fico maluca, feito bicho enjaulado, extremamente irritada.

Agora, para que tudo funcione direitinho, temos que observar uns cuidados. A lei me garante um espaço nas ruas igual aos dos carros por isso me empenho e faço valer esse direito. Sinalizo corretamente minhas direções, ando com luzes piscando, tenho uma bandeirola no bike trailer – por questões de segurança preciso muito ser vista. Respeito o trânsito e quero ser respeitada. E assim vou cultivando nos meus filhos o hábito pelo pedal. O Júlio com 3 anos e meio já anda sem rodinhas. A Lara, com 5, já largou as dela há mais de um ano. Estimulamos as pedaladas para que vejam que uma bicicleta serve não só para o lazer. Ela é meio de transporte para muitas pessoas também. E adotamos isso em casa. Carro sim, quando necessário. Não precisamos poluir nem atolar mais o já saturado trânsito. A sensação de leveza, de pensar “sou um carro a menos nesse trânsito”, me dá mais ânimo para continuar pedalando.

E a animação é tanta que em casa temos bicicletas para tudo quanto é necessidade… tem para estrada, da época em que meu marido ainda conseguia fazer alguns treinos, tem para trilha, para os finais de semana mais animados, e tem as urbanas, utilizadas no dia a dia. Ah sim, e tem as pequenininhas, das crias. Pedalando por aí, carregando meus filhos comigo, eles cada vez mais se mostram abertos às alternativas no trânsito, seja simplesmente andando a pé ou indo de bike.

Não é tão difícil começar essa nova rotina. Deixe o carro em casa, ao menos uma vez na semana. Faça um teste, veja o que funciona com você. Com cadeirinha, bike trailer, a pé, não importa. Seja um carro a menos você também. Se queremos alguma mudança, que a sejamos para os nossos filhos. Que eles possam se espelhar nos nossos exemplos na tentativa de criar um espaço melhor de convivência nesse planeta. Eu vou de bike, e você?


Kelly é advogada, fotógrafa e mãe de duas crianças lindas. A fotografia, de hobby, passou a profissão – e a profissão ficou ali, esperando o momento em que será esquecida para sempre. Adora retratar famílias através do seu olhar de mãe. Faz exatamente aquilo que ela gostaria de ter numa sessão de fotos com seus filhos. Para conhecer melhor o trabalho dela como fotógrafa: kelstein.com