Você trocaria de casa com outra blogueira?

Você trocaria de casa com outra blogueira?

Lembro exatamente da primeira vez que senti uma vontade louca de viajar.

Eu tinha 5 anos e minha tia morava em Brasília. Ela veio nos visitar no sul e, no momento em que me abraçou, senti uma fragrância viageira que impregnava ela inteirinha: uma mistura de cheiro de mala de couro com cheiro de vento gelado. Uma delícia.

Ela falava de Brasília com paixão, ria e contava que o presidente morava lá. Ai, quanta coisa inteligente, eu pensava, calada. Imagina! O presidente, dono do país inteiro, era vizinho de porta da minha própria tia.

Na hora de levá-la ao aeroporto, não me contive:

– Tia, me leva junto pra Brasília?

– Ah, um dia você vem me visitar, claro.

– Mas eu quero ir agora.

– Hoje não vai dar, meu amor, você tem escola e tudo mais.

Longo silêncio.

– Tia? E se eu sentir fome?

– No avião?

– é.

– Mas no avião eles te servem comida, ninguém passa fome.

– E se eu quiser fazer xixi?

– Ué, você vai ao banheiro. Avião tem banheiro, sabia disso?

Pronto. Aquilo era tudo que eu precisava ouvir. Avião tinha comida, tinha banheiro, tinha fragrância viageira e te levava pra cidade onde morava o presidente. Eu precisava viajar.

***

Passados alguns anos, meu pai começou a viajar a trabalho. Quando ele voltava, no momento em que colocava o pé dentro de casa, eu já estava ali esperando.

– Você trouxe?

– o quê?

– O negócio do avião, pai!

– Ah, tá aqui.

E me erguia uma bandeja bege de comida de avião. Ele trazia a bichinha intocada, não comia o pão  nem o biscoito, e nem tomava a garrafinha de vinho miniatura, que as companhias aéreas serviam naquela época. Eu também não estava interessada na comida, a bandeja fazia era parte de uma brincadeira que eu adorava, que era brincar de avião.

Funcionava assim: Minhas duas vizinhas eram as passageiras e eu trabalhava na aeronave e controlava a bagunça à bordo, gritando palavras de ordem do tipo “Calados, passageiros! Todos calados!”.

Também cuidava da limpeza do banheiro, sempre em tom disciplinador:  “Passageiro! Volte já ao banheiro e dê a descarga!”

O momento que eu mais curtia era a distribuição das bandejas de comida. Na minha cabeça, esta sempre se dava ao estilo bandejão:

– Pessoal! Quem estiver com fome, favor fazer fila indiana aqui. Sem empurrar, pessoal!

E minhas amigas levantavam de suas poltronas e faziam fila pra receber o bandejão do avião. Repartíamos o pão e os biscoitos, fazíamos de conta que tomávamos o vinho e, quando terminavam de comer, eu ordenava que  as duas voltassem às suas poltronas.

Naquela época, esse foi o mais próximo que eu cheguei de viajar. E nem em sonho eu poderia saber que, um dia, eu viria a conhecer meu marido justamente ali: dentro de um avião.

***

Um dia, já adolescente, encontrei uma revista com a foto de uma praia daquelas bem azuladas, perfeitas e longínquas.

– Pai, vamos viajar pra essa praia?

– Mas pra que, minha filha? Com o tanto de praia que tem por aqui?

Eu percebi que não podia contar com ele. Eu precisava de um plano.

E esse plano envolvia:

1. Fazer aniversário e ganhar dinheiro da minha avó.

2. Comprar três passagens para uma praia que eu sempre ia com a familia, que ficava há uma hora da onde eu morava.

3. Convencer minhas duas melhores amigas que era chegada a hora de viajarmos com nossas próprias pernas.

4. Convencê-las também que era preciso usar de uma mentirinha bem besta e sem importância, para que nossos pais não ficassem sabendo.

Cumpridas todas as etapas do plano, lá fomos nós pra rodoviária. Cada uma sentou em uma janela do busão, e as três sacaram seus óculos espelhados e seus walkman, ambos do camelô. Até hoje eu me emociono, ao lembrar da sensação de aventura e liberdade.

A viagem foi um sucesso, e teria sido perfeita não fosse nossa pouca noção de planejamento: gastamos o dinheiro da volta com cheese salada e chicabon e tivemos que telefonar pros nossos pais, que, bem a contra-gosto, vieram nos buscar.

***

O tempo passou e eu virei uma cigana, viajei um bocado e descobri que ninguém fazia fila indiana pra comer no avião. As bandejas beges foram substituídas por cereal em barra, minha tia voltou de Brasília e eu nunca mais usei óculos espelhados.

Virei mãe, a maior viagem de todas as viagens, e diminui BEM o ritmo de viajar.

Mas uma vez cigana, sempre cigana, né colega? E eu sempre me pego sonhando com lugares, pessoas e fragrâncias viageiras. E sendo uma leitora voraz de blogues maternos a coisa só piora: é gente de todo tipo de lugar vivendo nos quatro cantos do mundo, vivenciando a maternidade com seus regionalismos, cores e sotaques.

Não é o maximo?

Isso tudo me fez lembrar daquele programa de viagens, o Home Exchange, conhecem? Você escolhe um destino e passa férias na casa de alguém, enquanto esse alguém passa férias na sua casa!

Então eu queria saber: se você pudesse pegar filho, marido e cachorro e ir pra casa de uma outra mãe (blogueira ou não) viver a vida dela (na casa dela!) por um mês, que lugar você escolheria?

Paris? Bahia? Barcelona? Rio de Janeiro? Tailândia? Hein?

 

Foto: Oriol Aleu – Formentera- Ilhas Baleares