Vida de Mammarmota

Vida de Mammarmota

Por Juliana Caetano

Ser mãe é reinventar os clássicos. Não há absolutamente nada que possa ser criado do zero depois de tantas gerações da humanidade.

As Mammas das cavernas é que eram felizes: precursoras na função, puderam se dar ao luxo de seguir o instinto, em vez do script básico. Hoje, tantas Super Nannys e Encantadoras de Bebês depois, voltamos a bater com o tacape em nossas próprias cabeças para ver se realmente ainda há alguém lá dentro que saiba, com conhecimento de causa, o que é sentir-se Mamma. Informações temos de sobra, assim como os centímetros do diâmetro da pança teimosa, mas não passam de spams da vida moderna.

A verdade é que nem a mais segura das mães à nossa volta, nem mesmo aquelas por quem nutrimos enorme inveja velada, tem plena consciência de que ser mãe é simplesmente um direito adquirido.

Explico: à medida que o tempo passa ficamos cada vez mais à vontade nesse papel, bem ou mal desempenhado, legitimando até o próprio plágio. Ou alguém acha que inventou o pedido para o filho não esquecer o casaquinho ao sair de casa? E que comer tudo é importante para crescer forte e sadio como o Popeye? (Desconfio que o personagem só sobreviveu a tantas décadas para que as Mammas pudessem condenar, desde a mais tenra idade, as Olívias Palito da vizinhança e das capas das revistas em prol da autoestima da classe). Ou ainda quando diz que aquele baita tombo foi só um susto e passou? Isso sem falar no último recurso impetrado unanimamente: “faça isso porque sua mãe está mandando”.

Do outro lado do cercadinho também é engraçado como se pode ver o túnel do tempo em cenas cotidianas: é a calcinha que incomoda porque não tem elástico, a meia-calça que incomoda porque tem uma costura bem em cima dos dedinhos; o band-aid que insiste em ser trocado a cada 20 segundos; o cansaço repentino e avassalador que se instala sempre às refeições, mais precisamente depois de comer a única coisa do prato que interessa (acertou quem gritou “o macarrão”!); o cansaço repentino e avassalador que passa assim que alguém menciona a palavra sobremesa; o choro mais falso do mundo; a mentira sobre a febre; a delação imediata da bagunça alheia; o tênis novo esfolado; a mochila nova esfolada; o joelho esfolado de novo; a dificuldade de assoar o nariz; a dificuldade de escovar os dentes; o ódio por quem escova os cabelos; o “manhê, já acabei”; a negociação mesmo diante do inegociável número de balas fora de hora; a vontade de faltar à escola nos dias de chuva; o fascínio pelo carrinho do supermercado e, finalmente, o “mãe, você é linda”, que antecede 100% dos pedidos mais caras de pau.

É tudo tão inacreditavelmente igual que a gente sofre de novo para aprender. E a maternidade segue sendo a mais universal e, ao mesmo tempo, particular das experiências. Um clichê su misura. Inacreditavelmente previsível e incrivelmente surpreendente. Uma revolução anunciada. Bem, a minha se resume até aqui assim: passei a rezar de noite ao colocá-los para dormir, a preparar caixinhas para o coelho da Páscoa, a disciplinar sobre a hora de ir para a cama (sobre a hora de acordar, ainda estou tentando disciplinar a mim mesma); sobre escovar os dentes (minha irmã mais velha, Mamma do coração, comprou certa vez um elefante que cuspia a pasta de dente para tentar me convencer. O hábito e o hálito duraram apenas uma semana); e passei a adorar espinafre, abóbora, beterraba e berinjela, da noite para o dia. De verdade, diga-se de passagem. A vida de Mammarmota é tão repetitiva que há gerações os pais fingem que gostam do menu caseiro, mas raramente têm coragem de encarar aquele prato cheio de legumes junto com as crianças. Já reparou como são os reis do macarrão dominical? Oh! Na sua casa também é assim? Não diga!

Fico pensando que com a Dolly deve ter sido um pouco mais fácil essa questão da identidade porque ela ao menos sabia de quem era clone. Mas e nós, Mammas? Clones de um inconsciente coletivo bem mais velho do que a minha querida avó? E a grana investida em escolas bilíngues, educação integral, direitos da infância, e no mais caro de todos, o leite de soja? Tudo isso para continuarmos assistindo ao desenvolvimento e formação de pais e mães, clones de avôs e avós, a cada criança que desembarca por aqui? Uma espécie de Feitiço do Tempo (lembra do filme sobre o Dia da Marmota?) sobre a dinâmica de ensinar e aprender.

E seguimos aprendendo a cada dia que o mundo realmente parece mudar para permanecer igualzinho. Quer ver? Demorou um tico apenas para eu ouvir o primeiro “Ai que saco, mãe”. Exatos 4 anos. Demorou menos ainda a minha reação, idêntica à aplicada pela minha ir-Mamma, quando me fez, literalmente, sentir o gostinho do Lux Luxo. Será que eu não poderia ter pensado em algo mais brilhante (sem trocadilhos com o sabão em barra, por favor), em vez de recorrer a uma solução velha para um novo – ou ao menos precoce – problema?

Para quem não lembra, na tradicional festa norte americana, Dia da Marmota, celebrada em 02 de fevereiro, a ideia é observar a marmota. Se sair da toca e estiver nublado, o inverno terminará mais cedo. Porém, se o sol voltar a brilhar – o que num país tropical é mais certo do que 2 + 2 = 4 -, e a marmota se assustar com sua sombra, o inverno durará mais seis semanas.

Portanto, a dica para Mammarmotas se pouparem de um inverno tenebroso é simples: observar-se, conviver em paz com a própria sombra, comemorar a chegada das altas temperaturas da maternidade; e… Voilá!

 

Juliana é jornalista freelancer com MBA (Mother Business Administration) em Sustentabilidade Familiar. CEO do Lar, Fellow da Mamma e Monstro nas horas vagas (nao necessariamente nessa ordem). Mais dela aqui.