Vergonhinha

Vergonhinha

Por: Caroline Pizzini

Quando a gente nunca ficou grávida na vida, todo mundo mente pra gente, falando que a gravidez é a melhor parte da maternidade. Mas é tudo mentira amiguinhas… Isso é só pra você não encarar a realidade do quanto a gravidez é um método anticoncepcional posterior bem efetivo. E sabe por quê? Porque quando a gente tá grávida, a gente vive fazendo vergonhinha por aí…

Vergonhinha, só pra ser legal, porque pelo menos eu aqui, prenha, gigante, do tamanho da Shamu que estou, só fiz vergonhonas desde que descobri que estava grávida. Não que eu fosse a pessoa mais normal do mundo antes disso, muito pelo contrário, mas depois que engravidei, mermão, eu tenho me superado a cada dia que passa… Tudo começou quando a bonitona aqui, voltando da viagem de ano novo, simplesmente não aguentou a volta pra casa, e precisou parar em um posto de gasolina no meio da Avenida Brasil pra fazer xixi. Tá achando normal, tranquilo, beleza?! Pois é, não é não, a Avenida Brasil é um os lugares mais bizarros pra você parar pra fazer esse tipo de coisa. E como eu nem sabia que tava grávida, fiquei com medo, sei lá… de morrer. HAHAHAHAHAHAHAHA

Depois, durante todo o primeiro trimestre, eu fiz cosplay da Linda Blair no Exorcista, poderia até ter mudado meu nome pra Regan, de tanto que eu vomitava. Parecia que eu tava atravessando o oceano Atlântico numa canoa de tão mareada que fiquei. Quando a gente lê nos blogs por aí, ou naquele site bonitão falando dos sintomas da gravidez, a gente lê náuseas, hiperemise gravídica e um monte de nomes esquisitos. Mas a verdade é que você vomita e vomita muito. Vomita tanto que sai pelo nariz e fica ardendo por uma semana e aquele cheiro de azedo parece que nunca mais vai desimpregnar das suas narinas, e de preferência isso acontece quando você ainda não terminou de almoçar, e pra completar, ainda está em um restaurante, e pra coroar com um carimbo de Muito Bom (que a saudosa Tia Jaciara carimbava meus cadernos quando eu escrevia meu nome na linha pontilhada), a pessoa fez isso tudo e não conseguiu chegar no banheiro, já imaginou a cara de alegria dos funcionários do restaurante?! Então imagine!

Aí vem o segundo trimestre, olha que maravilha, olha que beleza, olha que barriga aparecendo. E quando de repente vem uma nuvem de lágrimas sobre os meus olhos… E qual o motivo pro pranto rolar? Isso aí, varia… pode ser da unha do pé encravada, passando por aquele fiapo de cabelo que insiste em nascer no seu queixo, até motivo nenhum, mas o fato é que grávida chora, mas chora por tudo, até vendo comercial de pomada de bunda de bebê na televisão. E o choro não escolhe hora nem lugar não… Pode ser na fila do pão, comprando o jornal, mas no meu caso foi num laboratórios pra fazer exame mesmo!

E quando a gente menos espera, o terceiro trimestre tá batendo à porta, e eu como boa grávida de gêmeos que sou, já fico como?! DESESPERADA. E mesmo sem nada pronto, qualquer motivo já é motivo de caos e a gente corre pra emergência, sem mala, nem nada (porque sou dessas, procrastinadoras que deixa tudo pra última hora). E numa dessas eu achei que minha bolsa tinha rompido, juro! Aí você me pergunta, mas se não saiu taaaaanto líquido assim, como você não imaginou que fosse outra coisa? Ah sei lá né gente, nunca pari antes, minha bolsa nunca estourou, e eu faço xixi de meia em meia hora, vai que tava saindo e eu não tinha percebido antes?! E lá fui eu pra maternidade, examinada pela 25ª vez desde que fiquei grávida por um plantonista diferente (quedê a vergonha?!) e não era nada, só secreção das cataratas do niágara ou eu tinha feito xixi sem perceber mesmo. Xixi aliás, é um caso à parte, com uma criança encaixadinha e outra meio que por cima, amiga, tá brabo. Cada espirro, tossida, risada é uma escapadinha. Já disse que eu deveria andar com um tapetinho daqueles de cachorro embaixo de mim, só pra me dar menos trabalho. E fora que aqui, já entrando no sétimo mês, já perdi o contato visual com a minha querida genitália, responsável por essa prenhez. É lindo, é maravilhoso, é constrangedor ter que colocar um espelho na frente pra conseguir dar uma capinada, porque cera quente não dá não e ir fazer ultrasom parecendo que saí de um filme brasileiro dos anos 70 também não dá. Pelamordedeus.

E a prenhez é isso, é perder completamente a vergonha na cara pra todas essas nojentices, na verdade eu acho que é um treinamento pras nojentices dos filhos que virão em breve e a gente vai ligar pro pediatra pra falar sobre o aspecto do cocô (não que eu não ligue pro meu GO pra falar sobre o aspecto do meu…), tirar meleca do nariz com um aparelho que parece da NASA, viver com cheiro de leite azedo e esquecer de tirar remela do olho de tão cansada. Eu podia ter dito que isso tudo aí em cima aconteceu com a amiga-de-uma-amiga-de-uma-prima minha, mas como eu já perdi o pouco de vergonha na cara que eu tinha, assumo que foi baseados em fatos reais que aconteceram com a minha pessoa, porque não dá pra acreditar que a vida é uma novela do Manoel Carlos.

 

Caroline Pizzini. 27 anos na certidão de nascimento, mas na idade mental não chega a isso tudo não. Bióloga, quase fonoaudióloga, bartender, mas agora só faz esperar esses longos 9 meses de gestação. Uma pessoa bizarra, levemente bipolar. Que não tem muitas vaidades, que acha que cabelo se corta porque se cresce. Que come o que dá vontade porque se emagrece. Que é estranha e temperamental. Perfeccionista e caótica. Grávida de gêmeos remexedores que deram origem ao Lêmures na Pança.