Vem pra casa você também! Quando a casa, o escritório e os filhos estão todos no mesmo lugar…

Vem pra casa você também! Quando a casa, o escritório e os filhos estão todos no mesmo lugar…

Por: Ligia

Quando a Flavia me convidou pra escrever aqui fiquei muito feliz e comecei a pensar sobre o que eu poderia falar que contribuísse para tantas mães, tantas mulheres que tiveram suas vidas mudadas depois que nasceram seus filhos. Fiquei alguns dias sem saber o assunto, até que o cotidiano claramente me mostrou. É incrível ver tantas coisas que nos acontecem no dia a dia e que podem, cada uma delas, ser tema pra uma longa conversa. Num certo dia, depois de ter vivido uma situação, postei no Facebook o seguinte trecho:

“Trabalhar em casa é assim: você almoça, o editor te liga, você pede pra ligar dali a 20 minutos, ele retorna, você tá terminando de varrer metade da comida da cria que tá no chão, você larga a vassoura e a sujeira meio por ali, leva o notebook pra mais perto, senta, conversa com o editor, a cria pisa na sujeira e pega a vassoura, aí a cria começa a gritar de animação porque acha a vassoura a coisa mais incrível do cosmos, você pede pro marido – que também trabalha em casa – pegá-la porque você não ouve mais o editor, ele pega, ela começa a chorar porque queria mexer no notebook da mãe, aí ela dorme, você continua a conversa com o editor, ouve a segunda linha tocando, chega um amigo querido pruma visita, o marido o recebe, você conversando com o editor dá oi com a mão pro amigo, cria dormindo, o editor desliga, você vai conversar com o amigo, aí liga a amiga dizendo que tá vindo pra cá pra gente resolver umas coisas da outra empreitada, você se programa pra fazer um café pra acompanhar o planejamento com a amiga, volta pra conversar com amigo, aí lembra de tirar a vassoura do meio e terminar de varrer o que faltava, vai varrendo e vai conversando com o amigo. O bom de tudo é estar em casa de chinelo e vestido, cria só de fralda pra lá e pra cá, marido de bermuda, sol entrando, cheiro de mar. Enquanto eu escrevia isso, cria se jogou na piscininha, foi água pra todo lado e agora eu vou lá com ela, enquanto a amiga não chega. Home sweet office, ou Office sweet home: a gente vê por aqui”

Escrevi apenas pra compartilhar um pequeno pedaço da rotina de uma mãe que fez da casa também seu escritório e, dali a pouco, um monte de outros amigos e amigas postavam abaixo mensagens de identificação por também viverem isso. Gente que abriu mão da rotina em uma instituição pra ter a liberdade de trabalhar junto com a família, pertinho dos filhos. Mais um dos muitos exemplos que tenho tido, todos os dias, de que há uma nova ordem social rolando, há um movimento muito forte de retorno às casas e de transformação delas em espaços multiuso. E aí decidi falar sobre isso, por ver tantas mães e pais que estão optando por viver assim.

Como foi que isso começou a mudar? O que estava desagradável em nossa condição de mulheres mães profissionais que nos levou a optar por isso? Fui lá longe buscar entender isso, e embora o texto tenha ficado um pouquinho longo, é um texto pra toda mãe que redirecionou sua carreira – ou praquelas que estão pensando nisso.

Quem assistiu ao filme O Sorriso de Monalisa, de 2003, pode ver a luta de uma professora para mostrar às jovens alunas que elas não precisavam ter que escolher entre formar uma família e ser uma boa profissional. O filme se passa na década de 50 e retrata bem o que acontecia na época com relação às mulheres que optaram por uma formação acadêmica: elas se formavam apenas pra valorizar o passe, digamos assim; se formavam por se formar, porque era dentro das paredes do lar que ela “se realizaria” como mulher – ou, pelo menos, era isso que queriam que ela acreditasse…

Nas décadas de 60 e 70, a coisa ficou preta pra quem pretendia manter as mulheres em casa numa espécie de reclusão profissional e, por que não, social: empoderadas mulheres foram às ruas, rasgaram os aventais, queimaram os soutiens, subiram nos palanques, enfrentaram os homens e disseram “Chega disso, que eu também sou gente, eu também tenho anseios, eu também tenho desejos e quero ir além”. Lutaram pelos direitos legais, pelos direitos sobre seu próprio corpo, pelo direito de não ser agredida ou violentada, pelos direitos trabalhistas e todas as condições que visavam a IGUALDADE entre os homens e as mulheres. Facilmente compreensível: as mulheres não eram vistas como iguais, mas como inferiores, seres feitos para servir a todos os fins imagináveis.

Foi depois disso que um grande número de mulheres ocidentais penduraram seus aventais, passaram a mão em seus terninhos e pastas e ganharam o mercado de trabalho. Chegaram chegando e, 20 anos depois, chegaram ao topo. A partir daí, as mulheres trabalhadoras passaram a se dividir em duas classes, de maneira geral: as que trabalhavam em casa e as que trabalhavam fora de casa. Nesse período, “trabalhar em casa” significava “fazer as tarefas domésticas”. Lavavam, penduravam e passavam roupas, limpavam a casa, cuidavam dos animais domésticos, providenciavam as compras do mês, preparavam todas as refeições, cuidavam das crianças. Mas poucas pessoas consideravam essas tarefas realmente um trabalho; para muitos, isso ainda estava subentendido na função social de “mulher”, principalmente se elas se tornassem “esposas”. Eu mesma só conheci, em toda minha vida, apenas uma família na qual o trabalho doméstico da mulher era tão reconhecido que a família pagava sua previdência para que, no futuro, ela pudesse ter rendimentos frutos de sua aposentadoria como trabalhadora. As que “trabalhavam fora de casa” tinham horários definidos e tarefas rígidas: saíam de casa, desempenhavam suas tarefas e voltavam pra casa. Não estou falando nenhuma novidade ao dizer que essas últimas, em 90% dos casos, acumulavam também as tarefas das primeiras: depois de uma longa jornada, voltavam pra casa e encaravam mais uma, que envolvia, mais ou menos, tudo o que as primeiras faziam.

Sim, chegamos no topo! Mas a que preço?

Chegar ao topo foi almejado por muitas jovens mulheres. Para a pergunta “o que você quer ser quando crescer?”, novas respostas foram aparecendo que não apenas a tradicional “quero casar, ter filhos e comprar uma batedeira”. Muitas meninas começaram a responder, também “quero ser uma mulher de sucesso com uma brilhante carreira”. Ótimo para essas duas meninas! Ótimo para a que queria casar, ter filhos e comprar uma batedeira. Ótimo para a que queria ter uma carreira e chegar ao topo. Mas para aquela que, por ventura, tenha respondido “Quero ser uma mulher de sucesso, casar, ter filhos, uma batedeira prateada e uma carreira brilhante” a coisa sujou feio… O mundo não estava pronto pra ela…

Então as meninas desse último grupo cresceram, estudaram, construíram suas carreiras com afinco e, justamente no período em que atingiriam o ápice da carreira, começaram a sentir vontade de realizar a outra parte do sonho: formar uma família. Encontraram um parceiro, tiveram seus filhos, tiraram licenças-maternidade e quatro meses depois… começaram a sentir que tinha alguma coisa errada. Doía ter que deixar as crianças na creche. Doía não poder estar com eles durante todo o tempo em seus primeiros meses de vida. As crianças cresciam e elas sentiam um vazio por não poder estar com eles em suas primeiras descobertas. A rotina era estafante e pouco tempo restava, após suas atividades profissionais, para estar com os filhos e com o companheiro. Os filhos pediam atenção, elas se sentiam angustiadas, as coisas não estavam bem. Não era isso o que ela haviam sonhado para si…
Essas meninas, mães de família e grandes profissionais, em função das escolhas que fizeram posteriormente, dividiram-se em dois grupos gerais.

•    Grupo 1: mantiveram-se até o fim divididas entre carreira e família, saindo logo cedo pra trabalhar, retornando à noite e com pouco tempo para ver os filhos crescerem, com a sensação de que as coisas não tinha saído como planejado.

•    Grupo 2: não deram conta da pressão emocional, abandonaram as carreiras e passaram a se dedicar somente à família. Para essas, um dos problemas estava resolvido, mas sentiam-se pela metade…

E foi então que, da insatisfação com a situação, surgiu um terceiro grupo… Um grupo disposto a encarar uma nova revolução feminina. Um grupo disposto a dar um novo salto. Um grupo que se levantou um dia e disse: se eu sou mulher e, para mim, é tão importante ter uma família com quem conviver de maneira próxima, presente, constante, quanto ser uma profissional bem sucedida e realizada, deve haver uma maneira de conciliar tudo isso. E foi quando perceberam que, se era em casa que estavam suas crianças, então seria em casa que iriam trabalhar. Essas são as mulheres que mudaram suas vidas profissionais depois que os filhos nasceram. Porque não conseguiram aceitar o fato de ter que delegar os cuidados com seus filhos pequenos a terceiros se quisessem voltar a trabalhar. Porque queriam cuidar das crianças de maneira presente sem ter que abrir mão de seu desenvolvimento profissional.

Obviamente, muitas mulheres optam diariamente por voltar ao trabalho findada a licença maternidade e fazem isso tranquilamente. Mas muitas outras não conseguem agir assim, dói a separação e trabalham infelizes. Para as que encaram com tranquilidade a separação dos filhos pequenos para o retorno ao trabalho, há uma organização social pronta para acolhê-las: existem creches ou escolinhas que recebem seus filhos, com horários compatíveis com seus horários de trabalho, recebem apoio e são incentivadas a isso. Mas para as que decidem trabalhar em casa, junto com as crianças, toda uma nova ordem social precisava ser criada… Não são muitos os empregadores que permitem a realização das tarefas a partir de casas; não são muitas as profissões que te permitem trabalhar em casa e não dentro de uma instituição. Muitas dessas mulheres não conseguiram encaixar a profissão anterior nesse novo modo de vida. Foi quando, então, muitas delas abdicaram da carreira anterior e começaram uma nova. Outras, ainda, redirecionaram a mesma carreira, de forma a permitir maior liberdade. Muitas descobriram novas habilidades, novas aptidões, novos talentos. Redescobriram-se como mulheres, encontraram novos interesses, empoderaram-se como mulheres profissionais e mães presentes e tornaram-se empreendedoras. Mães empreendedoras. Mulheres que mudaram de carreira profissional e criaram seus próprios novos caminhos.

Se, antes, trabalhar em casa significava realizar as tarefas domésticas, agora, trabalhar em casa passou a significar TAMBÉM isso, mas não só. Significa, agora, ter que administrar tudo ao mesmo tempo agora, no espaço do tudo junto e misturado. Mulheres sentadas em suas mesas de trabalho, com seus computadores, ou seus equipamentos de produção, atendendo telefonemas, administrando suas tarefas, dando conta de planilhas, ou de contabilidade financeira, enquanto amamentam, seguram um bebê, trocam fraldas, ajudam nas tarefas escolares dos filhos. Não basta apenas decidir fazer isso, há que se ter uma estrutura que te aceite, compreenda e apoie. Que entenda que você não está em casa para cuidar da casa; que você está em casa também para cuidar da sua carreira enquanto cuida dos seus filhos. Que você está criando um novo espaço de trabalho, onde não há limites muito bem definidos sobre onde começa o trabalho e onde começa a função materna. Há que ser ter um preparo físico e emocional para isso, preparo esse pode ser adquirido com persistência e organização.

Nesse momento, em minha mesa de trabalho, há dois computadores – um funcionando e um capenga -, três cadernos de anotações, um quadro de aviso cheio de recados, um celular, um HD externo, notas fiscais e boletos para pagamento, os livros Mamãe Eu Quero e A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra, um tapa fraldas e um sling dobrado que deveriam estar no quarto, um papel rabiscado por minha filha enquanto eu acertava um trabalho pelo telefone e um pedaço mordido do que um dia foi um biscoito. Não é todo mundo que topa isso. Mas eu topo. Topo porque, logo que ela nasceu, precisei voltar a meu antigo trabalho, ainda amamentando. Sofri muito, emocional e fisicamente, ao ter que sair todos os dias e deixá-la, ao sentir o leite empedrando porque não podia dar naquele horário, ao imaginar que ela poderia sentir a minha falta tanto quanto eu sentia a dela. Sofri fisicamente por acordar algumas vezes na madrugada para atendê-la e, ainda assim, ter que levantar muito cedo no dia seguinte para ir ao trabalho. Até o dia em que decidi que essa não era a vida que eu queria pra mim. Não podia abandonar minha vontade de ter uma grande carreira profissional, mas não podia abandonar a vontade que havia nascido em mim, junto com minha filha, de estar sempre presente em seu início de vida. Então abandonei uma carreira e estou construindo outra. Uma nova que me permite estar com ela na grande maioria do tempo enquanto ela tão pequena. Hoje, após compartilhar aquele trecho lá de cima, uma amiga que também tem filho, disse: eu ficaria doida se fosse comigo. Eu entendo perfeitamente o que ela diz. Muitas vezes me sinto doida também. Mas quer saber se eu quero continuar com essa vida, do tudo junto e misturado, do tudo ao mesmo tempo agora, de trabalhar em casa enquanto ela cresce, podendo educá-la de pertinho, me conectando emocionalmente a ela, aprendendo a conhecê-la em todos os seus aspectos? Ô se quero! Pelo menos até que ela cresça e possa, de posse da segurança emocional que se adquire ao crescer tendo sempre um dos pais presente, enfrentar o mundo sozinha e fazer suas escolhas.

Sou uma mãe que redirecionou sua carreira após o nascimento da filha. Criei, junto com uma amiga que fez exatamente a mesma coisa, um espaço para que outras mulheres que assim fizeram pudessem se reunir e divulgar seus trabalhos. E é com alegria e satisfação que digo: somos cada vez mais! Somos cada vez melhores! E estamos realizando uma nova revolução: a das mulheres bem sucedidas que não precisaram se separar de seus filhos para se realizarem como profissional. Se você também quer isso, é possível. Não é fácil. Mas é incrivelmente bonito. Então, se essa for a sua vontade, coragem: vem pra casa você também!

Sou Ligia Moreiras Sena, mãe da Clara (1 ano e meio), bióloga, mestre em Psicobiologia, Doutora em Farmacologia, fazendo um novo doutorado em Saúde Coletiva, uma das fundadoras do Bazar Coisas de Mãe, em Florianópolis, que reúne mulheres que redirecionaram suas carreiras pra ficar com os filhos. Blogueira convicta, autora do blog Cientista Que Virou Mãe, escrevendo um livro e mais um tanto de coisa que vou inventando pelo caminho, a partir da minha mesa de trabalho na sala da minha casa.