Uma lição do país do consumo: festas de aniversário sem presentes

Uma lição do país do consumo: festas de aniversário sem presentes

Por: Luciana Misura

Você já se pegou pensando no que fazer com tanto brinquedo que o seu(s) filho(s) tem? Todo ano depois da festinha de aniversário você nem imagina onde vai guardar tanta tralha? Você acha que os seu(s) filho(s) tem muito mais brinquedos do que eles precisam? Um tempão depois da festinha de aniversário ainda tem presente que nem foi aberto?

Se você respondeu sim a uma ou todas essas perguntas, você pode gostar de uma idéia que vem ganhando força nos EUA: festas de aniversários sem presentes. Hein? Como assim?

As mães americanas, principalmente as que moram em Nova York, onde essa história de festa sem presentes é mais forte, decidiram colocar nos convites das festinhas dos filhos uma mensagem simples e radical: “no gifts” (não tragam presentes!). Algumas vão além: pedem algum item pra doar pra uma instituição de caridade, como comida, brinquedos usados, livros, e num outro dia depois da festa vão com o aniversariante até a instituição escolhida fazer a doação. Tudo para combater o excesso de consumo e ensinar as crianças a contribuir com os menos favorecidos desde pequenos.

Claro que a prática é polêmica: tem muitos pais que não gostam de receber convites dizendo pra não levar presentes – ficam na dúvida se levam mesmo assim ou não, alguns se sentem incomodados depois em fazer uma festa pros seus filhos que não siga o mesmo padrão sem presentes (“vou parecer ganancioso”), acham que parte da diversão da festa pras crianças são os presentes e não gostariam que os filhos não tivessem essa experiência. “Presentes em uma festa de aniversário são uma norma cultural em todas as sociedades ocidentais, por que transformar isso em uma coisa ruim?”, perguntou uma mãe em um fórum de mães americano do qual participo.

Os pais que optam pela festa sem presentes defendem a idéia como politicamente correta, minimizando o consumo, apontam os benefícios ecológicos e dizem que estão ensinando uma lição importante pras crianças. E claro, não deixam de levantar o lado prático: não tem onde guardar tanta coisa ano após ano! “Não é uma coisa ruim, só desnecessária!” diz outra mãe que já fez várias festinhas sem presentes para os seus filhos.

Na turma dos moderados, várias idéias interessantes para quem se incomoda com a quantidade de presentes mas não quer adotar a solução radical: antes da festa de aniversário acontecer, separe junto com a criança brinquedos que ela não usa mais para doar, e levem juntos os brinquedos para um orfanato por exemplo. Outra dica é não abrir todos os brinquedos imediatamente: tire do papel de presente mas deixe a caixa fechada, guarde e vá abrindo de acordo com o interesse da criança, aos poucos. Presentes que não forem abertos até o Natal por exemplo, são doados para orfanatos ou outras instituições que ajudam crianças. E ainda há o grupo que defende festas sem presentes para crianças muito pequenas, que não tem ainda essa expectativa, até que elas tenham idade suficiente para entender, apreciar e agradecer pelos presentes recebidos. Ninguém entrou em detalhes de como convencer uma criança acostumada a ter festas com presentes a abrir mão de recebê-los…

Para quem se surpreende com a prática justamente nos Estados Unidos, que tem fama de país do consumo, o que notei morando aqui há quase 10 anos é que em todos os aspectos a sociedade americana tem correntes que defendem extremos opostos – do pessoal que faz fila para as promoções da Black Friday meia-noite na porta das lojas ao movimento “Não compre nada na Black Friday”. E é assim em tudo aqui na terra do Tio Sam: dos fanáticos por orgânicos e vida saudável a famílias inteiras que vivem de produtos congelados e fast food; de mães que defendem attachment parenting (como as citadas na polêmica matéria da revista Times recentemente)  as mães que praticam o método cry it out desde 4 meses de idade; tem de tudo por aqui. Aqui onde eu moro, em Austin, a capital do Texas, ainda não fui convidada para nenhuma festinha sem presente (até porque a maioria das festinhas infantis que a gente frequenta são de brasileiros), mas conheço gente em Nova York, Nova Jersey, Michigan, Atlanta e Seattle que já foram em festas desse tipo. Tudo isso para dizer que essa história está longe de ser um comportamento padrão no país inteiro, mas certamente é um movimento que está ganhando força e se espalhando. Será que essa onda chega no Brasil?

Luciana Bordallo Misura, 34 anos, mãe da Julia  e do Eric, morando nos EUA desde 2002. Designer, blogueira, recentemente largou seu emprego para virar sócia fundadora do site Famílias Viajantes que será lançado em breve. Escreve um blog sobre vida nos EUA, maternidade, viajando com crianças e design, o Colagem.