Uma brevíssima consideração sobre o otimismo

Uma brevíssima consideração sobre o otimismo

Por: Gabriela Grossi

Disseram que foi assim:

O mundo já estava todo criado. Inclusive o homem e a mulher já haviam sido criados. E muita coisa já havia acontecido.

A primeira mulher, e todas as demais que a sucederam inclusive, já haviam dado à luz, povoando assim aquele mundo já criado.  Mundo, aliás, que disseram também já ter sido mais belo, mais justo, e melhor. Embora sempre digam que o antigamente, o pregresso era o mais feliz.

Mas voltemos às mulheres que pariram.

Contaram na estória que às mulheres cabia parir com dor. Mas disseram que a estória de tão antiga passou pelo tempo enviesada, e que metade dela, isso sim, não foi contada. E se foi, foi logo engavetada.

Isso tudo me contaram, e só repasso o que ouvi que a dor era só para fazer parte, não tendo nada de castigo ou punição. E que se esqueceu de dizer o mais importante: assim que viu a mulher dar à luz* o criador decidiu:

Concluindo tal façanha, toda mulher precisa além do leite, do descanso e da alegria, de uma dose única, imensa e vitalícia de algo maior e bem bonito que ainda não sei que nome dar.

Algo que fará todas as mães terem muita confiança em si mesmas e nas suas crias. Algo que renove as esperanças a cada manhã, algo que as faça acreditar que tudo, mas tudo mesmo terá um desfecho favorável.

Então o criador, mesmo sem ter nomeado aquilo, soprou sobre cada mulher que viria a ser mãe um sopro morno e suave, feito brisa de verão no fim da tarde; um sopro doce feito mel; um sopro cheiroso feito flor. Quem viu o sopro disse que ele tinha até cor. Eu não vi, mas essa parte da cor eu não posso omitir, porque também me disseram que o colorido deixa tudo mais bonito.

Aí depois do sopro, e vendo as mães com os filhos em seus braços, e vendo que aquilo fazia muito sentido, o criador resolveu chamar aquele sopro de otimismo.

E o otimismo nasceu assim num sopro morno e suave, doce e cheiroso e talvez colorido, soprado em cima de todas as mulheres grávidas.

Essa estória me contaram, e tendo eu só escutado sem ter testemunhado, só repasso o que ouvi.

A verdade verdadeira eu conto agora para vocês: essa estória não foi ninguém que me contou, foi só minha cabeça que inventou.

Mas sendo eu mãe hoje, penso que nenhuma mãe desacredita da vida. Por mais que a lida seja, às vezes, sofrida.

Sendo hoje mãe, penso que as mães são as criaturas mais otimistas, porque mãe nenhuma desacredita no filho.

Mãe credita que vai dar certo, mãe acredita que vai melhorar, mãe acredita que vai passar, mãe acredita que pode que os filhos podem, que juntos podemos. Mãe acredita na transformação, mãe acredita na reinvenção.

Acredita inclusive que o mundo há de ser um lugar melhor. Talvez não tão bom quanto aquele mundo primeiro da criação, mas ainda assim, mais belo e mais justo.

Depois da maternidade eu descobri que sem coragem não há otimismo. Coragem e otimismo não são exatamente sinônimos, mas eles também não andam assim tão separados um do outro. Eu particularmente acredito que para se ater ao lado bom das coisas, a gente precisa de uma dose de coragem. Do contrário, a gente sucumbe à realidade.

Talvez, junto com o otimismo, o criador tenha inventado e soprado também a coragem sobre todas as mães.

Mas essa estória, a da coragem, eu ainda não ouvi.

 

*sem entrar na questão das vias de parto, OK!

 

Gabriela Grossi é mãe do Tomás, e com todo otimismo do mundo, acredita que o segundo filho há de chegar. Antes de ser mãe era do time que enxergava o copo meio vazio. Curiosamente, depois que se tornou mãe enxerga o copo sempre transbordando. Suas acreditanças e outras estórias ela conta no Tudo do Tom