Três loopings e uma queda 180º infinita

Três loopings e uma queda 180º infinita

Por: Gabi Ramalho

Foram uns seis meses sendo “Desejante” escondida, dois meses limpando e preparando o corpo pra começar a tentar, duas semanas de “descuido proposital” em segredo. E aí começou a montanha-russa:

– 3 dias de menstruação atrasada, um pouco de enjôo, a ansiedade no pico, e o primeiro teste de farmácia negativo: baque!

O médico tinha avisado que podia demorar (até um ano!), então eu sabia que não podia esperar demais, que não podia me decepcionar demais…que o negativo era normal.Fui dormir “normal” e tive sonhos angustiantes que me fizeram entender que havia ali uma dor. Que não era normal! Que eu podia, sim, ficar decepcionada, chateada e até chorar!

Só depois de entender isso, de encarar e sentir a dor, é que pude terminar o (primeiro) looping da montanha-russa e relaxar pra esperar o que quer que me esperasse dali pra frente! Sem ansiedade, sem muita esperança… só esperando…

– Mais 5 dias e ainda o atraso. O teste de farmácia agora duvidoso – de ‘segundo traço’ muito clarinho… Vamos pro Beta-HCG!

Aí o duvidoso virou certo, o desejo virou realidade e eu, ainda tonta pelo looping anterior, entrei nesse com um pé um pouco atrás, feliz, feliz, curtindo muito “o vento no cabelo”, mas sem gritar e soltar na voz todo o frio que queria invadir minha barriga!

Lentamente, enquanto íamos dando a notícia pras pessoas mais próximas, falando sobre o assunto e recebendo os parabéns, é que a ficha foi caindo… Voltei em alguns blogs maternos que já acompanhava, pra reler textos que agora tinham todo um novo sentido, assisti vídeos e programas de parto com um nervosismo melhor e mais palpável…Ganhamos presentes, ouvimos conselhos e fomos vivendo juntos as delícias desse que foi o maior e mais gostoso looping da tal montanha-russa!

Meus sintomas de gravidez eram suaves e sutis, de maneira que cada mínima mudança que eu percebia em mim e/ou no meu corpo era fortemente comemorada. E em cada comemoração, cada segundo passado na frente do espelho olhando a barriga, eu ia sentindo que a ficha estava mais do que caída, que o “surreal” era agora parte do meu dia a dia e que o vínculo com o meu bebê era só crescente! Dessa vez, o looping me pegou mulher, me colocou de ponta cabeça e me transformou em mãe, comendo verduras e legumes sem ninguém mandar e tudo! rs

Como da outra vez, esse looping durou “só” uma semana, e aí foi a vez de entrar num novo; mas dessa vez, o looping que veio desembocou em uma daquelas quedas a 180º assustadora e, aparentemente, infinita.

Acordei sentindo cólica e tive um pouquinho de sangramento. Resolvemos ir pra emergência e no caminho a cólica, aumentando, foi ganhando aquela cara conhecida de “começo de menstruação” (isso sem falar no sangue…). Fizemos ultrassom e repetimos o Beta-HCG pra confirmar o que, a essa altura, eu já sabia… com seis semanas de gestação, eu havia sofrido um aborto espontâneo.

Eu já sabia, mas olhava pra tela do ultrassom torcendo MUITO pra que o médico dissesse o esperado: “aqui está o bebê, ele está bem!” – ainda não tinha chegado o dia da minha primeira consulta com o GO, por isso eu ainda não tinha visto nem uma vezinha a “carinha” do meu bebê. Eu torci, mas ele já não estava lá…e aí não foi só o meu útero que, repentinamente, ficou vazio – fui eu inteirinha!

E eu não queria pensar no assunto. Doía pensar, mas se eu “esquecia”, quando lembrava doía mais. Eu não queria falar sobre o assunto. E cada vez que eu pensava em como daria a notícia pras pessoas, eu chorava ainda mais. Passei o dia sofrendo aos pouquinhos, fingindo que não era comigo, evitando sempre que podia… Até que me lembraram que a dor, pra ser processada, precisa ser vivida; esse “blábláblá” sobre o luto que, na prática, faz todo sentido.

Por isso agora dói. E as pessoas já sabem que dói. E eu posso chorar e sentir a dor.

E dói, independente dos argumentos e racionalizações. Mesmo sabendo que “era esperado numa primeira gravidez”, ou que “a natureza é sábia e provavelmente foi melhor assim”, mesmo que “ainda bem que foi cedinho assim”, “ainda bem que você está bem de saúde”, e que “daqui a pouco vocês podem tentar de novo”… Dói. E vai continuar doendo por mais algum tempo.

Por “sorte”(???) não precisei fazer nenhum procedimento, como curetagem, mas isso significa também que vou ficar alguns dias sangrando – “nada preocupante, é como uma menstruação” – e tendo que lidar com a perda devagar, gota a gota, cada vez que tenho que ir ao banheiro ver meu corpo se livrando do que era antes “nosso”…

Continuo caindo da montanha-russa, sem a companhia do meu filho(a), mas (ainda bem!!!!) contando com o apoio, colo e amor do meu marido maravilhoso e o carinho de família e alguns amigos… não é fácil, mas preciso acreditar que uma hora o “passeio” termina, o “brinquedo” desliga e eu posso voltar a colocar meus pés no chão.

E eu, que adoro montanhas-russas na vida real, percebi que odeio essa na versão emocional, essa que só vem servindo pra embrulhar meu estômago e me deixar cada vez mais reticente sobre os sentimentos que virão a seguir…

Acho que mais difícil do que acreditar que essa “vai passar” é criar coragem e comprar o ticket pra começar a rodada de novo. Mas eu sei que o importante é isso: não perder nunca a vontade de brincar e me aventurar!”

ps.: Perder um bebê que “foi seu” por pouco tempo é muito mais comum do que a gente imagina – quando acontece com você começam a pipocar histórias de conhecidos sobre o assunto. Mas me chamou a atenção o quão pouco as pessoas falam sobre o assunto (especialmente as que passaram por isso)! Até virou moda só divulgar a gravidez depois de passadas as primeiras (e arriscadas) 12 semanas!!!
Fiquei pensando nas razões…

Acho que como é “comum”, “esperado” e “tão cedo” espera-se que o sofrimento das mães seja proporcional, curto e mínimo – no velho estilo do “eu já sabia”. E, talvez por isso, as mulheres acabem sofrendo em silêncio, chorando sozinhas no chuveiro e fingindo que “não foi tão grave assim”. Mas a verdade é que a dor não é cronológica ou matemática! Ela é individual e independe de como aconteceu com outras ou do que te foi dito. Ela é particular! E tem que ser respeitada, vivida e – por que não? – compartilhada! Acreditem, isso ajuda! Infelizmente falo com conhecimento de causa…

Aos queridos, curiosos e pacientes: http://gabiramalho.blogspot.com