Terceiro filho, o mais sortudo

Terceiro filho, o mais sortudo

Por: Mari Mari

Eu tenho 3 filhos, para desespero de muitos. As pessoas se espantam quando descobrem que são menos de 4 anos entre o mais velho e o mais novo. Às vezes as pessoas se entristecem por mim, principalmente porque eu já tinha um casal de filhos, o que poderia significar uma família completa para muitos. Mas não para nós. Estamos abertos aos filhos e Deus nos mandou nosso terceiro filho, que é o mais sortudo de todos. Explico.

Cada mãe tem suas neuroses com seu primeiro filho, seja neurose com higiene, alimentação, rotina. Mas mais do que ter tempo para ter neuroses, a mãe tem tempo para se dedicar todas as horas que tiver a esse único filho. E não é porque ela topa acordar de madrugada, ou abdica das baladas ou viagens. Mesmo que essa mãe trabalhe fora, ela olha exclusivamente para aquele filho enquanto vê televisão, enquanto come, enquanto anda pela casa. E pra muitas de nós, nosso primeiro filho é o primeiro neto (com azar, primeiro neto das duas famílias), o que significa muitos pares de olhos filmando aquele bebê o tempo todo.

O segundo filho tem a sorte e o azar de nascer de uma mãe diplomada. Se for do mesmo sexo do primeiro, tem mais sorte. Se for de sexo diferente, é preciso uma especialização, mas o diploma ainda é válido. Mas o segundo filho tem o azar de nascer de uma mãe diplomada no seu primeiro filho. A mãe sempre vai comparar o segundo filho com o primeiro, o tempo todo. Ela não faz isso por sacanagem, mas porque ela tem o manual do filho Joãozinho, então provavelmente esse manual deve servir para o filho Pedrinho, afinal de contas, já sou mãe. No meu caso, apliquei o manual Joaquin em Elena, e serviu nos quesitos rotina, mamadas, hora de dormir e de acordar. Mas nos quesitos soneca e alimentação, não se aplicava.

Por sorte, o segundo filho não tem a exclusividade do olhar pra mãe. Ela o amamenta olhando o mais velho. Ela esquece dele enquanto ele dorme, porque o mais velho está acordado. É aí que você descobre porque os bebês choram: para não serem esquecidos!

Meu terceiro filho tem sorte. Eu já tenho um diploma de mãe de menino e especialização em mãe de menina, ou seja, já lidei com dois exemplares da classe bebês. Posso me dar ao luxo de dizer que já entendi que cada criança é uma pessoa, e o manual que a gente escreve com os filhos mais velhos serve de guia, nunca de gabarito de prova. Sem contar que a vida não para quando o terceiro filho nasce; a gente ajusta aqui, abre espaço ali, cada membro da família faz a sua concessão, mas não dá pra ceder 100%, não? Só pra exemplificar: os irmãos mais velhos passearam muito menos em função do terceiro (isso inclui parquinho do prédio). O terceiro não pôde ter uma rotina bonitinha e redonda porque tinha de levar os outros na escola, e assim vai.

O terceiro filho não tem direito a ser o centro das atenções, quer ver como? Benicio acorda mais tarde e dorme mais tarde que os outros. Foi o único que ganhou livre demanda desde o parto. Tem a sorte de ter um enxoval amaciado. Almoça no horário que dá. Aliás, esteve ganhando papinha de liquidificador, enriquecida com leite e mucilon de arroz. Come bem assim, assim será. Não tem horário pra suco, toma suco quando eu tomo (e me lembro de dar), ou pra ajudar a comida a descer. Come fruta quando dá tempo de preparar, ou quando eu como. Dorme no colo, no peito, na sala, no carro levando os irmãos pra escola.

Poderia dar mais exemplos, mas não são necessários. Meu ponto principal é dizer que o terceiro filho entra na família como o primeiro filho deveria entrar: de mansinho, encontrando seu espaço, sem ser o centro das atenções; entra já fazendo parte de um todo, se adaptando à vida agitada que a casa já tem. A vida pode até parar quando nasce o primeiro filho, e ter uma leve pausa quando nasce o segundo… mas quando nasce o terceiro, nada pára!!

 

Mari Mari, paulista, mãe de três (dois cariocas), mestre em linguística, blogueira fajuta e vi-ci-a-da em escrever. Atualmente escreve no Calma, sou uma só!, quando as crianças deixam. Ainda vai publicar um livro chamado Criando o primeiro filho como se fosse o segundo – um guia a favor de uma maternidade sensata e sem metas inatingivelmente altas.