Tem alguém dormindo no nosso sofá

Tem alguém dormindo no nosso sofá

Por: Luciana

Eu e meu marido temos um sério problema.

Com o casamento? Não, menina, o casamento vai ótimo! O negocio, é que a gente sofre de saracotico, sabe? Conhece aquele comichão que te faz passar horas na internet pesquisando pra onde viajar? Que te incita a comprar todos os livros do Lonely Planet que vê, mesmo não tendo qualquer previsão de conhecer… Laos, por exemplo? Que te compele a atravessar oceanos e visitar lugares como Dubai, Havaí ou passar 1 mês direto do outro lado do mundo viajando sem reservar hotéis ou saber exatamente pra onde ir no dia seguinte – tudo com o filho pequeno a tiracolo?

Sim, e é esse mesmo comichão (talvez numa versão um pouco mais preocupante), que não satisfeito com essas viagenzinhas bobas, ainda te impele a se mudar com mala e cuia pra 6 cidades em 4 países diferentes, sendo metade desses com a cria.

Tudo bem, você chamaria tudo isso de insanidade – no fundo, eu também. E por isso mesmo, depois de me descobrir gravida de novo, resolvemos pegar mais leve. Agora, ao invés de irmos até os lugares, deixamos que os lugares venham até nós. Nos tornamos o que eu chamo de “viajantes estacionários”. Eu sei, você acha que eu estou delirando, né? Então me explico.

É que a gente, diante da dificuldade de se viajar com uma criança em processo de desfralde e um bebê a caminho, porém tentando lidar com o saracotico que ainda nos perturbava, resolvemos fazer parte ativa do CouchSurfing (CS).

– Hã? Couch o que?

Surfing. O CS é uma comunidade de intercâmbio cultural. A idéia é oferecer a viajantes de todo o mundo um sofá na sua casa, uma cama, o quintal pra acampar, um cafezinho, ou apenas dicas sobre a cidade onde você mora. É muito bacana e não existe nenhuma obrigação em hospedar ninguém ou fazer algo que você não esteja disposto ou à vontade (como eu, que nunca recebo ninguém quando meu marido está viajando e sempre prefiro hospedar mulheres ou casais ao invés de homens sozinhos). Da mesma forma, você também não precisa hospedar pra pedir hospedagem pra alguém. Cada um participa como quer e pode.

Nós estamos no CS há três anos, mas só começamos a aceitar pessoas na nossa casa no ano passado, depois que nos mudamos pro Canadá. Já hospedamos um casal de uma americana com um francês que nos ensinaram várias coisas sobre meditação, quatro meninas canadenses que acamparam no nosso quintal, duas mulheres de Praga que brincavam o tempo todo com o Nicolas, e um casal francês que está rodando o mundo há mais de cinco anos somente em bicicletas. A gente ainda não pediu hospedagem pra ninguém, mas um dia queremos fazer isso.

– E dá pra fazer isso quando se tem crianças?

Dá sim, pois existem grupos criados só pra famílias. Tem muita gente disposta a hospedar casais com um ou mais filhos. Só não hospedamos ainda, pois a única família que nos procurou viria numa data que não podíamos. Mas o Nic adora quando temos estas visitas em casa. É muito legal vê-lo interagindo com pessoas de diferentes culturas e que falam todo tipo de línguas.

– E como funciona?

Pra começar, cada membro cria um perfil pra contar um pouco sobre si, especificar o que está disposto a oferecer (hospedagem, cafe, ajuda virtual, etc) e inclusive incluir algumas regras pra quem for visitar (não fumar, não fazer barulho depois de tal hora, o numero máximo de noites que ela pode ficar, o esquema da chave e coisas do tipo).

Tudo é feito de graça e de bom grado. A idéia é trocar experiências e fazer contato com pessoas locais e assim, fugir um pouco do tradicional roteiro turístico. Quem pede um sofá pra ficar não está preocupado com conforto, já que prezam muito mais a oportunidade de conhecer pessoas, vivenciar a cultura delas de perto e trocar experiências de viagens. É incrível quanta coisa a gente aprende, incluindo até cozinhar pratos novos!

– E não é perigoso? Como funciona a questão da segurança?

Pra cada pessoa que fica na sua casa, que você conhece ou fica na casa dela, vocês trocam referencias que vai aparecer no perfil de cada um. Existe também a opção de verificação do membro, onde o interessado faz uma pequena doação e os administradores do CS verificam seus dados e endereço, alem de outras alternativas. Então, uma vez que você recebe um pedido de hospedagem ou pra encontrar alguém, você pode ler o histórico da pessoa, suas referencias e inclusive decidir receber somente quem é verificado ou certificado. Vai muito do feeling também. Antes de decidir, dá pra trocar emails, conversar por telefone e dai pedir mais alguma informação dela se quiser. Se você não se sentir seguro, é só recusar, não existe obrigação de aceitar ninguém.

Enfim, pra participar de algo assim, tem que ir com a cabeça aberta. A gente tem adorado a experiência e o CS é uma das coisas que nos faz realmente acreditar nas pessoas. Pois como o próprio lema dos couchsurfers diz “compartilhando hospitalidade, queremos participar na criação de um mundo melhor, um sofá de cada vez”.
E dessa forma, conseguimos até acalmar um pouco nosso saracotico! 🙂

 

Link: http://www.couchsurfing.org/

 

Post originalmente publicado em janeiro/2012

 

Luciana – Mineira de Belo Horizonte, que adora percorrer o mundo. Já morou na Venezuela com o marido, depois Australia, onde o Nicolas nasceu, e hoje moram nos arredores de Vancouver – Canadá. Ex-geóloga, atualmente mãe em tempo integral e ilustradora nas horas vagas. Grávida da Lily que está a ponto de nascer e completar ainda mais essa família bonita.

Autora dos blogs: Nicolando por aí e la le li lo lu ilustration – onde posta seus lindos desenhos, já conhecidos pela blogosfera afora.