Sua mãe que disse? Não foi a minha que contou?

Sua mãe que disse? Não foi a minha que contou?

Por: Beatriz Zogaib

Quem é que disse que mãe sabe o que diz? Ninguém. Mas se uma mãe tivesse dito isso ao filho, certamente ele iria acreditar. Porque o que mãe fala tem muito peso. Pelo menos para o filho. Mesmo quando ele não acredita no discurso materno, no fundo, sabe que deveria. Quem já não deixou de ouvir a mãe e depois pensou “tinha que ter dado ouvidos a ela”? Eu já. Aposto que você também. Porque mãe quer o nosso bem. E quase sempre sabe o que diz para isso.
Salvo exceções, mãe só fala pensando no melhor para a cria. Desde as recomendações para comer tudo ou levar agasalho até os conselhos para a vida toda. Por isso, falas maternas têm valor. Hoje, mais ainda. Porque além de amor, há conteúdo. Sim, isso mesmo. O que uma mãe diz, atualmente, não raro tem até embasamento científico. Se não, é provável que tenha o máximo de informações que ela conseguiu reunir sobre determinado assunto. Além de experiência, é claro.

É óbvio que nem todas as mães tem perfil “investigativo”. Conheço muitas que não procuram saber nem o mais básico sobre o neném. E outras que, mesmo tendo interesse, esbarram na falta de acesso à informações. Mas, mesmo estas, podem ser imersas no mundo de conhecimentos disponíveis por aí. Através de outras mães interessadas. É comum, por exemplo, histórias de grávidas que estavam à beira da cesariana e, por causa da indicação de um site ou grupo de apoio, lutaram pelo parto normal. Mais comum ainda é essas mães repassarem suas vivências e descobertas adiante. Efeito dominó. Basta ter uma barriga enorme ou um filho pequeno para entrar no jogo.

Não à toa, digo que conversa de mãe tem tantas fontes quanto uma matéria jornalística. Costumo chamar o que nós mães fazemos de reportagem-de-parquinho. Mas, pode ser também de sala de espera de pediatra, de shopping, ou de qualquer outro ambiente em que uma mãe cruze com outra, mesmo que virtualmente. Porque todas adoram conversar. Algumas preferem perguntar. Outras responder, mesmo sem serem questionadas. É um prazer convencer a vendedora a tentar o parto normal. Assim como faz parte das “obrigações” maternas contar a uma desconhecida como foram os primeiros meses de vida do neném ou os primeiros dias na escola. Se a pergunta “seu filho já dorme a noite toda?” fosse refrão de música, certamente faria do hit um sucesso.

A mãe moderna não é muito diferente da de tempos atrás. A diferença é que ela tem mais mecanismos de “pesquisa”. Se ela sempre pôde buscar saber o que é melhor para o filho em conversas informais ou consultas médicas, imagine agora. Hoje, ela lê, assiste, ouve, pergunta, acessa. Se antes, as mães trocavam ideias com vizinhas, mulheres da família e médicos, hoje elas trocam vivências, conhecimentos e opiniões com o mundo através de veículos de comunicação, em especial a Internet. A rede é o novo parquinho das mamães!
Há resposta para tudo relativo a filhos em algum site “perto” de você. Muitas mães têm blogs. Por causa deles, algumas são verdadeiras celebridades desconhecidas. Porque contam boas histórias, dão ótimas dicas, ou simplesmente, compartilham fatos de seu cotidiano, comuns a qualquer mulher que pariu. Os blogs têm publicidade, patrocínio, parcerias. Grandes marcas estão apostando na maior proximidade com as clientes, via blogs de clientes. Empresas passaram a acreditar que não basta ter especialistas renomados colaborando em seus sites, tem que ter mãe. E o que seria ela se não uma especialista?
Sempre fomos especialistas em maternidade. Mas hoje, nossa especialidade pode ser baseada não só em experiência, mas em conhecimento (este muito mais acessível não?). Era da informação bebê! Nós reproduzimos a agilidade dessa era em nossas trocas diárias. Digo troca porque, como dizem por aí, se conselho fosse bom, não seria oferecido gratuitamente. Pois bem. Acredito que o que a mãe moderna a que me refiro faz é trocar. Porque o discurso não segue uma via só. Ele não é unidirecional. Uma mãe fala (ou escreve) o que quer, outra escuta (ou lê), e cada uma pega para si o que funcionar. Como sempre foi. A diferença é que hoje, com mais informação, a interlocutora pode questionar seja lá o que for. Ela questiona o médico, a sogra, a própria mãe. Ai do pediatra se não escutar os questionamentos de uma mãe. Porque ela pesquisou muito antes de elaborar cada questão. E o obstetra que não ouse impedir uma gestante de tentar o parto natural, se assim ela quiser. Experimente digitar o termo nos sites de busca para ver a lista de médicos, grupos de apoio e relatos que aparecem na tela, dispostos a apoiá-la.
Dizer “minha mãe que disse” sempre foi uma ótima justificativa para garantir a veracidade das coisas. Agora, digamos que se a sua mãe disse alguma coisa, talvez a minha tenha contado. E talvez elas nem se conheçam. Mas, com certeza, uma das duas consultou não só o médico, mas as amigas reais, as comadres blogueiras, os livros, os sites especializados, os fóruns de discussão. Assim, o que uma mãe diz tem peso não mais apenas para um filho. Porque se o discurso materno sempre teve valor, hoje, mais do que nunca, ele tem credibilidade. E não é aquela que os filhos nos dão…

Beatriz Zogaib – Mãe de um menino de quase três anos. Jornalista, me afastei da profissão, para viver a maternidade 24 horas, sete dias da semana, sem ajuda de terceiros. Hoje, trabalho em home office, por motivos óbvios. E sou autora do blog Mãe da Cabeça aos Pés que foi criado para mostrar tudo sobre e sob o ponto de vista materno. Autobiografia, livro-reportagem-de-parquinho, crônicas sobre a maternidade, artigos estilo conversa de comadre, coletânea de dicas, textos autoajuda, enfim, um blog de uma mãe jornalista