Sobre pintos, peles e perdas

Sobre pintos, peles e perdas

Por: Mari Zanotto

Ser mãe de menino me abriu os olhos para um universo inédito, misterioso e fascinante. Um universo secreto. Um clubinho onde menina não entra: o universo dos pintos.

Não é que eu nunca tenha lidado com um, façam-me o favor. Mas até aqui, o pinto entrou (ui!) na minha vida de forma meramente recreativa. Pintos são divertidos, simpáticos e um pouco engraçados. Só isso – e eu nunca me aprofundei muito mais na questão. Mas e tudo o que eu NÃO sei sobre o pinto? Quais são seus medos, seus sonhos, suas angústias, seus anseios? Mistérios que nunca me couberam – cada um no seu quadrado, certo?

Tudo mudou quando eu pari uma criaturinha dotada de pinto, vulgo Lucão. Agora o pinto não é mais diversão – o pinto é saúde, é higiene, é responsabilidade, é pátrio poder. Somos, eu e o pai, os procuradores do pinto, responsáveis pelas decisões sobre ele enquanto o próprio dono não está apto.

Agora me diz: como EU vou ser a procuradora do pinto? Como eu vou representá-lo, decidir por ele, zelar por algo cuja alma mais recôndita não alcanço? Se não tê-lo, como sabê-lo?

Em meio a esses questionamentos materno-pirocais, uma decisão se fez urgente: meter-lhe ou não o bisturi. É que o Lucas, aos dois anos, começou a se estranhar com o pinto. Eles sempre foram bem amigos, mas ultimamente Lu estava se incomodando com as ereções (sim, futuras mães de meninos: bebês meninos têm ereções. Ereções poderosas, muitas delas, desde sempre. Alguém já te disse isso? Pra mim nunca tinham dito…). “Pinto duiu!”, ele choramingava, segurando as partes todo agoniado. Opa! Soou o alarme. Ereções deveriam ser divertidas, não? Então fomos fazer uma análise mais cuidadosa da questão. Lucas (perdão, filho, mas vou falar) tinha um prepúcio meio tortinho: além de a pele sobrar um bocado, a abertura era estreita e quando era repuxada, desviava para a direita, tipo uma boquinha torta. A abertura do prepúcio não estava alinhada com o orifício do pênis, deu para entender? Estávamos com dificuldade para limpar e ele frequentemente apresentava a pontinha do pinto inflamada. Pobre pinto, pobre Lucão!

Tivemos duas indicações de urologistas pediátricos: Doutor Uenis (haha, juro por diós!) e Doutor Pinus (HAHAHAHAHA, juro de novo, sérião!). Então primeiro a gente precisou se convencer que não estava em uma pegadinha do Faustão, porque né? Devo confiar o pinus do meu filho ao Dr Uenis ou o uenis do meu filho ao Dr Pinus? Como manter a abordagem séria que o tema merece? Quantos trocadilhos por parágrafo são permitidos? Como lidar com o fato de que se eles derem google nos próprios nomes podem achar esse post (com todo respeito, doutores!)? Muitas questões.

Acontece que ambos foram a favor da postectomia (nome chique para a boa e velha circuncisão). Não tiveram exatamente a mesma opinião sobre a tortice do prepúcio do Lu, mas concordaram que havia muita pele, pouca abertura e uma inflamação persistente por conta da higiene meia boca (e não é que ele não tomasse banho, ok? Era mesmo difícil de limpar).

Não sei quem aqui já passou por uma consulta dessas, mas pra mim a impressão que ficou foi: os médicos falam com você como quem vai espremer uma espinha do seu filho, e não derrubá-lo com uma anestesia geral para cortar-lhe as partes. Por um lado isso é bom, tranquiliza, mas por outro, me fez sentir meio pateta. Eu sou a mãe, gente. Eu estava ali, controlando as lágrimas, o coração aos pulos, marcando uma cirurgia no meu bebê precioso, e os médicos nem-te-ligo falando pra eu combinar tudo com a secretária. Eu teria preferido um abraço, lencinhos, chá de camomila, que eles me abanassem com o jaleco e dissessem que tudo ia ficar bem. Um pouco mais de empatia solidária, de drama, de calor no coração. Vai ver abandonaram o calor no coração depois do milésimo prepúcio cortado, mas sei lá, era a minha primeira vez e eu tinha todo direito de ficar toda fricoteira na consulta que decidia o destino do pinus, ops uenis, ops pênis, do meu Lucão.

Acolhimento aos fricotes da mãe não estavam incluídos nos honorários, ok, entendi. Superei os fricotes, escolhemos o médico, marcamos a cirurgia. Um dia antes explicamos para o Lucas o que ia acontecer com o pinto dele, evitando a palavra “cortar”, para não causar pânico. Dissemos que o médico ia, hum, “tirar” essa pelezinha sobrando, tá vendo?, para o pinto do Lu ficar bem lindão e não incomodar mais. Ele fez que entendeu, concordou, disse pinto duiu e, sem mais, foi tocar piano. Como é bom ser bebê!

Pois bem, na última quinta-feira acordamos às 5h15 e fomos para o hospital. Lucas ganhou duas pulseirinhas fluorescentes na internação e ficou todo prosa, coitado, sem nem desconfiar que dali a uma hora estaria com um bisturi na piroca. Tomou Dormonid, ficou loucaço (dúvida: deve-se gargalhar ou chorar nessa hora?), fomos juntos de maca para a sala de preparo, depois ele seguiu sozinho para a anestesia fingindo que dirigia a maca: vrrrrrrum, bi-bi! Doido varrido. Seria engraçado, se não fosse a porra de uma cirurgia (desnecessária?) que ia cortar fora um pedaço do meu filho, céus!

Resumo rápido: mãe chora lagriminhas, entucha um pão de queijo goela abaixo, socializa com outras mães na porta do centro cirúrgico. Pai está no quarto da internação, em negação, lendo jornal compulsivamente – homens ficam um bocado impressionáveis e sensíveis com essa coisa de pinto cortado, por que será?

Menos de uma hora depois me chamam para a salinha de recuperação. Entro nervosa, pensando que meu filho estará em frangalhos, sangrando, entubado, mutilado, curativado e deprimido. Não: ele está dormindo, completamente vestido, usa uma fralda comum e tem 8 tatuagens de banca de jornal espalhadas pelo corpo, o que achei um efeito colateral um tanto curioso. Acorda sozinho, resmunga, fica naquele dorme-acorda doido por uns 15 minutos, acorda de vez, resmunga que quer ver o pai, vamos para o quarto. Ali ele toma 3 caixinhas de suco, almoça sopa, toma leite, come fruta (tudoaomesmotempo) e sai correndo todo contente, fazendo malabarismos no encosto do sofá.

Faz xixi sem reclamar. Um enfermeiro troca a fralda, Lucão nem tchuns. Aprendo a limpar o pinto com soro fisiológico e passar a pomada na gaze que protege o machucado. A piroca do meu filho virou uma salsichona vermelha exposta, a coisa está bem feia, mas ele não parece se incomodar. Eis a malandragem: ainda está sob efeito da anestesia local. Saímos do hospital achando tudo tranquilíssimo e só à noite, horas depois, é que percebemos que não vai ser tão fácil assim.

Os dias seguintes são mais chatinhos. De modo geral, ele está ótimo: corre, brinca, segue com o bom humor de sempre. Dorme normalmente, as trocas de fralda não envolvem grandes cuidados além de soro fisiológico + gaze lambuzada de pomada. Mas ele reclama a cada xixi e nas trocas, quando preciso encostar no pinto, que está inchado e roxo (o pai quase desfalece quando vê, imaginem a situação). Lu toma analgésicos de 6 em 6 horas, o que ajuda bastante com a dor (as trocas de fralda da manhã, quando o efeito do analgésico já passou, são as piores). Nada de banho: a higiene do pinto é feita com o soro fisiológico, e o resto do corpo a gente resolve com uma toalha molhada, num “banho de gato” que ele acha divertidíssimo.

Assim se passaram três dias, cada um mais fácil do que o anterior. Escrevo esse post no quarto dia – ele acabou de ter alta e está liberado para ir para a escola, tomar banho de chuveiro, brincar alucinadamente como é de seu feitio. O pinto desinchou, os pontos estão se soltando, a troca de fralda está bem mais fácil. Ainda reclama aqui e ali – pinto duiu, mamãe! – mas logo passa. Viu o pinto novo pela primeira vez agora há pouco, disse que tá bonito, cutucou de leve. Sobreviveu. Sobrevivemos.

Quero crer que foi o certo a se fazer. Não era uma cirurgia absolutamente necessária, pelo que entendi. O prepúcio ainda podia se soltar e talvez o desvio para a direita se corrigisse sozinho. Nunca saberemos. Já éramos simpáticos à cirurgia por outras razões – higiene, saúde – e sabíamos que, se for ser feita, quanto antes melhor. Talvez a indicação dos urologistas tenha apenas legitimado algo que já estávamos inclinados a fazer (não vou entrar no mérito aqui, joguem no google que vocês vão encontrar diversas razões para fazer e não fazer a cirurgia – gosto especialmente dos textos do Drauzio Varella sobre homens circuncidados e HIV. Ah, façam essa pesquisa na intimidade do lar, porque fotos de paus vão pular na sua cara, ok?).

No fim das contas, achei tudo relativamente tranquilo. Mas é muito ruim entregar um filho na porta de um centro cirúrgico, ainda que para uma bobagem dessas (é uma bobagem, perto de outras coisas que vi por ali). Dá uma sensação horrorosa de impotência, medo, culpa.

Também tem me dado uma agonia esquisita: a nostalgia do prepúcio ausente. Papo de doido, eu sei, mas é sério! Percebam: me devolveram menos Lucas do que eu entreguei, correto? Um centímetro quadrado a menos de Lucas, no mínimo. E eu amo cada centímetro do meu filho. Eu gostava daquela pelezinha, pô. Era frouxa, era friazinha, era enrugada e bonitinha. Era dele. Era ele. Aquele prepúcio era o meu filho, eu amava aquele prepúcio, e agora ele se foi para sempre. Fará falta? Existirá como um membro fantasma, daqueles que os amputados ainda sentem anos depois da amputação? Lucas se ressentirá da falta do prepúcio, que ele gostava tanto de puxar, tóim-tóim? Haverá um trauma eterno? Uma sensação de castração? Um pinto exposto contra sua própria vontade? Pintos têm vontade? Como lidar com pintos quando não se tem um pinto, afinal?

Mulheres não podem ser as procuradoras do pinto, eis a minha opinião. Mulheres e pintos podem até se dar bem, muito bem, exageradamente bem, mas falamos línguas diferentes. Homens, pais, responsáveis do sexo masculino: superem a aflição e a fricotagem e representem os pintos, pinus e uenis de seus filhos, por favor.

É que mulheres, meus amigos, não entendem picas.


Mari é mãe de Alice e Lucas e escreve o Pequeno Guia Prático para Mães sem Prática