Sobre folclore familiar, palavras equivocadas e a linhagem da Elizângela

Sobre folclore familiar, palavras equivocadas e a linhagem da Elizângela

Por Mari Zanotto

Alice pede “bici” dentro de casa e ganha colo. Não lembro quando ela inventou isso, mas pegou. Bici = colo. O termo entrou para o folclore familiar e até o Lucas já aprendeu, vive pedindo bici por aí. Mas quando o Lu pedir bici para a professora na escola, ele não vai ganhar colo. No máximo, vai ser colocado bem a contragosto sobre uma bicicletinha. E o coitado nunca vai entender o que está dando errado na comunicação de algo tão simples: bici é colo, ué. Qual parte esse povo não entendeu?

O problema é que bici não é colo. Agora me diz: quedê os pais que não ensinaram pra essa pobre criança a palavra certa? Estão por aí, rindo e achando tudo muito fofo. Pais são meio bobos mesmo. É dificil encontrar pai ou mãe que resista à tentação de deixar a prole passar apuros pelo simples capricho de ouvir palavras erradas. Bonitinhas, mas erradas. Um pequeno abuso de poder que vem do fato de que pais sabem muito e crianças sabem quase nada.

Para quem não tem base nenhuma, aprender é um ato de fé. Alguém fala, você acredita. Que bom que os nossos primeiros professores são os nossos pais, em quem a gente confia cegamente e que nunca, nunquinha iriam sacanear a gente, né pessoal? Not!

Pois a maioria dos pais morre de rir com as palavras equivocadas dos filhos, e faz questão de não corrigir. E assim surge um repertório familiar todo próprio, cheio de palavras inventadas que só fazem sentido dentro de casa. Só que essa parte eles não contam, os canalhas, de modo que as criaturinhas vão pra vida achando que tudo o que aprenderam em casa é universal.

As referências da infância são as que ficam, certo? Mas e se você, como eu, chamar o espaço entre os dedo de “givão do dedo” por anos a fio, sem que ninguém faça nada para te impedir? E se passar seus primeiros oito anos de vida dizendo palavras como “acleta”, “nesclê” ou “indiota” e ninguém tiver a decência de te corrigir? E se aprender em casa que caju é uma fruta “pertuchenta”, para depois descobrir que ninguém faz a menor ideia do que você está querendo dizer com isso e a palavra provavelmente saiu da cabecinha louca do seu pai? E se – pior de tudo – esse palavreado dôdjo se estender para além da infância? Hein? Hein?

Acontece, queridos.

Sei da história de uma moça que, na faculdade, participava das aulas dizendo: …eu queria fazer um adentro – querendo dizer adendo. Fa-cul-da-de. A moça tinha pelo menos 18 anos. Onde estavam os pais (os amigos, os professores) dela esse tempo todo, meu deus?

Eu chamava requeijão de “queijo de copo”. Eu, meus pais e meu irmão – a diferença é eles sabiam que era um apelido boboca e eu achava que era o nome oficial. Porque quando a gente é criança, aprende o nome das coisas mas não questiona se aquele é o nome de fato ou é uma piadinha interna dos pais, certo? E mais: a gente confia neles e quer crer que tudo o que eles ensinam é legítimo. Então acreditei por anos no queijo de copo, no givão do dedo e nas comidas pertuchentas (que, by the way, são aquelas que amarram a boca, tipo banana verde. Pelo menos é o que diz meu pai – mas vai saber.).

Acreditei em cada uma dessas palavras do mesmo jeito que a Alice acredita no bici. Do mesmo jeito que tem certeza de que sutiã se chama porta-seio e que o pernilongo está mortinho da Silvia. Alice usa temônitus para medir a febre e não gosta de andar nas ruas de paralelepítolos, pois tropeça. Alice acha que brincar é divestido e gosta de sorvete coberto com gargamelho. Agora me pergunta se eu digo pra ela que o nome certo é caramelo, ou se eu vou passar o resto da minha existência oferecendo gargamelho pra ela? Pois é…

O problema é que as palavras equivocadas são tão adoráveis que a família adota e não consegue mais desapegar. Claro isso vai gerar uma confusão e muito constrangimento (mergonha) lá na frente, mas como resistir? O que pode ser mais engraçado do que uma criança dizendo porta-seio ou givão de dedo? Então as palavras vão ficando, os adultos trocam olhares risonhos cada vez que elas aparecem e um dia, quando você tiver 18 anos, um professor da faculdade vai te explicar que não existe givão entre os dedos, só vão. E você vai querer esganar seus pais. Ou se vingar nos seus filhos, que é mais fácil.

As palavras nem são o mais grave. Palavras serão corrigidas, cedo ou tarde, à revelia dos pais. O problema maior são os conceitos. Os paradigmas. As certezas inabaláveis. As construções de mundo que nos acompanham desde sempre, e que de repente, não mais que de repente, caem por terra.

Quando as certezas de toda uma vida se revelam falsas, o que sobra, minha gente?

Um grande vazio. A desmoralização pública. E o pior de tudo: as chacotas vindas do próprio marido, que te ama na alegria, na tristeza, na saúde e na doença, mas te esculacha a cada barbaridade que você diz.

Tomemos como exemplo o episódio da Elizângela.

Até ontem eu achava – achava não, eu sabia – que a Elizângela era filha do Zacarias. Alguém me contou isso um dia (papai?) e eu não tinha a menor razão pra duvidar. Filha, ué! Claro que é filha, é só olhar pra cara dos dois. Pois bem, eu passei toda uma vida usando essa informação em conversinhas de bar, até o dia em que falei pro Carlos e achei que ele tinha sido atingido por uma bomba de gás hilariante. Rarará, claro, LÓGICO que é! A Elizangela é tão filha do Zacarias quanto a Hebe é filha do Monteiro Lobato!, me disse o pândego, às gargalhadas.

Uau! Hebe e Monteiro Lobato, quem diria? Realmente as sobrancelhas são meio parecidas e… MAS OI? PERALÁ! Esta pessoa está tentando me dizer que a Elizângela NÃO É filha do Zacarias? Choque! Indignação! Como ousa?

Pois no fim das contas não é mesmo, e de repente eu me dou conta de que eles nem são tão parecidos assim, caceta. Nada a ver, a Elizângela e o Zacarias. De onde veio uma besteira dessas? A Elizângela não é filha do Zacarias, claro que não. Eis mais um paradigmas que vai ao chão para abalar o mundo tal qual o conhecemos. E o meu orgulho, como fica? Que fazer com essa convicção besta que me acompanhou por mais de 30 anos? Quem é responsável por isso, afinal? E ONDE ESTAVAM OS MEUS PAIS QUE DEIXARAM ISSO ACONTECER???

É nisso que eu penso quando deixo a Alice falar de mortinho da Silvia, paralelepítolo e gargamelho. Um dia ela vai descobrir a verdade. Vai passar mergonha. Vai se sentir enganada. E a culpa vai ser de quem? Minha! Dessa mãe que riu às custas da criança em vez de exercer a função materna de educar e evitar situações desmoralizantes no futuro.

Mas como nada é mais feio do que maldizer a mãe, ela vai guardar a raivinha e esperar o momento oportuno de ter seus próprios filhos para sacanear. É a lei da natureza, o eterno retorno, the circle of life, etc. Quem viver rirá verá.

(E sorte da Elizângela de não ser filha do Zacarias, pensando bem. Imaginem o potencial sacaneador da criatura, valha-me deus…)

(post originalmente publicado em fevereiro de 2012)

*Segunda parte desse post, aqui*