Sobre escolas, limites e vestir a carapuça

Sobre escolas, limites e vestir a carapuça

Por: Mari Zanotto

Semana passada tivemos reunião de pais na escola da Alice.

Eu adoro reunião de pais. Gosto de estar no ambiente, ver desenhos expostos nas paredes, ouvir sobre o trabalho que tem sido feito com as crianças e quais as propostas do semestre. E adoro o vídeo dos pequenos em ação, que sacia um pouco da nossa vontade de ficar espiando nossos filhos em um ambiente que é apenas deles, sem pais por perto – ver crianças interagindo livremente é sempre loucamente divertido.

Seria mais uma reunião normal, até que a coordenadora/fundadora da escola entrou e pediu a palavra. E aí, amigas, foi um esculacho sem precedentes. Ela chegou pra botar o pau na mesa (ops, mais respeito porque ela é uma senhora muito distinta!) e falar algumas verdades para a gente.

Eu não vou conseguir reproduzir exatamente o discurso, mas a ideia geral é a seguinte: ela tem notado mudanças no comportamento dos alunos ao longo dos anos (trabalha com crianças há décadas), e diz nunca teve uma turma tão barulhenta, teimosa e sem limites como agora. Crianças cheias de vontades, acostumadas a ter tudo e que não aceitam ter seus desejos frustrados. Crianças que gritam, batem, ignoram os chamados dos adultos. Essa queixa, segundo ela, tem sido muito comum entre todos que trabalham com educação.

Ela tem a impressão que os pais perderam a mão e não sabem mais como educar os filhos. Falta pulso, autoridade. Observa pais imaturos, extremamente permissivos, com outras prioridades e que tentam compensar falhas ou ausências com coisas materiais. Resumindo, estamos criando uma geração de monstrinhos individualistas, consumistas e sem limites.

Ela se sente de mãos atadas. Disse que a escola tem um limite de atuação, e que a educação de uma criança é responsabilidade dos pais em primeiro lugar. Criticou os que delegam à escola (ou babás, avós e afins) tal função. Acredita que, mais do que um simples contrato de prestação de serviços, deve haver uma parceria entre pais e escola. Foi por isso que decidiu ter essa conversa, enquanto a maioria das escolas não aborda o assunto para não incomodar os pais (o que significa correr o risco de perder alunos).

Ela falou por uns 15 minutos. Saca climão? Foi por aí. Um silêncio sepulcral na sala. Todos os pais meio afundados nas cadeiras, cada um vestindo a carapuça que lhe coubesse. Vi alguns com um ar meio indignado, mas ninguém ousou retrucar. Acho que rolou um questionamento geral, “será que ela está falando de mim, do meu filho?”. Por mais seguro que seja, ninguém consiga sair indiferente de uma situação dessas. Eu, pelo menos, saí bem mexida e questionando um monte de coisas que tenho feito (assunto pra outro post…).

Posso falar? Me senti ofendida, cutucada, provocada, exposta. E AMEI.

Apesar do desconforto que a conversa causou, a escola ganhou mais pontos comigo. Eu, que já era fã da coordenadora, fiquei mais ainda. Achei que ela foi sincera, comprometida e extremamente corajosa.

É exatamente isso que eu espero da escola dos meus filhos: que banque tratar os pais não como clientes, mas como parceiros – e protagonistas, sempre – da difícil missão de educar.

 

Texto originalmente publicado em abril/2011

 

Mari é mãe de Alice e Lucas e escreve o Pequeno Guia Prático para Mães sem Prática