Sobre bebês, cachorros e almôndegas

Sobre bebês, cachorros e almôndegas

Por: Ana Paula Vieira

Tente fazer o neném dormir pra poder almoçar. Não consiga. Continue tentando freneticamente por mais de 30 minutos e nada. Pressão cai, tremedeira, muita fome (considerando a alergia e consequentemente, falta de alimentação adequada nos últimos dias), desespero. Lembre-se da chupeta guardada com tanta convicção, sinta culpa.

– Melhor ela ficar com uma chupeta do que com uma mãe desmaiada e aos cuidados do cachorro.

Pegue a chupeta e enfie na boca da criança. Ela cospe. Tente de novo, de novo, de novo. Ela aprende a sugar e como passe de mágica fica quietinha no carrinho. Esboce um sorriso de alívio e sinta mais culpa. Logo você que abominava esse objeto de plástico tão maligno, que jogava pedras ao ver bebês com elas na boca, que julgou tantas mães pelo mundo. Anyway, você já sabia que maternar é cuspir pra cima e cair na testa, toma-lhe-te!

Respire fundo e comece a comer, aliás, só respirar já ta bom, faz tempo que você não faz isso. “Finalmente, tranquilidade”, pense.

(pausa)
Ora, ora, minha cara, desde que deu à luz naquela maternidade você foi fadada a nunca mais reconhecer essa palavra e o sr. Murphy não seria tão legal. Senta e chora, colega.
(despausa)

Toca o interfone, o cachorro começa a latir enlouquecidamente, neném acorda aos berros. Atenda.

Só um minuto. (Mal sabiam vocês o quando duraria esse minuto)

Não deu pra ouvir nada mas deve ser dos correios, a bendita documentação do plano de saúde que deveria ter chegado semana retrasada, mas pra que, né? Se pode chegar hoje, justamente nesse momento. Pense rápido, pegue a neném e opa! Cadê a chave da porta?

PUTAQUEPARIU. Logo você, que proibiu expressamente qualquer palavrão na frente da filha.

Tente sair pela porta da sala. Só tente. A chave tá emperrada. Sinta vontade de chorar. Corra pro quarto, revire tudo com uma só mão. Não ache. Já era, o carteiro com certeza já foi embora. Ligue pro marido. “Vê na bolsa da Nalu”. Como não pensei nisso antes? Corra!

Neném se acalma com o balanço da corrida nas escadas, menos mal. Pegue a encomenda.

“Olha, já nasceu”, disse o carteiro. Hã? Ele me conhece? Não importa.

Pronto, acabou. Opa, você ousou pensar naquela palavra de novo? Pobre coitada.

Ao subir, perceba que você esqueceu de vestir alguma parte de baixo e está só com o blusão, que deixa aparecer metade do sutiã de amamentação mega sensual e da bunda murcha. Ok, sem problemas, só coloquei a parte de cima do corpo pra fora, ele não viu nada, agora corre de novo pra ninguém aparecer no meio do caminho.

A vizinha da frente está saindo de casa. Vergonha.

Entre, neném-chupeta, sente pra terminar seu almoço. Cadê o cachorro? Deixa pra lá. Perceba que tem mais alguma coisa faltando… sua comida. Encontre os dois, juntos, as almôndegas na boca do cachorro, mais precisamente.

PUTAQUEPARIU.

(Baseado em fatos reais.)

 

Ana Paula é mãe da Nalu e escreve diariamente em um blog que só existe na sua própria imaginação