Seu filho te fome de que?

Seu filho te fome de que?

Por: Cíntia Paiva

Não, este não é um texto sobre alimentação infantil, este é um tema para outro dia. Vou falar sobre tempo, mais especificamente sobre quantidade e qualidade. Nada a ver? Vou ligar os pontos.

Outro dia estava em um restaurante com 4 amigos e um deles, pai de uma menina de 3 anos, me perguntou com uma angustia latente: Cíntia, o que você acha que é mais importante, quantidade ou qualidade de tempo com os filhos?

Achei muito bacana a preocupação dele, que começou a me contar os ajustes profissionais que fez para ficar mais perto da filha, fiquei feliz em ver seu cuidado, ainda raro na classe masculina.

Sempre que me questionam com coisas deste tipo, eu evito dar respostas diretas e prontas, não acredito em receitas, fórmulas infalíveis e verdades absolutas, muito menos quando se trata de gente, seja gente grande ou pequena. Uma das coisas que mais acredito é que a maternidade e a paternidade precisam de muitos ingredientes, mas culpa e arrependimento azedam este prato tão saboroso, então evito gerar esse tipo de sentimento em quem quer que seja.

Estamos cansados de saber que a questão quantidade é extremamente prejudicada pela vida moderna e pelas escolhas dos pais. Pode ser minimizada pela qualidade? Claro que sim, mas existe um mínimo de quantidade a ser pensado, praticado, analisado. Quanto é este mínimo? Não sei, pra mim é muito acima do que vejo no meu ciclo de amizades, mas cada um sabe o tamanho da sua necessidade e disponibilidade!

Algumas coisas eu não abro mão: arrumar e levar na escola de manhã, buscar na aula e almoçarmos juntos: eu, ela e o pai, fazer tarefa da escola e/ou brincar, dar a janta e colocar pra dormir (que envolve banho, comida, historinha e sono). Este é o meu mínimo, 3 ou 4 horas por dia, mesmo nos dias mais conturbados, mas esta é a minha receita, minha demanda, não precisa ser receita pra ninguém, cada família sabe a sua realidade. Já foi maior, nunca menor, mas sofreu ajustes ao longo das nossas vidas.

É fácil? De jeito nenhum. Gasto mais com transporte para ir em casa no meio do dia, precisei buscar um trabalho que se adequasse a minha prioridade, dividir responsabilidades e toda essa estrutura com meu esposo.

Dá pra ser assim sempre? Claro que não, tem dia que não dá, mas é exceção e não regra, e mesmo assim eu “compenso” antes, se sei que um dia vou me demorar e não colocarei ela na cama, na véspera passo a tarde toda com ela, atenção focada, sem celular, sem afazeres domésticos, deixo bilhetinho, faço uma comida que ela gosta e deixo em casa pra ela lembrar de mim e do quanto me importo com ela. Cada um tem a sua receita de amor.

Depois de pensar um pouco, eu respondi a pergunta dele com outro questionamento, e você Antônio, o que acha mais importante? Ele me deu uma resposta linda, surpreendente e cheia de poesia.

– Sabe, Cíntia, eu fico pensando em uma pessoa com fome, que ficou o dia inteiro sem comer, e na sua única refeição eu dou a ela a melhor comida, preparada pelo maior chef do mundo, mas bem pouquinho, uma porção minúscula. Essa pessoa vai adorar a comida, vai ter prazer em comer, mas ainda sentirá fome. Tem sentido?

E se tem, a resposta daquele pai, ansioso em dar seu melhor a sua princesinha, me emocionou profundamente. Eu lhe disse quase em lágrimas:

– Meu querido, tem todo o sentido, que linda metáfora. Sua filha é uma criança privilegiada por ter você alimentando suas emoções. Lembrarei sempre do que você disse e concordo sim, que quantidade e qualidade devem estar juntas. Só uma coisa: fique em paz, nem sei quanto tempo você passa com ela por dia, ou por semana, mas sei que a sua vontade de acertar a receita, já me mostra o sucesso do prato que você está criando.

Toda criança precisa ser alimentada física e emocionalmente, isso é certo! Com que frequência vamos dar de comer a elas? Não sei o tamanho da fome da sua criança, e nem da sua fome, mas os nutricionistas afirmam que o ideal são pequenas refeições, intercaladas durante o dia, vamos tentar? Bom apetite!

 

Cíntia Paiva tem 32 anos, é mãe da Linda, 4 anos muito bem vividos, casada, ama viajar, cozinhar, ler e escrever. Jornalista, psicopedagoga, coach e analista comportamental, é sócia da ProCriando-Maternidade Assistida empresa que oferece cursos para gestantes e orientação para pais, com foco na educação infantil com disciplina positiva e formação de valores.
Para entrar em contato:contato@maesprocriando.com.br