Seu filho fala português? Qual o segredo?

Seu filho fala português? Qual o segredo?

Por: Flávia Mandic

Há cinco anos (parece que foi ontem), quando o Pacotinho de Surpresas chegou ao Iglu, vários amigos e familiares perguntaram que língua usaríamos para falar com ele. A opinião de muitos era de que ele ficaria confuso, alguns mais otimistas achavam que ele iria eventualmente entender inglês, português e servo-croata mas responderia tudo em inglês. Várias amigas brasileiras casadas com gringos diziam que não teria jeito, que mesmo a mãe falando em português com a criança, eventualmente ela passa a falar somente inglês, por conta da escola. Alguns casais de brasileiros, cujos filhos também não falam português, foram descrentes.

Há cerca de 3 meses, fomos a uma festa onde todas as convidadas eram brasileiras casadas com gringos (nem todos canadenses) e, quando chegou para buscar sua mãe e falou em português, o Pacotinho de Tagarelice causou surpresa. “Quem fala português com seu filho?”, perguntou uma convidada. “Em casa, só eu”. “Mas meu filho não fala!”

Verdade seja dita, apesar da fluência, segundo a Santa Tia, o Pacotinho de Conversa tem um sotaque de gringo quando pronuncia o R num encontro consonantal, como na palavra “grande”. Em algumas ocasiões, é quase palpável o raciocínio dele, com a construção verbal em inglês traduzida para o português:
– O que que é isso pra? (what is this for?)
– Pode eu fazer isso? (can I do that?)
– Quando eu vai no Nikko’s casa… (dispensa explicação)

Considerando que ele começou a frequentar a creche, onde só se falava inglês, aos 11 meses de idade, é compreensível este deslize. O fato de não ter uma única célula tímida no corpo ajuda bastante, porque ele se enturma facilmente quando chega de férias no Brasil e, na última ida à terrinha, ainda estava numa idade em que algumas crianças nem pronunciam os RR, então elas não reparam em erros gramaticais. E, se reparam, não excluem o novo amigo por conta disso.

O recado que eu gostaria de passar aos pais brasileiros com filhos pequenos é: não desistam. Persistam. Não precisa ensinar português aos seus filhos, basta conversar com eles na sua língua. Não é difícil, é a língua que vocês falaram a maior parte da vida, aquela na qual se expressam melhor. Peçam aos parentes e amigos no Brasil que evitem dar roupas de presente (as daqui são feitas pra aguentar o tranco de lava-roupa e secadora, duram muito mais) e invistam em DVDs brasileiros ou dublados em português, CDs de músicas ou estorinhas e livros, muitos livros infantis. Desta forma, seus filhos aprenderão vocabulário extra, aquelas palavras que os pais não usam no dia a dia. O Pacotinho de Nostalgia adora assistir aos episódios da década de 70 de O Sítio do Pica-pau Amarelo e foi assim que as palavras saci, Dona Carochinha e tantas outras surgiram aqui no Iglu.

Evitem a todo custo aquelas frases misturadas, tão comuns em reuniões de brazucas, como “Fulaninho, você quer comer chicken? Mommy dá pra você, está yummy.”. Se a criança não sabe a palavra em português e manda um “meu sorvete estava dripping”, é tão simples repetir “seu sorvete estava PINGANDO?”, como acontece pelo menos uma vez ao dia por aqui. Ou será que só eu acho simples e não é?

Talvez algumas famílias não achem necessário nem interessante que os filhos falem português, por qualquer motivo que seja e estão no direito delas.

Sempre me lembro de um amigo da família, filho de pai brasileiro e mãe alemã, nascido e criado na França, que fala português como se tivesse sempre morado no Brasil, mas diz que “gosta de pensar em alemão”. Este xará do meu Pacotinho de Surpresas foi minha grande inspiração.

Eu particularmente não falo nunca em inglês com as crianças, nem se estivermos cercados de canadenses. Se for algo pertinente às outras pessoas, eu falo em inglês com elas, mas com meus filhos, sempre em português. É o que se chama OPOL, “one person, one language”. A criança aprende a falar sempre na mesma língua com aquela pessoa. E tem dado muito certo. Algumas famílias optam por falar português em casa e inglês fora de casa. Qualquer que seja a opção, ainda não conheci ninguém que se lamente “uma pena meus pais terem me ensinado a língua nativa deles, eu seria mais feliz sabendo somente inglês” e trabalho numa verdadeira Torre de Babel, com um monte de colegas estrangeiros ou filhos de imigrantes. A reclamação contrária é bem comum.

Agora há quem diga que, assim que entrar na escola, ele vai passar a falar somente em inglês. Aguardando as cenas dos próximos anos…

Post originalmente publicado em 06/2011

Flávia – Autora do blog: “Crônicas do Iglu” – O dia-a-dia de uma mãe brasileira, casada com um marido gringo, apaixonada por sol e calor, morando há 11 anos numa cidade onde chove 300 dias por ano.