rótulos à prova de culpa

rótulos à prova de culpa

Por Roberta.
Na nossa última viagem ao Brasil, marido e eu comentávamos sobre a tremenda cara de pau da indústria alimentícia brasileira.

E quem lê rótulo de alimento vai concordar comigo: o que mais se vê é um bocado de porcaria açucarada e aditivada, dentro de um inocente pacotinho, onde se lê “fonte de vitamina C e cálcio!”

Não que a gente não comesse porcaria na nossa infância, muito pelo contrário. Mas a porcaria, naqueles tempos, era uma porcaria sincera. Suco cheio de açúcar, corante e aditivos químicos era somente um suco cheio de açúcar, corante e aditivos químicos. Ele não tentava ser o que não era. Q-Suco era Q-suco, Tang era Tang, Cheetos era Cheetos e chocolate podia ter formato de cigarro, para que as crianças se iniciassem no mundo das baforadas de uma maneira doce e eterna.

Eram porcarias sinceras, com exceção talvez de um certo queijinho, que atribuía a si o valor nutricional de um bife. Passada a ingenuidade dos anos 80, descobriu-se que o valor nutricional do tal queijinho era mais parecida com a de um docinho ou um chocolatinho e a propaganda “vale por um bifinho” foi finalmente proibidinha.

Mas daí chegou a era da informação, inclusive nutricional. E a indústria alimentícia teve que se adequar a esse novo público, que já começa a ver o açúcar, o sódio em excesso, a gordura trans e os aditivos alimentares com outros olhos. Posso até imaginar o bate papo entre executivos da indústria alimentícia.

– Vejam bem, o pessoal A e B não vai engolir esse suco aí, não. Eles vão ler o rótulo e vão perceber que isso nada mais é do que açúcar refinado, corante e um pouquinho de fruta, só pra constar.

– Hum, é verdade. Então manda pro pessoal C, que é mais “por fora”.

– OK.

– Pro pessoal mais instruído a gente aplica a estratégia do vitaminado. Fontes de vitamina C, D e Calcio. Dá pra escrever Cálcio em vermelho, dá? E coloca a foto de uma criança sorridente. Pede pra agência selecionar uma criança magra e de dentes brancos. Olho azul, tá?

Sim, a indústria alimentícia brasileira aprendeu a lidar com o bicho-mãe-moderno-classe-média-crescida-nos-anos-80. Uma mãe que se recusa a dar Tang pra cria. Ela prefere dar o tal suco de soja, que a indústria faz parecer um inocente mix de soja com fruta. Mas que, ali no rótulo, é muito mais do que isso.

E assim a indústria vai subestimando nossa inteligência e trabalhando, com maestria, a questão da culpa materna. Culpa esta que faz com que ela pague 10 reais por uma caixa de suco pseudo natural que se diz “puro” e “multi-vitaminado”. Para se ter idéia da palhaçada, aqui eu compro, a menos de 2 reais, um suco sem aditivos, sem açúcar, sem nada que não seja a própria fruta. E detalhe: Cingapura não tem recursos naturais, o suco que eu tomo vem da Austrália e deveria, portanto, me custar mais caro do que um suco que é produzido e vendido no Brasil – país que, diga-se de passagem, se gaba de suas infinitas fontes e recursos naturais.

Me chateia muito menos comprar uma porcaria sabendo que é uma porcaria, oras. “Vou dar uma porcaria pro meu filho comer” – vou lá, compro a porcaria e dou. Assim, sincero. O que não dá pra engolir são os falsos naturais, o cereal em barra que tem mais açúcar que fibras, mas se denomina “o fim dos seus problemas de prisão de ventre”. Ah, tem dó.

Isso me torna uma radical anti-porcariadas em geral? Não, em absoluto, eu acho que tem hora pra tudo, inclusive pra porcaria –  mas porcaria honesta, old school. Nada de me vender gato por lebre, me prometer mundos e fundos, não deixar claro se a bebida pode ser consumida por crianças menores de  X anos.

Rótulos dissimulados, campanhas publicitárias confusas e maliciosas – isso é um problema de todos nós.

Mas é aquela coisa: quem é que vai comprar um produto em cujo rótulo se lê:

“Oi, eu sou o iogurte rosinha/suquinho de soja/suquinho de caixinha.  Faz  favor de me comer com moderação, pois eu sou cheio de açúcar refinado e também levo corantes e conservantes. Cáries, diabetes e obesidade infantil são somente alguns dos palavrões associados ao meu consumo desenfreado. Outra coisa: eu não fui feito pra ser consumido por seu bebê de 4 meses, de jeito nenhum!!  Se o seu pediatra disser que eu fui, ele está mentindo. Viu, mãezinha? “

 

Imagem daqui