Romance é pra quem pode

Romance é pra quem pode

Por: Camila Novais

11 e meia da manhã de uma segunda-feira, exalando o azedume de sucessivas golfadas no ombro, ainda de pijama, com uma recém-nascida pendurada no sling e o cabelo d-a-q-u-e-l-e j-e-i-to, eu vou atender a porta. Um rapaz tem um arranjo de flores nas mãos e me pergunta se eu sou Camilá Nové. Resposta afirmativa, ele me entrega aquela lindeza. Leio o cartão: marido carinhoso mandou flores pelo nosso aniversário de casamento.

Eu tremo.

Pego o celular e ligo pra ele, aos prantos, pedindo perdão por ter esquecido do nosso dia. COMO ASSIM EU ESQUECI? É… Esqueci completamente. Esquecimento digno de Oscar. Mané Oscar! Esquecimento digno de um Nobel. É… Virei uma monstra insensível! A (falta de) rotina de Nina me absorveu de uma forma tal que eu simplesmente apaguei esse dia da minha mente.

Inconformada com o meu esquecimento, pergunto:

– (Gaguejando) Quando você lembrou da data?

– Semana passada.

– Mas por que você não falou comigo, já que lembrou?

– Ah! Por que eu queria fazer surpresa!

A conversa segue. Eu continuo chorando de culpa e de alegria pelo companheiro maravilhoso que tenho até que pergunto:

– Mas por que você deixou pra mandar as flores hoje?

– Ué! Porque é hoje o dia!

Diante dessa resposta, eu gargalho e quase acordo a bebê no sling. Do outro lado da linha, o marido, já acostumado à naturalidade com a qual sua mulher alterna entre “choro compulsivo-gargalhada histérica ad infinitum”, pergunta:

– Você tá rindo de quê?

– (Engasgando com a risada) É que nosso aniversário foi sábado da semana passada.


Camila Novais – Jornalista brasileira nascida e criada na primeira capital do Brasil (Salvador, pra quem faltou essa aula),  morando em Montreal, no Canadá, desde 2009. Mestranda em comunicação pela UQAM, se interessa pelas possibilidades que a troca via blogs oferece a outros migrantes feito ela. Quando criança, fez as contas (nunca foi boa nisso!) e tinha certeza de que no ano 2000 já seria mãe. Mas a resposta estava êêêêêê-RADA! A maternidade só veio 11 anos depois com a chegada de Nina, menina de outono. Autora do blog: Pare de tomar a pílula.