Quebra-cabeça materno

Quebra-cabeça materno

Por Ana Paula Risson

 

Uma das maiores dificuldades que encontro hoje em dia é ajustar o balanço entre ser mãe e não ser mãe: ter um tempo para mim e poder ser só a Ana Paula. Você pode me achar egoísta e talvez eu até seja mesmo, porque na boa, eu preciso de umas horas para mim.

 

E talvez seja pura ilusão minha {me corrija se estiver errada}, mas o fato de não estar no Brasil nestas benditas horas pesa muito na balança familiar. Eu não tenho minhas irmãs, mães e tias por perto, não dá para ligar para a família e pedir que alguém fique uma horinha com as crianças enquanto eu vou fazer sei lá o que. No meu caso ainda tenho a sorte de ter sogros que me ajudam quando podem, e de vez em quando contratamos uma oppas para ficar com as crianças à noite quando queremos sair. E é isso.

 

E “sair de casa” com ou sem as crianças, significa planejar. Sinceramente há pouco espaço para espontaneidade nas nossas vidas {o que por si só é uma característica bem holandesa acredito eu}. Tudo está agendado e planejado. Quem leva, busca e traz. Que horas vamos e saímos. Parece rígido mas não é, chamamos este esquema carinhosamente de estrutura familiar. E na maioria das vezes ele funciona.

 

Mas mesmo com um bom planejamento {e muita flexibilidade} nem sempre as coisas saem como esperadas. É o tal do imprevisto que como o nome já diz acontece por acaso, sem anunciar sua chegada. Porque né, eu não sei quando os molares do Miguel vão nascer e nem quando um vírus resolve baixar por aqui deixando todo mundo de cama, e também não tenho a mínima idéia quando {e porque} eu ou a Julia acordamos de mau humor.

 

Um exemplo: fomos na academia, os quatro, como planejado. A nossa academia tem um berçário, enquanto os pais se exercitam os pequenos brincam sob a supervisão de duas mocinhas. Miguel ficou chorando. E ele normalmente chora quando o deixamos na creche durante a semana mas nunca dura muito. Já perdi a conta de quantas vezes fiquei atrás da porta, escondida, esperando ele se acalmar. Normalmente dura 30 segundos. Dessa vez não.

 

Agora vai explicar para uma criança de 17 meses que ele tem que brincar sozinho enquanto a mamãe e o papai suam na esteira. Não dá! Se eu queria ter terminado meus exercícios? Queria sim, porque correr faz bem para minha cabeça {mais do que para o meu corpo}. Mas é a vida e eu sou mãe. E eu escolhi ser mãe. Então hoje não deu, azar. Amanhã {ou daqui a uma semana} a gente tenta de novo.

 

Acho que para manter a tal balança em ordem, há uma princípio fundamental chamado respeito. De adulto para criança, de filhos para pais. É mútuo. Acho que o equilíbrio não se resume à quantidade de coisas que fiz com as crianças versus o que fiz sem meus filhos. O equilíbrio é qualidade. É passear no parque com os pequenos, é fazer biscoitinhos com eles, ler um livro juntos. E de vez em quando sim, deixar a criançada em casa e ir cortar o cabelo, correr na academia e tomar um café {ou dois} com as amigas. No meu caso, estando longe de casa, trabalhando e tendo que muitas vezes fazer tudo sozinha, a balança poderia ser substituída por um grande quebra-cabeça. Pois é assim que eu me sinto, encaixando as pecinhas do dia-a-dia.

 

E nessas horas eu ainda me pergunto se existe a Ana Paula que não é mãe. Acho que minha vida fez um upgrade há 4 anos quando a minha filha nasceu, exite a vida A.M {antes da maternidade} e D.M. {depois da maternidade}. E eu continuo sendo a Ana Paula que também é mãe da Julia e do Miguel, mulher do Kees e por ai vai…

 

Ana Paula Risson, jornalista, expatriada por amor. Vivendo desde 2004 na Holanda. Mãe da Julia e do Miguel. Feliz. Adora conversar, cozinhar e tomar um vinho. Escreve sobre sua vida em Amsterdam no blog De unha feita – em Amsterdam!