Qual é o preferido?

Qual é o preferido?


Por: Celi Oberding

Outro dia, sem saber exatamente quando, durante uma hora marcada para tomar um café e colocar a conversa em dia com uma amiga, através de uma simples tela de computador, fui surpreendida com a seguinte pergunta:

– Ah, mas fala a verdade. Conta pra mim. Qual é o seu preferido? Qual é o seu filho preferido?

Por um instante parei! Não imaginava que uma pergunta dessa chegaria tão cedo na minha vida, com meus filhos ainda pequenos. Logo lembrei do convívio com meus irmãos, no qual ora um, ora outro, faziam essas suposições e questionamentos para os meus pais. E, se assim posso dizer, ainda estão presentes até hoje. Basta uma fala, um pedido atendido, um desejo solicitado, uma atitude para começarmos apontar para eles: “- Ah, vai fazer isso para seu preferido! Para seu queridinho! Você sempre passa a mão na cabeça dele! Não acredito que você fez isso para ele!” Hoje levamos isso na brincadeira, mas inconscientemente, a certeza de que alguns sentimentos foram vividos um tempo atrás, guardados e trazidos para a memória.

Respondi a pergunta e mudamos de assunto. Respondi a pergunta de maneira mais simples possível, trazendo à tona toda a observação e sentimentos que tenho pelos meus filhos: Felipe e Thomas. Quando terminou a conversa essa pergunta ainda perdurou em meu pensamento.

Mas, como assim o preferido? Será que realmente não existe um preferido?

Os filhos nascem em momentos diferentes da vida do casal. Como um um simples trailer, cenas da minha vida, desde a gravidez do Felipe, foram passando na minha cabeça. Primeiro o desejo de engravidar; a ansiedade pelo nascimento do primeiro filho; o aprender no dia a dia como cuidar de alguém tão pequeno, tão frágil e dependente; a construção do vínculo em cada abraço, em cada palavra; o ato de amamentar, o desejo de trabalhar e, ao mesmo tempo, de se fazer presente o tempo todo; o sonho de viver em segurança; de encontrar o equilíbrio entre a família, o trabalho, os amigos e o tempo individual; a idealização de ser a melhor mãe, já que melhor não existe, mas dentro do possível, acompanhar cada passo, cada conquista.

Entre todos esses ideais, pensamentos e sentimentos o Felipe nasceu. Durante seu primeiro ano de vida, dava aula e trabalhava com formação de professores. No entanto, sempre tendo a família por perto e também a presença de uma pessoa que me ajudava com as tarefas da casa.

Com tudo isso, avalio que nesse período, não me entreguei tanto como poderia. Com todas as circunstâncias, não abracei a causa de ser mãe, de cuidar da família, como desejaria naquela época da minha vida.

Depois a oportunidade da mudança, de morar em outro país, de ter novos desafios, se integrar numa nova cultura, aprender um novo idioma, cuidar sozinha da casa, ter um filho pequeno, com apenas 1 ano e meio acompanhando todo esse turbilhão de sentimentos, sendo o maior parceiro nos momentos em que o pai trabalhava, a formação de uma família, de viver para a família, de querer ter outro filho. A pausa em tudo: adaptação, organização da casa, viajar, aproveitar o que o país oferece – para dedicação exclusiva ao nascimento do segundo filho.

Thomas: uma vida nova, que chegou na nova vida de uma família.

Momentos distintos que marcaram o nascimento, que mesmo não sendo visíveis, mostram um tanto da relação que tenho com meus filhos, um pouco da personalidade e jeito de ser de cada um deles. E agora sendo mãe, percebo que tudo isso influencia a maneira de lidar com as inúmeras situações, com as características únicas de cada filho.

Não! Não posso chamar de preferido. O que tenho são dois filhos em fases diferentes, com conquistas gritantes a cada dia que passa, que requerem um cuidado, uma atenção e dedicação em outras proporções. Um precisa de mais ajuda para isso, outro para aquilo. Um está chamando muita atenção pelas falas engraçadas, o outro pelas descobertas. A gente gosta, se diverte com o comportamento e identifica atitudes semelhantes às nossas. E assim, vamos construindo uma relação intensa, de proximidade e afinidades, com cada um deles.

 

Celi, escreve no “Nova Vida, Vida Nova”  para compartilhar pensamentos que surgem no dia a dia e também curiosidades, descobertas e aventuras do país onde mora (Alemanha), mas  também – claro – sobre seus filhos Felipe e  Thomas.