Qual a idade de uma mãe?

Qual a idade de uma mãe?

Por: Paola Rodrigues

(Esse texto está para ser escrito faz 4 anos, desde que me recuperei da morte da minha primeira filha, Laura. Me faltava fôlego, coragem e esclarecimento para isso, só que nessa madrugada ele me veio e sinto que preciso mostra-lo para o máximo de pessoas que puder, com o único motivo de quem sabe ajudar alguma mãe que se encontre na mesma situação que estive. É um desabafo de coração.)

Manu tem 26 anos, formada em Direito, é casada há 3 anos, namorou 4 anos e depois de muito planejamento e de já ter a casa própria, carro e vários carnês quitados, foram para o cartório oficializar tudo. Foram anos de viagens e diversões, até que certo dia aconteceu o “acidente ” e ela se descobriu grávida. Foi uma alegria que só vendo, marido se sentindo um reprodutor, a vovó já tricotando os sapatinhos. Foram 9 meses de espera desfilando a barrigona e sendo feliz. Tudo ótimo, obrigada.

Taís tem 16 anos, está no segundo ano do colegial, mora com a mãe que é vendedora numa loja de sapatos. Namora há 5 meses e se vê numa encruzilhada: aconteceu o “acidente”. A mãe não fala com ela há 3 semanas, com aquele olhar de decepção. O namorado está desesperado, não sabe como conseguir um emprego. Taís esconde a barriga o máximo que pode, tem medo do que todos vão falar quando descobrirem.

Infelizmente vejo muitas Manus falando sobre maternidade e gravidez e quase nenhuma Taís. Provavelmente a vergonha de ser mãe aos 16 suplante qualquer felicidade por vezes, digo isso porque eu me encaixo no segundo caso.

Aos 15 engravidei e me perdi. O que seria da minha vida agora? Ouvi muitos “Falta de juízo”, “Agora você vai ter que trabalhar para cuidar do bebê” e o famoso “Se não der certo você vai ter que criar esse filho sozinha”. Me perguntei várias vezes se tudo seria melhor se eu estivesse naquela mesma situação 10 anos depois, se o meu acidente seria o mesmo acidente de alguém com a vida mais “segura”.

Veja bem, não estou dizendo que está tudo bem você engravidar aos 16, nada está preparado para isso e principalmente o corpo, porém se aconteceu acredito que o mundo deveria acolher essa nova mãe. Se acham que uma mãe jovem vai afogar o bebê para ir ver high school musical, o que exatamente acontecerá se essa mãe for julgada?

Fiquei 9 meses sem sair de casa e acabei virando uma daquelas doidas por TV, até que certo dia vi um famoso programa onde uma socióloga falava sobre o problema social que era a gravidez na adolescência, lá mostrava como várias mãezinhas abandonam a escola e como os relacionamentos que originaram o bebê se desfaziam num prazo de meses. Minha sina estava sendo mostrada para mim e eu estava lá de olhos arregalados. Eu era um problema social.

Eu não ia estudar, não ia ter um relacionamento saudável, minha filha provavelmente ia engravidar cedo porque ia me ter como péssimo exemplo.

Passou a gravidez, passaram os traumas. Laura nasceu e Laura faleceu. A raiva veio e a raiva foi.

Restou muito vazio e pouco daquela jovem grávida.

Os anos me trouxeram alguma visão e eu finalmente externei tudo isso. Eu nunca fui ou serei um problema social. Gravidez na adolescência é como gravidez em qualquer momento, exige cuidados especiais, mas e daí? Não é para ser, todo mundo sabe, eu sabia sobre camisinha e todo o resto e mesmo assim aconteceu.

Acidentes vão sim acontecer, assim como acontece com as Manus por aí. Você faz sexo, você pode engravidar, sempre vai existir o 0.000.000,01% e como vamos julgar quando isso acontecer? Vamos falar para todos não fazerem sexo antes do casamento? Isso já é dito e me mostre quantos seguem essa lei.

É muito mais sensato mostrar para aquela menina despreparada que ela pode estudar, pode sim casar com aquele namorado ou qualquer namorado que vier, ou pode simplesmente criar a filha sozinha e fazer isso muito bem. Pode e deve levantar a cabeça e mostrar aquele barrigão lindo e cheio de estrias, porque um bebê é sempre lindo.

Ao invés de transformar esse momento num problema, pode-se transformar esse momento num caminho, numa seta para cima, fazer da maternidade uma redenção, não um caixão.

Dar condições para que a criação daquela criança seja boa e num futuro ela tenha consciência sobre isso e desencadeie mais gerações com essa ideia.

Assim foi para mim, vou fazer 21 anos e tenho a filha mais linda desse mundo – assim como todas nós temos os nossos mais lindos do mundo.

Helena tem uma irmã, Laura, que está em algum lugar longe de nós e eu sobrevivi, larguei os estudos por um tempo, mas conseguir terminar, desfiz vários relacionamentos, mas não me frustrei.

Em algum momento dessa linha que liga minhas duas filhas descobri que existe uma luz no fim do túnel e que minha idade ou minhas condições não me limitam, a única coisa capaz de me limitar é o que eu penso sobre tudo isso.

 

Paola Rodrigues é mãe da Laura e Helena, é redatora, blogueira e dona de casa, escreve sobre arte, fotografia e design no A Menina da Tarja Preta e acredita que ser mãe é a melhor coisa do mundo.