Publicidade Infantil, parte II, aí vamos nós! Eu vou. Vem também?

Publicidade Infantil, parte II, aí vamos nós! Eu vou. Vem também?

Por: Pérola Boudakian

Tempos atrás quando eu mantinha um blog pessoal sobre  maternidade, lá para os idos de 2009, escrevi numa blogagem coletiva contra a publicidade infantil desmedida e sem regulamentação e recebi um comentário anônimo. Infelizmente o anonimato só trás um diálogo unilateral, mas foi interessante exercitar o debate diante da argumentação anônima. Imaginei que pudesse ser interessante trazer essa discussão e abrir para mais diálogos.  Topam?

Comentário anônimo:

“Não sei se assino não…

Quando criança a publicidade me ajudou muito a entender o mundo.

Publicidade é cultura também.

E as vontades da criança não vão terminar.

Nem o desejo de consumo.

Dê uma embalagem para um bom designer e ele faz qualquer criança querer um produto.

E não se deve ser infantil de pensar que só as crianças são influenciadas pela propaganda.

A Bolsa Gucci que uma mãe compra é porque o mercado mandou!

Todos são manipulados!

O melhor jeito de educar o ser humano contra a manipulação das mídias é expor ele desde cedo e educá-lo, porque filho sem educação vai ter problemas de consumismo, aos 3 ou aos 12.” (anônimo)

 

Bom, vamos à minha resposta, vou partir dos trechos do post anônimo, veja bem a intenção não é a exposição, mas o diálogo e a troca, ok?!

[em negrito itálico minhas respostas]

Quando criança a publicidade me ajudou muito a entender o mundo.

Publicidade é cultura também.

A Publicidade não é cultura, faz parte, integra a vida social e cultural.

A publicidade é uma atividade profissional dedicada à difusão pública de idéias associadas a empresas, produtos ou serviços, especificamente, propaganda comercial. Fonte aqui.
Nesse sentido, é bastante confuso, PARA MIM, compreender como a publicidade ajudar a entender o mundo, uma vez que ela reconfigura o universo das COISAS com a finalidade de vender, de gerar lucro.

Temos aí uma visão deturpada das coisas ao meu ver, que fica mais atraente, mais bonita, mais gostosa para gerar LUCRO. Não vi até agora nada em publicidade que me ajudasse a desvelar o mundo, a compreendê-lo, a educar ou ser educada.

Pelo contrário: A Marlboro “ensinava” que fumar deixa mais viril, a Skol “ensinava” que beber te deixa mais atraente e assim por diante…

Aprendizados? Não válidos, não importantes e altamente descartáveis.

E as vontades da criança não vão terminar.

Nem o desejo de consumo.

Ok. Criança tem desejo de consumo ou é instigada a consumir?

Porque a criança deve consumir? Porque nós devemos consumir? Consumimos porque vivemos numa sociedade que impõe o DESEJO do TER como algo que pudesse agregar valor à você, à sua personalidade. Mais da metade do que consumimos não é necessário ou indispensável.

Será que uma criança que não assiste TV com muita frequência ou que não  tem o shopping como passeio oficial tem tanta necessidade de consumir?

O consumo é necessário até certo ponto. Precisamos comprar coisas para sobreviver, mas não devemos viver para consumir, como  se fosse algo  inato à nossa condição social ou algo para o qual precisamos ser educados.

Dê uma embalagem para um bom designer e ele faz qualquer criança querer um produto.

Pronto. Tá aí o maior absurdo de todos. Um publicitário é capaz de vender qualquer coisa.

Esse é o maior argumento CONTRA a publicidade infantil, pois ela faz com que a criança,um SUJEITO EM DESENVOLVIMENTO,  sujeito de direitos, que deve ter esses mesmos direitos fundamentais respeitados, tenha desejos despertados para além da sua capacidade de discernimento e compreensão. Diferente, anos luz diferente do adulto!

E não se deve ser infantil de pensar que só as crianças são influenciadas pela propaganda.

Claro que não, cara anônim@. Basta ver o consumismo incitado pelo Natal.

Uma data linda, belissíma deturpada pelo consumismo. Por adultos que perderam o poder da criticidade e da contestação e que faz filas em shoppings centers para bancar o Natal.

Natal de quem? Da Publicidade, claro! Que gera o que? Solidariedade. Não! Gera $$$

A Bolsa Gucci que uma mãe compra é porque o mercado mandou!

Todos são manipulados!

Nem todos, cara anônima, eu abro bem meus olhinhos antes de fazer o que o reclame, como diria minha avó, me manda fazer! Quem mais aí questiona a Dona Quadrada [ TV] ?

O melhor jeito de educar o ser humano contra a manipulação das mídias é expor ele desde cedo e educá-lo, porque filho sem educação vai ter problemas de consumismo, aos 3 ou aos 12.

Muitas idéias misturadas. Educar é uma coisa, expor à mídia abusiva é outra. Consumismo compulsivo é outra pior ainda. Qual o bem social que trás a exposição à mídia abusiva?

A criança fica “melhor educada” para comprar? Quem ganha com isso? Pense bem nisso…

O apelo consumista não nos ajuda a educá-los para lidar com isso.

O que nos ajuda é um contexto educativo em que a criança está inserida:

A comida saudável e não o produto alimentício industrializado que a criança come porque tem um Bob Esponja na embalagem.

É o brinquedo que diverte e não que vende porque seduziu a criança para uma demanda que não era dela, mas que foi gerada equivocadamente nela.

Uma escola que busca a cooperação e a solidariedade e não que incita à competitividade velada nos acessórios escolares…

Uma convivência familiar saudável que não tenha a TV como mote principal educativo e de entretenimento.

A publicidade infantil é só a ponta do iceberg que gera lucro, doenças, paranóias e faz a roda da fortuna girar…

 

Pérola Boudakian, mãe de dois, psicóloga | terapeuta clínica, abraçou a maternidade , a profissão e suas tonalidades, acredita na transformação e na potência que cada um trás dentro de si de ser feliz em suas escolhas e caminhos.

Para saber mais sobre o trabalho de Pérola, aqui.