Por que (sinceramente) você quis ter um filho?

Por que (sinceramente) você quis ter um filho?

Por: Nívea Salgado

Antes de ser mãe, quando ouvia uma mulher dizer que não queria ter filhos, por não imaginar sua vida modificada por eles, eu pensava com meus botões que se tratava de uma “egoísta de marca maior”. Confesso que na minha cabeça ser mãe fazia parte do pacote, era o rumo natural do caminho: você nasce menina, cresce, casa e um dia vira mãe. Não, eu não era daquelas que considerava a maternidade um sonho, algo a ser buscado a qualquer custo; pensava que era simplesmente consequência de um casamento feliz. E se recusar a viver isso, para não ter sua vida de casal ou a profissional modificada, era sinônimo de “gente que só enxerga o próprio umbigo”.

E de fato eu cresci, me casei, e depois de considerar que estávamos preparados para ser pais (o que naquela altura do campeonato significava alguns anos de vida a dois, uma relativa estabilidade financeira, algumas poucas e boas viagens e principalmente um grau de cumplicidade muito grande), comecei a tentar uma gravidez. Os meses foram passando, passando, e a cada mês era aquela choradeira quando a menstruação vinha. Até que completamos um ano de tentativas, e começamos uma investigação mais profunda das causas do não engravidar. E foi nesse momento, em que meus exames hormonais se mostraram muito alterados e em que percebi que eu poderia não ser mãe (dito por mais de um médico), que me perguntei pela primeira vez: por que sinceramente quero ter um filho?

Vejo que poucas mulheres ao meu redor se fizeram essa pergunta com o máximo de transparência consigo mesmas. Talvez porque pensassem como eu, talvez porque tenham sido programadas como eu fui para um dia me casar e ser mãe. E na falta de um bom motivo para não ser, engravidaram sem discutir o assunto. Mas quando você se vê na situação de ter que batalhar pela maternidade, quando vê que a possibilidade de não ser mãe está quase concreta à sua frente, você pensa, e muito. Até onde você iria para ser mãe? O que faria e o que não faria para ter um filho? Como será que é a vida sem filhos? Será que ter não querer ter filhos é realmente sinal de egoísmo? Ou será que é justamente o contrário: você quer ter filhos porque está pensando em si mesma? Confesso que me peguei querendo ser mãe por motivos que não considero exatamente altruístas, e que divido aqui com vocês:

1)     “Ter filhos e dar amor a eles faz parte do meu ideal de felicidade.”

Voltamos aqui à programação que recebi desde pequena. Como cheguei a esse ideal de felicidade? Será que foi o que sempre ouvi da minha família, dos amigos, da sociedade em geral? Quem disse que se é feliz tendo filhos? É claro que ter uma relação boa com os próprios pais, com os irmãos, pode fazer com que você queira repetir o padrão, por entender que aquele modelo dá certo. Mas, cá entre nós, eu já era bem, bem feliz antes de ser mãe. Será que precisava mesmo mudar alguma coisa?

 

2)     “Agora você está feliz, mas quando o tempo passar, sentirá falta de um filho. “

Dá para sentir falta do que nunca se teve? Conheço casais sem filhos, já casados há décadas, que vivem como namorados. Uma beleza de se ver, um carinho mútuo, até por terem se dado conta que um só tem ao outro. Valeria a pena arriscar uma condição de felicidade presente em função de uma nova situação que eu nem saberia onde me levaria?

 

3)     “Terei alguém para cuidar de mim quando eu ficar velha. Não quero morrer sem filhos.”

Uma das minhas avós faleceu pouco antes de eu engravidar de minha filha Catarina. Ela morreu em decorrência de um processo de câncer, que durou anos (muitos dos quais ela viveu bem; mas que no final foi bastante penoso). Com cinco filhos que se revezavam nos cuidados, com dez netos que enchiam sua casa nos meses que precederam seu falecimento, minha avó nunca estava sozinha. E eu pensava que isso era felicidade, e que se pudesse escolher, queria terminar da mesma maneira.

Como vocês podem perceber, meus motivos para ser mãe eram bem “egoistinhas” mesmo. Porque o filho, nessa história toda, não foi consultado sobre querer fazer parte da minha família ou sobre querer me dar carinho e segurança na velhice. E se eu tinha tanto amor para dar a alguém, por que tinha que ser para um filho? Por que não podia ser para uma outra pessoa, um doente, um desabrigado… Por que é mais fácil pensar em dar um amor incondicional a um filho e não a um próximo (não tão próximo) qualquer?

Bom, eu acabei me rendendo aos meus motivos sem altruísmo e decidi que queria ser mãe mesmo assim. E a conclusão a que chego é que não importa os motivos que te levaram à maternidade, porque ela joga tudo para escanteio e te mostra que o que vale a pena no papel de mãe não tem nada a ver como você, tem a ver com seu filho. Você deixa de pensar no que é te faz feliz para pensar no que faz ele feliz. Você não pensa no apoio que um dia ele possivelmente te dará (até porque ter filhos não é seguro contra solidão, que fique bem claro!), e sim em tudo que você pode proporcionar a ele hoje. E se é que há tempo de pensar no futuro (pois ter uma filha de quase dois anos é um exercício diário de viver o agora, pois os poucos segundos de divagação, em que sua mente está no passado ou lá na frente, são entrecortados por um serzinho gritando MAMÃE!), sua única preocupação é não lhe faltar até que consiga seguir seu caminho com segurança.

Eu precisei virar mãe para aprender a amar não só a minha filha, mas o filho do outro também. Eu precisei virar mãe para deixar de olhar para meu próprio umbigo.

 

Nívea Salgado. Paulistana, geminiana, que descobriu um monte de coisas com a maternidade: que seus pais eram verdadeiros heróis e ela não sabia; que nada funcionava melhor do que um secador de cabelos para fazer sua filha dormir; que suas 24 horas diárias sofreram uma dilatação capaz de permitir que seja ao mesmo tempo filha, mãe, esposa, irmã, amiga, profissional e ainda escreva o blog Mil Dicas de Mãe, onde conta todas as descobertas que considera úteis para as mães de primeira, segunda ou “n” viagens.