Pensamos muito e conectamos pouco

Pensamos muito e conectamos pouco

Por Cris Leão

Essa semana fui na palestra do Whitney MacDonald que tem mais de 20 anos de experiência em educação Waldorf nos Estados Unidos e internacionalmente.

Ele começou a palestra dizendo: Tenho quase 60 anos e posso dizer que passei minha vida procurando alguém que pensasse como eu, que tivesse os mesmos interesses do que eu, a mesma vontade, os mesmos sonhos e não encontrei.

Em algum momento aquela pessoa que parecia ser “a certa” tinha alguma ideia diferente da minha.

Depois ele falou que pensar+sentir+querer juntos desenvolvem o amor incondicional. (Esses três verbos são frequentes em qualquer leitura do Rudolf Steiner e são o norte dentro da pedagogia Waldorf).

O que será o amor incondicional? Amor de mãe? Amor de filho? Esse talvez a gente conheça. Mas amor incondicional não é o que todas as religiões também pregam? Se lembrar tudo o que leu e entendeu sobre as mais diferentes religiões vai ver que essa é sempre a essência. Parecendo assim ser a nossa grande saída espiritual.

O palestrante seguiu em frente falando que estamos na era do pensamento. Racionalizamos tudo. Até as religiões, que antes eram recebidas sem muito questionamento pelos fiéis, agora viraram temas de estudo. Grupos de leituras. As pessoas querem questionar, pensar e concluir suas próprias respostas.

Quando a fórmula pensar+sentir+querer está quebrada e só pensamos, desenvolvemos (ao invés do amor incondicional) a antipatia. E com ela o sentimento de solidão. Começamos a nos sentir desconectados. Completamente separados uns dos outros. E o resultado é a violência randômica a qual estamos vivenciando.

Quando você não se sente mais conectado a nada, não consegue reconhecer o divino que vive dentro de cada um de nós. E começamos a julgar os outros muito rapidamente.

Acho que era sobre isso que Madre Teresa se referia quando uma vez foi perguntada por um radialista “O que posso fazer por você e pelas causas sociais que luta?” E ela respondeu: “Nada”. Ele insistiu muitas vezes. Dizendo que várias marcas patrocinavam o programa então ela podia pedir sem medo. E então Madre Teresa respondeu:

“Se insiste em ajudar. Quero que você vá hoje à noite na rua e todos os mendigos que encontrar em situação de desespero, quero que se aproxime e diga: você não está sozinho.”

Também acho que era isso que queria dizer Dalai Lama quando falou na sua terceira visita ao Brasil em 2011.

“As pessoas estão muito deprimidas porque estão vivendo de forma muito egoísta. Experimente parar de pensar só em você e vai ver como somos todos conectados. E quem não se sente sozinho, não se sente deprimido.”

As palavras muitas vezes banalizam e simplificam todo tipo de coisa. Mas quando Buda teve a grande revelação e disse “Estamos todos conectados”. A mensagem precisa ser entendida de uma forma mais profunda do que aquilo que aparece nas letras. Copérnico olhou as estrelas durante anos e deixando de lado todas as teorias e preconceitos que existiam na época sobre o movimento da terra ele fez sua própria ideia. E mudou o conceito. Para isso ele precisou observar mais e pensar menos.

Sem julgamentos conseguimos desenvolver o espírito de comunidade. Seja na família, na escola dos filhos, no prédio, na rua onde mora, se ao invés dos julgamentos procuramos observar (sem pensar, sem concluir) corremos o risco de desenvolver algo maior do que a “certeza” de que aquela é uma péssima mãe. (Aquela que você nunca conversou na vida) Só para citar um exemplo.

Sem viver em uma comunidade e nos isolando com nossos pensamentos (sobre nós e sobre os outros) não estamos dando chance para que as mudanças dentro de nós mesmos aconteçam. O que é o mesmo que na música “quem já passou por essa vida e não viveu”.

Difícil? De repente como bancar a simpática? De repente como ouvir aqueles que você sempre passou direto? Como perguntar àquela pessoa que te olha estranho se ela quer conversar? Como tentar dialogar com os pais daquela criança “problema” na classe e ver se eles precisam de alguma ajuda?

E o palestrante termina dizendo:

Quando fazemos algo que não sabemos como e corremos o risco de falhar, esse é o momento onde o divino chega até nós.

Então vamos lá.

 

Cristina Leão. Redatora publicitária freelancer, estudante de Antroposofia e uma das autoras do blog “Antes de que eles cresçam“.  Isso quando não está 100% focada em cozinhar, levar as crianças para a praia, inventar brincadeiras ou fazer os projetos da escola das crianças. Porque acredita que nenhum trabalho é mais importante do que a criação dos seus dois pequenos.