Paradoxos

Paradoxos

Por: Talita Guedes Bittioli

 

Estava pensando num tema bacana pra trazer pra cá, algo que estivesse em alta, que estivesse sendo muito falado ultimamente.

Lembrei que a maternidade está sempre na moda, afinal, mães nascem todos os dias e, o que foi novidade pra uma mãe que nasceu 20 anos atrás, é novidade pra uma mãe que nasceu ontem. Certo? Pois bem, resolvi, então, ao invés de um artigo, desenvolver uma série de reflexões, pequenos textos (mentira, quando terminei vi que ficaram enormes rs). Situações cotidianas e alguns casos curiosos que acontecem desde que o mundo é mundo, mas, que paramos pouco pra pensar, seguindo a linha do “mãe é mãe”, “quando for sua vez vai ser igual”, “pai só muda de endereço”, essas teorias que mais parecem corrente, agouro, sei lá, como se uma nova história não pudesse ser contada! A intenção é exatamente deixar uma pulguinha atrás da orelha e, se alguns paradigmas forem quebrados, melhor ainda.

Maternidade nunca sai de moda, mas, algumas tendências nessa área precisam ser repensadas, aprimoradas, tipo desenvolvidas, sabe? Percebo isso no trabalho que realizo em consultório, na ludoterapia (psicoterapia infantil) e na orientação de pais.

Filhos não veem com manual de instruções (que bom!) e muitas vezes, na vontade mais genuína de fazer uma coisa boa, a gente acaba errando. Normal, gente. É de uma vida que estamos falando, né? A responsabilidade é grande e a pressão também. E aí, muitas vezes, por esse peso que os pais carregam, a cobrança em cima das crianças pode se tornar exagerada demais e, pronto, elas vão parar na terapia. Às vezes é trágico, mas, se a gente aprender a lidar, fica cômico. Acontece. E vejam a coisa boa da história: a gente erra, sim, mas tem um enorme potencial pra se desenvolver, mudar, melhorar, fazer diferente, tentar outra vez… Todo mundo pode.

Vamos lá.

1. Existe um paradoxo na maternidade/paternidade atual, que me deixa louca da vida, como Psicóloga: os pais querem (e fazem acontecer) que seus filhos tenham uma série de atividades diárias, aprendam 3 línguas ao mesmo tempo, tenham uma agenda sem lacunas, um super estímulo atrás do outro… e, reclamam que as crianças estão hiperativas e dão remédio pra “acalmar”. (?!). Precisa se decidir, né?! Como se espera que uma criança mega atarefada não seja agitada, ansiosa e “hiperativa”?!
Equilíbrio é a palavra. Nem excesso, nem falta.
Não, crianças não precisam de estímulos direcionados 24h por dia. O brincar livremente também ensina, também faz bem, também desenvolve. Se divertir, igualmente. A criança não precisa de 863 responsabilidades pra cumprir. Ela precisa aprender a viver, a ser. E isso, é dia a dia, é presença, é exemplo, é afeto, é disciplina com amor, não uma agenda lotada de chatices e desprazeres, apenas.

2. Pais que esquecem que um dia foram crianças também me intrigam. Talvez essa parte valha mais pra crianças maiores, mas é importante. Se quando você era criança ficava triste por seus pais só responderem “porque sim” às suas perguntas, por exemplo, não dá pra fazer o mesmo com seus filhos hoje, né? Entenda, se você ficava chateado com isso, possivelmente ele também fica. E eu, particularmente, não engulo (pelo menos, não completamente) aquela lenda de que depois que se têm filhos, se entende mais os pais. Bom, eu conheço pessoas que entendem ainda menos. Acredito que algumas correntes precisem ser quebradas. Tudo bem dar ao filho uma criação diferente da que teve, caso queira. Tudo bem. Sério, não tem problema. E a questão não é dar ao filho tudo que não teve, levar à Disney porque era seu sonho e você não pôde ir quando criança, colocar em escola particular porque você só estudou em pública, não. Não é disso que estou falando. Não estou dizendo que você deve resolver os ‘seus’ conflitos pessoais através da vida do seu filho, nem realizar os ‘seus’ sonhos neles. Estou falando em compreender que está lidando com um ser humano que pensa, sente, vive e, como você foi um dia, é um questionador que quer (e precisa) aprender sobre as coisas.

3. Crianças choram. Elas ainda não são articuladas e preparadas o suficiente pra expressar o que sentem através da fala (apesar de algumas exceções de garotinhos e garotinhas que dão um baile em muito adulto por aí, vale dizer!). Ouvir uma criança chorar, independente da idade e do motivo, gera sentimentos e emoções variados: preocupação, irritabilidade, raiva, compaixão, susto, angústia, cansaço, impotência, vontade de acolher e mais muitos outros. Pra alguns é mais fácil lidar com o choro, pra outros, mais difícil. Mas, o que em geral acontece é: não deixar chorar. Enfia chupeta, dá balinha, pega no colo, olha o passarinho, bicho feio assustou o bebê. Difícil, difícil, difícil. Só que tem um problema nessa história de evitar/coibir/engolir o choro da criança, que é o fato de que ela, de repente, precisa ser ouvida. Ela vai falar algo ao chorar, vai expressar algo. Mesmo que seja uma chaticezinha. E aí, tapar o choro com a chupeta, por exemplo, vai impedir isso e, olhem que interessante, ela vai aprender que quando sentir aquela angústia que dá vontade de chorar, é só ir ao shopping fazer compras, ir à loja comprar o carro da moda, ir pra balada beber todas, qualquer coisa, menos chorar, menos falar, menos expressar de forma mais saudável. O assunto choro dá uma tese de doutorado, mas, o que quero dizer aqui é que vale tentar extrair algo que possa sair com as lágrimas, antes de sufocá-las. E não sinta vergonha se seu filho começar a chorar no meio da festa e todos ficarem olhando com cara feia, crianças choram. Importe-se mais com sua criança que com os incomodados.

4. Triste ver que alguns pais tratam seus filhos como produtos diante da sociedade, mostram sua grande produção aos outros, por ego, pra sentirem-se aceitos: “Olhem o que ‘eu’ fiz, o que fui capaz de fazer. Olhem!”.
Crianças não são vitrines, são seres humanos.
Seres humanos são construídos, não nascem prontos. E não são construídos para satisfazer desejos ou frustrações dos pais, são pessoas, não posses!
Pais são responsáveis por criarem seus filhos, não o contrário, como muito se vê.
Psicoterapeutas são ótimos facilitadores no processo de desenvolvimento humano, encontro do equilíbrio emocional, perdão, busca por melhoria da auto estima, auto entendimento, resolução de conflitos etc. Muitos deveriam procurar psicoterapeutas pra resolverem seus problemas. Mas, é mais fácil projetar tudo nos filhos e comprometê-los. Triste. Repito isso porque é muito comum e muito sério.
Faça o que for, faça terapia, faça yoga, faça reiki, torne-se vegano, mude de país, se vire, mas evite isso. O Universo agradece.

5. Tratar criança como extraterrestre ou um ser sem vida mental é uma das coisas mais comuns que existem, na maior parte das vezes sem um pingo de intenção, sem a menor maldade. Porque sempre fica aquela cisma que “ele é muito pequeno pra entender isso”, “ela não vai saber fazer isso sozinha”, “ele só tem 4 anos, não vai entender que papai Noel não existe”. Complicado pensar nisso, mas, uma coisa que insisto com os pais que atendo é: crianças são maravilhosas e é fundamental viver a infância, mas, um dia ela será adulta e, nessa hora, ela precisará saber ser adulta. Claro que a gente aprende o tempo todo, não sou carrasca. Falo do fato de que a infância é a principal escola da nossa vida! A gente aprende coisa demais quando criança, não aprende? Haja paciência pra ensinar. E, é isso mesmo. Paciência, tolerância e perseverança são itens que deveriam ser de série quando alguém se torna pai ou mãe. É difícil, mas, não é impossível, eu prometo, tenho provas se precisar!
As crianças só vão compreender o que de fato são as coisas (grande parte delas) através das explicações dos pais… Mesmo que pareça uma conversa com um adulto, algumas vezes.
Vou dar um exemplo real: num caso que atendi, a criança de dois anos e meio resolveu dar a chupeta pro papai Noel em troca de um presente que queria muito. Quando a mãe e ela chegaram ao shopping e ela viu o bom velhinho, ficou alvoroçada! Quis porque quis e insistiu pra dar a chupeta que amava muito. A mãe questionou se ela tinha certeza, a resposta foi sim! Deixou a chupeta e saiu dizendo que agora poderia ganhar seu presente. Ganhou. Foi tudo muito justo: ela decidiu dar a chupeta, deu, ganhou o presente. Na hora de dormir… Choro, saudade da chupeta, dificuldade pra pegar no sono. Pediu a chupeta, mas, a mãe, firme, respondeu: “Meu amor, você decidiu dar a chupeta em troca do presente, não tem mais chupeta, agora”… A criança respondeu “Eu devolvo o brinquedo, mamãe, eu devolvo” (!)… A mãe finalizou: “Filha, sabe o que é? Você tomou uma decisão, e tem decisões que a gente toma que não dá pra voltar atrás. Não dá pra devolver o brinquedo. Você escolheu entregar a chupeta, ganhou o brinquedo e a consequência disso é que agora vai precisar dormir sem a chupeta”. Pouco tempo e algum chorinho depois, as noites foram tranquilas sem a bendita. A criança, na hora, pode até ter olhado a mãe com cara de ué, mas, é a partir dessas conversas que ela começa a desenvolver melhor o raciocínio, por exemplo. Dessas conversas podem surgir questionamentos, o que é muito saudável. E as crianças podem até não entender exatamente o que você está querendo dizer, mas já vão começar a aprender coisas importantes, como, nesse exemplo, o que é tomar uma decisão, o que uma decisão pode fazer com ela… Tantas coisas. O mais importante: seu filho vai estabelecer um vínculo de confiança com você, que vai explicar pra ele o porquê das coisas e não apenas fazer tudo por ele. Isso é tratar a criança como indivíduo que também pensa e também “é”.

 

Talita Guedes Bittioli, psicóloga clínica existencialista, que admira tudo que envolve o desenvolvimento humano, acredita no potencial das pessoas, entende que sempre é possível re-significar, atualizar-se e que o processo psicoterapêutico promove maneiras do ser humano se relacionar melhor com o mundo, o outro e si mesmo, formando pessoas mais autênticas e livres, desde a infância até sempre. Atende em consultório e é pesquisadora e palestrante em diversos temas da Psicologia (mas confessa que seu preferido é família).”