Para onde vamos fugir?

Para onde vamos fugir?

Por: Lia Miranda

 

A gente tem filho, e de repente a vida fica séria. Séria, não sisuda ou sem graça, mas séria no sentido de que aquilo que era simulação, brincadeira, agora vira real. A boneca agora é de verdade, e sente fome, sede, medo.

E se é sério – embora sem deixar de ser lúdico, divertido, mágico e delicioso –, é necessário que cresçamos. Que paremos de nos iludir com um mundo onde é só seguir dançando conforme a música que tudo ficará bem. Assim como nos fizeram crer os nossos governantes, desde as esferas municipais até a federal, com um sem número de mentiras deslavadas para serem reeleitos. “Está tudo bem”, diziam.

Em Brasília, o governo não tem dinheiro pra pagar professores, médicos, motoristas de ônibus. Em São Paulo, não tem água. E no Brasil inteiro, estiagens fora de época ameaçam colocar muitos outros municípios em situação semelhante.

Eu poderia dizer que não é comigo. Aqui em Brasília, temos verde pra absorver a chuva, temos nascentes limpas e um lago onde ainda se pode nadar em alguns pontos. No entanto, estou dando descarga com a água do banho, regando as plantas com a água da cozinha e estudando propor pro meu prédio a construção de uma cisterna. Sim, porque tivemos 17 dias sem chuvas em janeiro.

Se abrirmos bem os olhos e observarmos nossas crianças, correndo, alegres, sem muita consciência do que está acontecendo, e se assumirmos a responsabilidade de carregar nas costas esse fardo para que elas sigam sendo crianças, começamos a caminhar. Um fardo que pode ser leve, divertido. Um banho gostoso de bacia, um cocô em cima do outro no vaso e depois a água do balde levando tudo embora. Passeios e mais passeios na natureza; menos shopping, mais cachoeira. Catar gravetos pra fazer arte; menos consumo, mais criatividade.

Viver a mesma vida que sempre vivemos já não é suficiente para garantir nossa felicidade. Em breve, não haverá mais para onde fugir. Para sobrevivermos, é preciso mudar, e mudar radicalmente. Caso contrário, nossa alegria será como a do folião, que se acaba na quarta-feira de cinzas.

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Desmatamento Zero: queremos esse PL no Congresso! Queremos nossas chuvas de volta.

Pra começar a mudar, quero falar ao Congresso o que penso. E quero que leiam, que sejam pressionados, que se sacudam naquelas cadeiras. Há quem diga que o Brasil já tem leis demais; que precisamos apenas que se cumpram. Talvez. Há também quem diga: “Não sejamos radicais. Não há progresso sem intervenção na natureza”. Mas chegamos a um limite, a natureza se vinga.

Existe um movimento organizado para apresentar um projeto de lei de iniciativa popular para que não sejam mais concedidas licenças para desmatamento da Amazônia. O que já temos de terras abertas é suficiente para produzir alimentos para toda a população, sem que se desmate mais um hectare de floresta. Sem a floresta, sim, teremos fome, pois o desequilíbrio climático causado pela sua devastação tem se mostrado impiedoso. Basta olhar para o mundo inteiro, na latitude em que está o centro-sul do país: América do Sul, deserto do Atacama; África, deserto da Namíbia; Oceania, deserto da Austrália. É a floresta que manda chuvas pra nós. Veja o relatório do professor Antônio Nobre sobre o futuro climático da Amazônia: (clique aqui para baixar)

O centro-sul do Brasil está em processo de desertificação. Está na hora de acordar.

Assine a petição e leve este projeto de Lei ao Congresso.

Você pode ajudar a campanha também como um mobilizador, participando ativamente para que um Brasil com
florestas e sem desmatamento se torne realidade:

Desmatamento Zero – divulgação

 

 

Lia, 32, casada, cearense, pesquisadora e tradutora, mãe das pequenas Emília, Margarida e Ana.