Os “wonderful two’s”

Os “wonderful two’s”

Por Ludmila Carvalho

À medida em que se aproxima o segundo aniversário do meu filho, tenho lido muita coisa sobre o tal dos “terrible two’s”, a temida fase das birras e malcriações, das repentinas implicâncias com comida e inexplicáveis surtos de possessividade dos nosso monstrinhos. Pois bem, num raro lampejo de otimismo (quem me conhece pessoalmente sabe que não sou muito dada a ver o mundo com lentes cor-de-rosa), me deu uma vontade enorme de perguntar: porque será que não se fala igualmente sobre os “wonderful two’s”, ou “a maravilhosa fase em que o bebezinho se transforma em criança”?

Essa fase em que a explosão verbal permite manter, pela primeira vez, uma conversa, conversa mesmo, um papo legal com seu filho. Quem já cuidou de recém-nascido sabe que grande parte da famosa solidão materna (que pode ser paterna também, claro) vem desse vácuo comunicacional, em que você, embora esteja com um serzinho pendurado no seu corpo durante 24 horas por dia, se sente a mais só das criaturas, numa via interminável e de mão única de entrega de afeto, de palavras, de sentimentos.

Pois bem, nessa fase próxima aos dois anos eles não apenas ouvem e entendem o que você fala, como RESPONDEM. Dizem o que pensam, o que não pensam, o que querem e o que não querem. É claro que aparecem as birras e muitos, infinitos “nãos”, que não deixam de ser expressão de individualidade, mas surgem também os “vem dançar mamãe!”, os “quero ouvir história”, os “hum, macarrão delícia!”. E as palavras trocadas? Essas idiossincrasias tão adoráveis que são exatamente isso, particulares de cada um.

Sim, porque nessa fase surgem também traços de personalidade que não são, paradoxalmente, nem totalmente seus nem totalmente estranhos a você, mas são dos pais, da família, do mundo e também dele, só dele. De onde aparecem? Como surgiu esse jeitinho de carregar os brinquedos colocando-os debaixo do braço? Desde quando ele sabe cantar a plenos pulmões o refrão de “AA UU” dos Titãs? Como pode essa pessoinha ser tão igual e ao mesmo tempo tão única, tão diferente de todas as outras crianças?

Ter um bebê pequeno é ótimo e muito gostoso, não me levem a mal, mas também é muito desgastante. Você está constantemente preocupada se o bebê vai chorar, se está incomodado ou incomodando, se uma saída mais longa não vai tira-lo da rotina, se vai ter onde e como esquentar a comida, se vai demorar a dormir etc. Tem dias em que o tempo se arrasta interminavelmente entre o almoço e a hora de dormir.

Mas chega um momento em que você perde o bebê de colo e ganha, em troca, um amigo, um companheirinho de aventuras diárias – grandes e pequenas. Alguém que topa emendar uma ida à praia com um almoço fora sem ficar birrento, que se diverte mesmo onde não tenha brinquedos ou outras crianças. Que assiste filme sentado ao seu lado no sofá e comendo pipoca. Tem dias em que vocês brincam e se divertem tanto que não veem que já passou das dez da noite.

Surgem as demonstrações espontâneas de afeto, os “saudade” e “te amo”. Surgem cenas como esta

Ludmila Carvalho é jornalista, professora e aspirante a chef de cozinha, e mãe do pequeno Marcel, companheiro de aventuras e inspirador desse texto.