Os livros bilíngues

Os livros bilíngues

Por Luciana Paquet

Não sou mãe blogueira, mas sou leitora assídua dos blogs maternos, sobretudo de mães expatriadas ou que, por serem casadas com maridos gringos, criam seus filhos bilíngues.

Sou a típica brasileira: uma mistura danada de várias raças num só DNA. Tenho sangue japonês, italiano, indígena, português… correndo nas veias. Para adicionar ao status de ONU ambulante, casei-me com um francês e decidimos morar na Inglaterra, onde tivemos duas filhas.

Apesar de ser 100% brasileira, considero-me 50% japonesa por ter meus avós maternos vindos diretamente da terra do sol nascente. É com grande pesar que admito que nunca aprendi muito sobre a cultura do Japão, a apreciar a culinária e muito menos falar o idioma dos meus avós. Cresci assim, achando que era normal e que nunca me faria falta. Hoje, percebo que foi uma grande pena não ter aproveitado a chance que me foi colocada nas mãos de ter este lado da família mais vivo em mim. Eu, com esses olhos puxados, podia ter aprendido a falar japonês com fluência, como minha mãe.

Casei pensando nisso: que eu queria passar aos meus filhos a minha cultura, a minha língua, os meus costumes, ainda que morássemos fora do Brasil, ainda que eu e meu marido falássemos em inglês entre a gente. Meu marido também pensa como eu, ele também fazia questão de ensinar a sua própria cultura, a sua língua e os seus costumes à prole. Tínhamos isso como certeza. Mas como fazer? Esse era o grande X da questão!

Passamos os anos que antecederam a procriação refletindo sobre o multilinguismo: como educar, de maneira saudável e sem pressão, crianças que escutam vários idiomas em casa? Pesquisamos, conversamos com amigos na mesma situação, discutimos muito, até que veio a nossa primeira filha.

Como estávamos morando em Londres naquela época, passei a levá-la ao clubinho de leitura da biblioteca local desde os 6 meses. Pegava livrinhos em inglês para ler para ela. Foi aí que aprendemos que criancinhas, na verdade, gostam de escutar a mesma história repetidas vezes. Queríamos, então, livros bilíngues em português e francês para lermos a mesma história para ela. Mas, apesar de Londres ser uma das cidades mais cosmopolitas do globo, não havia este tipo específico de livro disponível. Então, meu marido, que é escritor – mas até então, apenas de livros adultos (ficção, suspense, etc) – resolveu produzir livros infantis em inglês que eu traduzi para o português. Foi assim que nasceu a primeira série de livros bilíngues inglês e português brasileiro já escrito no Reino Unido: O Livro dos Animais.

Os nossos amigos – também pais de crianças bilíngues e com dificuldade em estimular o bilinguismo em casa – gostaram da ideia e pediram que os livros fossem traduzidos em outros idiomas. Hoje, temos cerca de 20 livros infantis publicados em português/italiano, português/espanhol, português/francês, português/inglês e, em breve, português/japonês, além de outras combinações linguísticas.

Nossa filha cresceu, começou a falar e vimos que o trilinguismo estava aflorando de maneira natural e indolor. Acreditamos estar agindo da maneira correta: eu falando em portugês, ele falando em francês e o inglês sendo falado quando estamos todos juntos ou quando estamos com outras pessoas que não falam nem a minha língua nem a dele.

Tivemos mais uma filha e adotamos a mesma técnica. Com a segunda foi ainda mais fácil porque já não havia mais a tensão por nossa parte. Não havia mais a dúvida se estávamos fazendo certo.

Tenho orgulho de dizer que elas são trilíngues e também o nosso melhor termômetro.

A leitura, desde o primeiro ano de vida, é fundamental para o desenvolvimento de qualquer criança, sobretudo as bilíngues. Elas ficam mais estimuladas, com a imaginação fértil e com facilidade de se expressarem mais tarde na vida.

Aprender brincando sempre foi e vai continuar sendo a melhor técnica para ensinarmos qualquer coisa aos pequenos. Forçar o bilinguismo não adianta. Tem que fazer a coisa fluir de maneira natural, em que os pais e as crianças se sintam bem e à vontade.

Pelos feedbacks que recebemos, temos percebido que os nossos livros têm ajudado famílias já bilíngues e aquelas que têm mais dificuldades de manter o bilinguismo dentro de casa. Também têm ajudado muitas famílias no Brasil que não são bilíngues, mas que querem incentivar os filhos a aprender uma segunda língua desde cedo. Há um surto de escolas bilíngues no Brasil, o que mostra que os brasileiros estão começando a ficar antenados nesta questão também.

Aos pais que moram fora do Brasil, o fato de que seus filhos crescerão falando um outro idioma naturalmente é um diferencial importante para elas, caso um dia venham a morar na terrinha. Incentivá-las a falar o nosso português e manter a nossa identidade brasileira viva dentro de casa é um presente cultural que todas elas, sem exceção, deveriam poder receber de nós. Ainda que elas nunca morem no Brasil, ainda que optem por morar do outro lado do mundo, ainda assim elas sempre carregarão dentro de si o DNA brasileiro e tudo da nossa cultura, o nosso idoma e tudo o mais que pudermos passar a elas.

Acreditamos muito na importante influência dos pais para que seus filhos desenvolvam todo o potencial que têm, aproveitem as oportunidades que lhes são colocadas nas mãos e desabrochem mundo afora. Depende de nós, do nosso exemplo e do nosso incentivo.

E viva o bilinguismo!

 

Luciana Paquet é  tradutora, casada com um escritor. Juntos, deram luz a duas meninas lindas e logo, logo, darão luz a outro bebê, de sexo já bem definido, mas ainda desconhecido.

Página no Facebook: https://www.facebook.com/O.Livro.Dos.Animais

Mais sobre livros bilíngues: http://www.jnpaquet-books.com