Os hormônios e seus insights iluminadores

Os hormônios e seus insights iluminadores

Por: Diana Demarchi

Na primeira gravidez, quando estava bem perto do final, o grande insight iluminador aconteceu em um shopping lotado. Porque normalmente na gravidez as coisas acontecem assim, onde exista uma platéia no mínimo considerável para poder compartilhar de suas loucuras.

Voltando ao meu momento, estava lá eu e barrigão, pensando no mundo, na vida e nas mudanças. Com aquele sentimento contraditório de medo e coragem pelo que irá acontecer. Olhando as crianças mal criadas, comendo porcarias nas mesas ao lado e pensando o quanto comigo tudo seria diferente, essas coisinhas básicas.

Até que do nada, assim de repente, me dei conta de que tudo que eu estava fazendo para o bebê, todos os planos e ações, todas as expectativas e projeções, todo o amor que eu achava que sentia, todo aquele universo de espera e ansiedade por ver seu rostinho, um dia fez parte dos sentimentos da minha mãe. E me senti tão amada, mas tão amada, tão desejada e tão acolhida, que comecei a chorar convulsivamente. Então minha mãe chegou, e quase morreu do susto. Depois ela e uma de minhas irmãs riam sem parar, enquanto eu chorava, sobre um pastel meio comido, por sentir o quanto era amada.

Agora no auge da segunda gravidez, achei que ia passar imune por qualquer descoberta reveladora que pudesse me abater assim, do nada. Mas hoje, com 39 semanas e meia, simplesmente aconteceu. Não foi no shopping, nem tinha uma grande platéia. Aconteceu aqui, na sala de casa. Enquanto meu filho de cinco anos estava deitado no sofá, tentado acordar para ir para escola, ainda de pijama, segurando seu copinho de leite.

Hoje eu descobri que a vida como eu conheço está prestes a acabar. Descontem o exagero habitual e o hormonal. Mas a verdade é que esses pequenos momentos, todos, a nossa rotina diária, a hora do banho, a hora de dormir, as refeições, o mundo de brincadeiras, a nossa família de pai, mãe e um filho, está com os dias contados.

Antes eu não sabia como era ter um bebê. Agora eu sei. O mundo vira de pernas para o ar. Depois se ajeita, eu também sei, mas quando se ajeitar, simplesmente seremos uma nova família. Eu desejo essa nova família, engravidei por escolha e sei que o neném vai acrescentar e blá blá blá.

Mas hoje quando mandei o menino para escola, senti vontade de chorar. E chorei. Senti uma saudade tão grande dessa realidade que eu conheço e gosto, uma saudade tão grande de quando meu filho não era irmão mais velho, que olhar ele indo para o elevador me fez perceber que ele cresceu pelo menos uns 60 cm durante a noite que passou. Me dei conta que de uma hora para outra eu irei para o hospital, e dois dias e meio depois, quando eu voltar, essa família que se despediu hoje cedinho será outra.

Pelo menos na maturidade da segunda gravidez, eu nem tento descobrir onde foi parar minha sanidade. Na eminência de duras noites privadas de sono, e duros dias recebendo visitas que nunca tiveram problemas e sabem de todas as melhores maneiras de resolver qualquer crise existente na face da terra dos bebês, eu sinceramente me permito dançar sobre qualquer aparência de sanidade e controle emocional.

Hormônios desenfreados, medo do novo, demência materna, crise da idade atual (seja ela qual for), falta daquilo, falta de louça na pia, desiquilíbrio. Chamem do que quiserem. Mas hoje vocês são a platéia do shopping, e eu continuo com o papel de grávida louca.

 

(Em tempo: há poucos dias Diana abandonou o papel de grávida louca e assumiu o papel de mãe-de-dois louca! Nossas boas vindas para a filhota!)

 

Diana gosta de casa com cheiro de bolo, toalha bordada, mesa cheia de crianças, amor e risadas! Brinca de artesã, de fotógrafa e de costureira e é autora do  Inventare.