O uso de metáforas na educação dos filhos

O uso de metáforas na educação dos filhos

Por: Lígia Pacheco

Eu gosto muito de metáforas, em especial na educação dos filhos. Tenho a impressão de que traduzem de forma simples pensamentos tão complexos. As comparações implícitas produzidas pelos sentidos figurados parecem ajudar na comunicação, na compreensão, e principalmente na fixação do ensinamento que se quer dar.

Recentemente, ao conversar com minha filha, criei uma metáfora que vou aqui compartilhar. E assim falei-lhe.

Educar um filho e ajudá-lo a desenvolver é como estar dentro de um carro. A princípio, os pais estão na direção, decidindo o rumo, os caminhos, tomando todas as decisões, enquanto o filho vai no banco de trás apreciando e discutindo o que consegue perceber. Um pouco mais crescido, ele já pode sentar no banco da frente, o que dá a ele uma nova e mais ampla visão. Pode ainda ajudar a decidir, a escolher caminhos, lugares, a perceber os perigos e desafios do trânsito. Mas, ainda são os pais que estão no comando. Um pouco mais crescido, vai para a direção. Mas, não vai só. Como nos carros de auto escola  os pais vão ao lado e tem pedais para qualquer emergência. Qualquer sinal de descuido, de irresponsabilidade ou de desatenção, os pais pisam no freio, reeducam e recomeçam. Aos poucos, quando o filho já está mais experiente, mais seguro e mais consciente do seu papel consigo e com os outros, os pais vão saindo da função de copilotos, deixando com que os filhos assumam,  com responsabilidade e autonomia, a direção da própria vida.

Assim vejo o nosso papel de pais para com os filhos. Devemos ensinar-lhes a serem autores de suas vidas. Porém esta construção é processual. Ou seja, não se dá da noite para o dia, mas começa no guardar os brinquedos, no arrumar a mochila da escola, na responsabilidade com a tarefa de casa, com a organização do próprio quarto, na assunção de suas desavenças etc. Como na metáfora usada, é preciso várias habilidades e competências, como saber ler, escrever, interpretar placas, saber sinalizações, ter respeito, visão parcial e global, coordenação, atenção, entre tantos outros, antes de assumir a direção de um carro. Assim também é na vida.

Porém, bem sei o quanto é difícil para nós, pais, deixarmos os filhos crescerem e se desenvolverem. Muitas vezes até parece que não os amamos se não assumimos as suas vidas. Todavia, só aprendemos a fazer fazendo e se fazemos tudo pelos filhos estaremos desprotegendo-os do mundo real.

Há pouco minha filha me ligou feliz da vida: acabava de receber a sua carteira de habilitação. Logo pensei: Como crescem rápido! Mas, estaria ela pronta para assumir a vida? Diria que já tem um bom caminho andado, e aproveitando-me da metáfora, sei que não lhe basta o documento. Ainda falta-lhe experiência no trânsito, reforço de habilidades, além de carro e dinheiro para mantê-lo. Contudo, posso dizer com alegria que tem sido delicioso andar no banco do passageiro, orientando, mas sobretudo apreciando suas escolhas, decisões, ousadias, destrezas, vendo-a dirigir a vida com tanta maestria. E num piscar de olhos lá estará ela com seus filhos no banco traseiro.

 

Lígia Pacheco – Casada, mãe de duas filhas adolescentes, docente, pesquisadora, palestrante, assessora pedagógica para professores, pais e alunos. Colunista da Revista Pais & Filhos e autora do blog: FILHOsofar: Educação entre Pais e Filhos.