O sonho de Vitório que era o sonho de Veridiana

O sonho de Vitório que era o sonho de Veridiana

Por: Natalie Catuogno


Era uma vez uma moça que se formou arquiteta. Trabalhou por um tempo projetando móveis, mas gostava mesmo era de ilustrar. Desenhava aqui, desenhava acolá até que, em 2007, decidiu ilustrar para viver. “Passei por um daqueles momentos de decisão na vida, sabe?”. Montou um portfólio e, com ajuda dos amigos, arranjou os primeiros trabalhos como ilustradora.

Daí que, apaixonada por literatura infantil (comprava livros de todos os ilustradores de que gostava), tinha o sonho de desenhar sua própria história para crianças. Exatamente como num sonho, uma coisa levou à outra e a ilustradora Veridiana Scarpelli acabou editando o seu “O Sonho de Vitório”, que conta, apenas com imagens, as fantasias de um porquinho simpático. Vitório voa pelo céu vestido de super-herói, desbrava as profundezas de um oceano encontrado numa poça d’água, brinca numa festa à fantasia…e tudo o mais que sua imaginação permitir. Recomendado para bebês a partir de um ano (segundo indicação da editora, a Cosac Naify), é uma das raras obras para pequenos nessa faixa etária.

Na segunda entrevista da série sobre escritores de literatura infantojuvenil, o MMqD conversou com a estreante que, aos 33, realiza o sonho de lançar seu primeiro livro para crianças: “Penso em outras histórias. Até para o Vitório mesmo. Mas isso tudo ainda está amadurecendo. Ainda estou curtindo calmamente a alegria do projeto realizado”.

 

MMqD: “O Sonho de Vitório” é um dos raros livros adequados para crianças bem pequenas, a partir de 1 ano (segundo indicação da editora). O objetivo era esse mesmo -poder oferecer arte para os bebês- ou isso aconteceu por uma feliz coincidência?

Veridiana Scarpelli: Foi uma coincidência mesmo. Na verdade, eu não pensei nesse livro como um produto. Foi só depois dos desenhos todos prontos (antes do primeiro contato com a editora até) que eu percebi que o fato de não ter texto fazia do Vitório um livro totalmente possível para crianças bem pequenas. A história também ajuda nisso, acho, porque não tem um fio condutor muito rígido.

MMqD: Sem uma única palavra, o livro conta muita coisa. Qual era a ideia/objetivo quando você concebeu “O Sonho (…)”?

Veridiana Scarpelli: Essa é uma pergunta difícil. Eu não tinha um objetivo claro e prático, não. Quis fazer uma história e uma coisa levou à outra. Claro que eu pensava na possibilidade dessa “história” virar um livro real e publicado. Esse era o meu sonho dentro do sonho do Vitório… Mas, eu fiz primeiro por vontade minha de passear por aí (“escrever” histórias).

 

 

MMqD: O estímulo à criatividade dos pequenos era parte do que você queria promover com o livro?

Veridiana Scarpelli: Eu acho que a criatividade de uma criança acha estímulo em absolutamente qualquer coisa. Essa é a graça de ser criança. O surreal e o fantástico fazem parte do cotidiano. Acho que o Vitório tem de legal essa abertura de permitir que a criança imagine o que quiser para a história, crie outra história para as imagens até.

MMqD: Quais técnicas que você usou no livro e por que as escolheu (que efeitos gostaria de dar à narrativa)?

Veridiana Scarpelli: O Vitório foi feito com pastel oleoso sobre cartão. Mas fiz pedaços com caneta nanquim e papel colorido recortado. Depois, finalizei no computador. Foi uma escolha um tanto arbitrária. Estava com saudade de usar meus pasteis e decidi fazer isso com o Vitório.

MMqD: De onde surgiu a ideia para fazer o livro, o que foi – e é – inspiração para você?

Veridiana Scarpelli: Tudo é inspiração, na verdade. Eu tenho muitos livros infantis e acabo comprando todos que encontro dos ilustradores de que gosto. Mas considero inspiração tudo de interessante que já vi, ouvi, cheirei, comi, peguei na vida. Estava com algum tempo livre – entre trabalhos – e achei que era a deixa perfeita para trabalhar numa história ilustrada.

MMqD: “O Sonho de Vitório” dá a impressão de ser um sonho mesmo: sem muita lógica aparente, uma coisa leva a outra sem uma narrativa rígida. As coisas simplesmente fluem. Foi assim também na hora de criar?

Veridiana Scarpelli: Foi totalmente assim, sim. A história saiu toda de uma vez só e dessa forma que está no livro. Não mexi em nada.

MMqD: Oferecer às crianças acesso à literatura é importante não apenas para estimular a leitura, mas também para colocá-las em contato com as artes visuais, que, para os pequenos, são ainda mais estimulantes que os textos ou as histórias. Você concorda com isso? Que outros tipos de artes visuais você recomenda que as mães ofereçam às crianças?

Veridiana Scarpelli: Acho muito importante oferecer repertório para as crianças. Tudo é interessante pra um ser que chegou há pouco. E acho que acabamos subestimando o quanto as crianças podem se interessar pelas coisas mais diversas. É claro que uma criança que não lê vai achar mais legal um livro cheio de imagens que um só de texto. Mas também não acho que tem que ser tudo muito brilhante e histriônico para prender a atenção delas. É a clássica situação do bebê com mil brinquedos coloridos, mas que, de repente, só quer brincar com o pote de plástico sem graça da mãe.

 

 

MMqD: Como tem sido, na sua avaliação, seu contato com as crianças em lançamentos e eventos?

Veridiana Scarpelli: O Vitório foi meu primeiro lançamento. Pensamos numa oficina de máscaras e acho que isso deu super certo! As crianças (e alguns dos meus amigos adultos) passaram o tempo todo pintando e colando confetes nas máscaras. Acho que foi uma verdadeira festa e eu fiquei absolutamente satisfeita.


(Ilustrações: Veridiana Scarpelli/Divulgação)

 

Natalie Catuogno, 32, é mãe do Enzo, jornalista, louca por livros. Junto com a cria, está (re) descobrindo as obras para crianças. Assina a série de posts do MMqD sobre literatura infantojuvenil e também escreve sobre maternidade no blog www.maederna.wordpress.com

 

Mais da série de literatura do MMqD:

O Google pode resolver as dúvidas do Hamlet? (entrevista com o escritor Pedro Bandeira)