O que deixar…

O que deixar…

*Post finalista do concurso O Melhor Post do Mundo, promovido pela Limetree com o apoio do MMqD*

Por: Nívea Salgado

Os últimos dias têm sido frios em São Paulo. Após tempos guardado no fundo do armário, retirei o cachecol azul de tricô para fazer parte do figurino. Impossível deixar de pensar em minha avó todas as vezes em que o uso, afinal ele faz parte da herança que recebi há dois anos, quando ela faleceu. Lembro-me do telefonema da minha tia, perguntando se eu gostaria de ficar com alguma coisa. Respondi que ficaria feliz com algo azul, a cor favorita dela. Combinava com seus olhos, e por eu ter recebido seus genes recessivos, também com os meus.

Vovó não chegou a saber da notícia da minha gravidez, que esperei por mais de um ano. Em resposta à minha ansiedade por engravidar, ela respondia, com a sabedoria de quem já tinha vivido oito décadas, que a vida tinha seu próprio tempo para se manifestar. “Sim, minha neta, porque seu filho virá quando corpo e alma estiverem prontos. Acostume-se à ideia de que você não poderá determinar seu nascimento, assim como não poderá definir seus pensamentos, ou suas decisões”. E não é que ela tinha razão? Ainda que minha filha seja tão pequena, percebo que ela não é minha, e sim do mundo. Mesmo não podendo decidir por onde seus passos seguirão, posso mostrar um caminho que considero seguro. E enquanto ela aprende a andar, deixo que caminhe ao meu lado, para fortalecer suas próprias pernas. E a ajudo a levantar das quedas, às vezes a erguendo, e outras deixando que faça isso por si mesma, para ganhar confiança.

Não poderei escrever seus discursos, mas posso demonstrar desde cedo que palavras gentis derrubam muralhas. E que muitas vezes o silêncio, ou um sorriso, dizem mais do que mil palavras. Não poderei evitar todos os nãos que a vida lhe falará, mas posso ensiná-la que nem sempre sua vontade prevalecerá, e que isso não é demérito algum. Muito pelo contrário, que superar esses momentos a deixará mais serena e determinada. Não poderei escolher seus amigos, mas posso mostrar que a amizade verdadeira é sentir na felicidade do outro a sua própria. Não poderei dizer por quem seu coração baterá, mas ao olhar para os meus olhos, ela poderá ver como é o brilho de quem encontrou alguém para dividir todos os seus dias. E se ela prestar atenção, bem ali no fundo, poderá enxergar ainda mais: que a luz mais intensa vem do amor, de quem vê a vida florescer nos olhos do filho.

Minha avó teve cinco filhos, dez netos e, até agora, quatro bisnetos. E mesmo naqueles que não conviveram com ela, sua presença se faz, seja na cantiga familiar no Natal, na receita do biscoito de fécula de batata, nas histórias que deixou.

E você, o que vai deixar para seu filho, e para os filhos dele? O cachecol, a cor dos olhos, o livro de receitas, as memórias de uma vida repleta de exemplos?

Nívea Salgado. Paulistana, geminiana, que descobriu um monte de coisas com a maternidade: que seus pais eram verdadeiros heróis e ela não sabia; que nada funcionava melhor do que um secador de cabelos para fazer sua filha dormir; que suas 24 horas diárias sofreram uma dilatação capaz de permitir que seja ao mesmo tempo filha, mãe, esposa, irmã, amiga, profissional e ainda escreva o blog Mil Dicas de Mãe, onde conta todas as descobertas que considera úteis para as mães de primeira, segunda ou “n” viagens.