O Paigicídio

O Paigicídio

Por: Pedro

Quando a Flávia me pediu que escrevesse um post no blog, imediatamente pensei “o que eu poderia contar de interessante que já não foi dito antes no MMqD?”. Na verdade, acho que quase nada. Então relaxei e decidi escrever sobre algo que já tinha pensado para mim e que agora compartilho com todos: o medo paterno.

Não, não tenho medo de ser pai ou da paternidade; e muito menos do meu filho. O medo é do que pode acontecer com o filhote.

Minha esposa me lembrou de um episódio significante sobre este tema outro dia. Na primeira noite no hospital após o nascimento do Lucas, eu tinha dormido um total de 4 horas nas últimas 48 horas – um indicativo de no que estava me metendo, sem dúvidas. A metade-cara estava no leito, o filhote no bercinho e eu no sofá. Conta a esposa que, do nada, eu pulo dormindo do sofá e digo desesperadamente: “Puta que pariu! Eu esmaguei o Lucas!”.

O medo paterno é isso: medo que o pai tem de tudo o que pode acontecer com o filho na sua vida, mas, principalmente, o que o próprio pai pode fazer que vai, de alguma forma, influenciar negativamente na cria.

Neste episódio contado, está refletido o medo do dano físico. De tanto conversar sobre cama compartilhada com a patroa, aquilo ficou no inconsciente e, na primeira noite com o pimpolho, disparou o medo. Mas cada aspecto da vida da prole tem algo amedrontador associado: não pegar direito e derrubar, o banho escorregadio e afogador etc.

De todos os medos de dano físico, o mais perverso é o da hora de dormir. Os pais passam boa parte da vida tentando fazer o filhote dormir e descansar e se calar. Mas, quando o moleque está calado e quieto e dormindo, os pais ficam desesperados porque não escutam nada dos filhos e passam o tempo em que o filho está dormindo – e que eles deveriam aproveitar para descansar também – checando a cada minuto se o guri tá bem. Tenso.

No entanto, o dano que mais me deixou particularmente nervoso é o dano psicológico/emocional. Aquilo que nasce da sua esposa, embora já seja um serzinho vivo, também é uma enormecíssima incógnita. Não saber o que o filho será no futuro, tudo o que ele aprenderá, o que será capaz de fazer ou como reagirá às dificuldades que o mundo lançará contra ele. O potencial do filho pode leva-lo a qualquer direção, sem distinções de bem ou mal.

Por isso, aquela interrogaçãozinha careca sempre me deixou muito preocupado. Como se cria um filho? Como se cria um filho para ser boa pessoa? Como se cria um filho para ser bem-sucedido na vida? Como?

Eu ainda não encontrei uma resposta para essas perguntas ou mesmo para o que é ser boa pessoa ou bem-sucedido na vida. Acho que são coisas que os pais vão aprendendo, moldando, lapidando conforme a criança vai crescendo e se desenvolvendo. Sim, assustador não ter nenhum guia “filhos for dummies” e nenhum “CTRL+Z” para resolver tudo. Mas a humanidade cresceu assim e tamos aí – apesar da minha mãe achar que o ser humano é impraticável e que a babaquice é universal; mas isso já é papo para outro(s) post(s).

A verdade é que, independente de ter respostas ou não, esse medo acabou me fazendo uma pessoa melhor – e continua fazendo. Estou adotando hábitos mais saudáveis, emagreci, mudei comportamentos que não quero ver repetidos no meu guri. Meu filho matou o pai que eu era para nascer das cinzas o que sou agora: uma versão melhorada.

E tem mais! Muitas mães afirmam que os homens se entendem como pais apenas quando o filho nasce, que é quando cai a ficha. Pela história da primeira noite do Lucas no hospital, até poderia confirmar isso. Afinal, eu era particularmente bom de cama – deitava e dormia e não acordava por nada nesse mundo – e, a partir daquela noite, acordo ao som do menor gemidinho dado a um quarto e duas portas fechadas de distância.

Mas a verdade é que eu começou bem antes, o medo e a transformação para melhor. Quando nos vi grávidos, comecei a pensar no que faria com nosso filho e o que poderia ajudar na sua vida. Nessa reflexão, lembrei da minha infância e de como era chato pra danar e vivia fazendo perguntas de tudo para uma mãe que não tinha tanto tempo/energia/criatividade assim para responder. Por isso, ganhei muitos “porque sim” e “porque não”. E decidi que não faria isso com o Lucas.

Por isso, comecei a escrever um blog de contos chamado Respostas Fantásticas para Perguntas Intrigantes. Quero poder dar sempre uma respostas fantástica para cada pergunta intrigante que ele me faça.

Para terminar, um conto em poesia da série “As Peripécias do Pedro” (que não sou eu, diga-se de passagem) com um dos problemas que não vejo a hora de passar com o Lucas.

Pedro Pedrando

Pedro, muito atento

Escuta da boca do pai

Algo, um novo entretenimento

Que de sua cabeça não sai.

Pedro: “Pai o que significa

O que você disse, essa palavra?”

“Filho, assim me complica.

O que na sua cabeça se trava?”

Pedro diz “Pisantes!”

“Você sabe, filho.”

“Sei que nunca ouvi antes.”

“Ai, vou ajoelhar no milho.”

“Pedro, pisante é sapato.”

“Por que falar diferente?”

“Porque assim é um barato.”

E o pai ficou contente.

Mas Pedro ficou pensativo

Com o sabor da palavra na boca

Notava-se o pensamento ativo

E que dali viria ideia louca.

Pedro voltou a falar, então,

Pensamento feito, ânimo renovado.

O pai, pego de supetão

Deixou o que fazia de lado.

Pedro pediu o controladisso

Apontando para o televisor.

O pai se indagou “Que será isso?”

E , na cabeça, começava o ardor.

Pedro, ao pobre pai explicou

Que era para usar na assistonça.

Perdido, o pai perguntou

Que seria tal geringonça.

Pedro, após esclarecer o mistério

De que era o controle e a TV,

Acrescentou com o cenho sério

Que todos os nomes ia rever.

“Pedro está mudando o nome de tudo!”

Gritou o pai à mãe por ajuda.

Ela, no entanto, fez ouvido surdo

Pois ideia do filho nada muda.

Pedro continuou sua obra

Chamando escada subidante,

Palavra na boca do pai salobra,

Indicava a mudança do mundo num instante.

Pedro disse da cadeira

O estranho nome sentatuso.

E o pai, sem eira nem beira,

Só ouvia àquilo confuso.

Pedro, assim que nomeou

a cadelinha de latidência,

Seu pai lhe implorou

Que dele tivesse clemência.

Pedro ficou pasmo

Com o pai aturdido

Como não mudar o marasmo

Do nome perdido.

“Pedro, seu pai tá velho

O próprio nome não lembra.

Se você lançar novo evangelho,

Como lembrar o que é furembra!”

Pedro explica que é garfo

Mas do pai tem dó

Decide acabar com o fuzarfo

“ou confusão”, “Assim é melhor”.

Pedro com os nomes fez as pazes

E voltou a chamar tudo como é

Mas guardando na manga como ases

Boas ideias para quando brincar quiser!

Imagem: daqui

Pedro – pai do Lucas – autor do blog: Respostas Fantásticas para Perguntas Intrigantes..

Quando eu era criança, eu era muito chato. Perguntava tudo, o porquê, o como, o por onde, o quando, tudo. E minha mãe até tinha alguma paciência de explicar algumas coisas. Mas, depois de trabalhar 8, 9 horas por dia, enfrentar trânsito, chegar em casa cansada, fazer a janta, lavar a louça, botar as crianças para tomar banho, vestir e arrumar as crianças para dormir, eu entendo perfeitamente porque eu recebi tantos “porque sim” na vida. Fato é que eu não gostaria de repetir esse comportamento com minha prole. Gostaria de poder dar uma explicação para tudo o que perguntar. E mais: queria poder dar uma resposta fantástica, que estimulasse a criatividade da criança, que pudesse montar um universo mágico à sua volta. Pelo menos até o filhote descobrir a TV e o computador. Por isso a imaginação é minha ferramenta de trabalho nesta empreitada. Montar uma “mitologia infantil” rica o suficiente para que meu filho possa passar uma infância fantástica.