O orvil átse erbos a asem

O orvil átse erbos a asem

Por:  Nicolilando por aí*

*Esse blog faz parte do Especial Top 20 do MMqD, uma seleção dos blogues mais votados pelos nossos leitores, através do formulário VIP na pracinha.

 

Quando eu era criança, me achava super esperta por não acreditar em Papai Noel, nem naquela baboseira de que a gente não cresce se alguém passar a perna por cima da nossa cabeça ou que nasceria uma verruga no meu nariz se eu contasse estrelas no céu apontando com o dedo. “Tem que ser muito bobinho pra acreditar nessas coisas”, pensava eu.

No entanto, jurava de pés juntos que, primeiro, tinha um gorila morando no telhado da casa da minha avó. Segundo, que aquele barulhinho de grilo à noite, sabe qual? — psc, psc, psc — então, eu ju-ra-va que esse barulho era de estrela piscando no céu e ficava deveras intrigada como que mesmo em noite nublada eu continuava escutando as estrelas tão nitidamente. E terceiro, tinha absoluta certeza que pra falar inglês bastava falar as palavras em português, só que de trás pra frente.

Assim, num belo dia eu me convenci que sabia falar inglês.

E, claro, contei pra deus e o povo que além de extra-terrestre (Venusiana, dá licença?), também dominava a tal língua estrangeira. Vira e mexe, tinha um me perguntando como se falava isso ou aquilo em inglês. As palavras pequenas eram fáceis, num instante eu traduzia. Flor? “Rolf”. Casa? “Asac”. Ovo? Era “ovo” mesmo, engraçado. Agora, palavras maiores eu gastava um pouco mais de tempo. Árvore? Eu tinha que embromar, perguntar mais de uma vez pra ganhar tempo, escrever no chão com um pedaço de tijolo:

– Á-r-v-o-r-e, é isso mesmo que você quer saber?

E daí a resposta vinha: “Erovrá”.

Mas nada me fascinava mais que os nomes. Adorava pensar em como cada uma das pessoas que eu conhecia se chamaria se morasse nos EUA. Eu por exemplo, seria Anaicul. Feio, eu achava. Bonito era o da minha amiga Regina: Aniger. Que sorte a dela. Ou da Amanda: Adnama. Mas um nome que pra mim era imbatível na lindura anglo-saxônica era o do meu irmão Reinaldo: Odlanier. Que tudo!!! Odlanieeeeeer… Vivia eu repetindo. Era um inglês classudo, assim com um leve sotaque francês, né?

Bom, claro que minha pose de tradutora não durou muito. Um dia veio a lambisgóia da “Yllek”, que talvez, prevendo que não iria fazer a menor sucesso nos Estados Unidos com esse nome, me desmentiu na frente de todo mundo dizendo que não, que maçã não era “ãçam” em inglês como eu afirmava, mas “apple”. E encheu a boca pra falar: ÉPOL.

Aquilo me encasquetou por dias – até que um tio meu me confirmou. Sim, maçã era mesmo “épol”, mesa era “têibol” e cachorro, bom, cachorro não era “orrohcac” como eu já tinha espalhado pra todo mundo. Cachorro era simplesmente “dóg”, muito mais fácil inclusive.

Foi aí que meu mundo paralelo desmoronou soterrando pra sempre a Anaicul.

* * *

Mas fato é, que depois de toda a dificuldade que eu passei pra “traduzir” palavras pro “inglês” eu cresci com aquela impressão de que qualquer criança que falasse o idioma fosse inteligentíssima, sabe? Uma vez fui a uma festa na casa de uma amiga e lá tinha um menininho nascido no estrangeiro, mas que passava férias no Brasil. Ele tinha 4 anos e falava t-u-do em inglês. E eu, mesmo já sabendo que ele não precisava pensar em português, inverter as palavras todas na cabeça e depois formar frases inteiras, olhava abestalhada de admiração pra aquela incrível miniatura de gênio.

* * *

Daí que eu cresci, me casei, fomos morar na Australia e eu fiquei pensando nessas coisas todas; que nosso filho nasceria lá e seria também um pequeno geniozinho falador de inglês. Não deu em outra, com 18 meses, Nicolas já sabia “bye bye” e “dog”. Repararam? Com 18 meses ele já sabia que era “dog” e não “orrohcac” como eu achei que fosse. Inteligente é pouco esse meu filho.

Logo depois viemos pro Canadá. Mas como em casa a gente sempre falou só português e Nic continuava comigo em tempo integral, não viu outra saída senão inventar sua própria língua pra se comunicar com os amiguinhos canadenses na hora de brincar com eles. A língua era o “embromation” e consistia em embolar a língua de forma a SOAR como inglês, mas sem na verdade proferir nenhuma palavra na língua. As outras mães achavam aquilo extraordinário e muitas vezes chegavam a pensar que ele estivesse SIM falando inglês… pra depois constatarem que “não, não está não. Mas como parece!”.

Bom, hoje Nic já largou o “embromation” pra lá e conversa muita coisa em inglês DE VERDADE. Tudo bem que anda misturando as duas línguas de vez em quando: “olha como sou fasto, mamãe!” ou “nossa, estou jumpando alto!”, me disse outro dia. Mas tudo bem. Certamente ele ainda tem muito tempo pra aprender inglês, português, francês, chinês e quem sabe até mesmo o “inglês” da mamãe? Afinal, eu adoraria ressuscitar a Anailcul e trocar umas palavrinhas invertidas com ele um dia…

– Ue et oma, Salocin!

– Ue mébmat, eãmam.

 

Lu Azevedo – Mineira de Belo Horizonte, que adora percorrer o mundo. Já morou na Venezuela com o marido, depois Australia, e hoje moram nos arredores de Vancouver – Canadá. Ex-geóloga, atualmente mãe de Nic e Lily em tempo integral e ilustradora nas horas vagas. Autora dos blogs: Nicolilando por aí e la le li lo lu ilustration – onde posta seus lindos desenhos, já conhecidos pela blogosfera afora.