O lado B da chegada do bebê: o baby-blues

O lado B da chegada do bebê: o baby-blues

Por Jacqueline

Aquele deveria ser o dia mais feliz da minha vida. Afinal eu estava carregando meu príncipe, com quem tanto sonhei por nove meses, para o nosso lar. No hospital, onde me senti em uma cadeia, presa por dois dias que mais pareceram 2 anos, era difícil me concentrar na tarefa de ser mãe. Eu olhava aquelas mães experientes, exalando amor e confiança, trocando fralda e amamentando, como se tivessem feito aquilo a vida toda. Olhando para seus filhos como se eles fossem o centro do universo. E era exatamente assim que devia ser.

Mas não foi, pelo menos não para mim.

Cheguei em casa exausta, pois não dormia há 48h, ou seriam 72h? Não me lembro bem, acho que depois das primeiras 12h sem dormir nada mais fazia sentido para mim, eu me sentia um zumbi. A primeira coisa que quis fazer, assim que cheguei em casa, foi tomar um longo banho. Entrar no banheiro era como me sentir fora da prisão, de volta ao meu lar, onde eu podia sentar no box e chorar todas as lágrimas que segurei para parecer forte diante das outras mães.

Eu queria fica eternamente embaixo do chuveiro, mas logo uma voz me lembrou da minha obrigação atual:

-Vem amamentar seu filho, ele está chorando e com fome – gritou meu esposo do lado de fora.

Meu filho.Essa frase teimava em se repetir no meu subconsciente. Mas por que eu não me sentia mãe?

Eu desliguei o chuveiro, me vesti e fui para o quarto. Um bebê todo vermelho, de tanto chorar, se contorcia na cama. Cheguei perto e me lembrei de tudo: eu era mãe, ele precisava de mim. Mas eu também precisava de alguém. Me dei conta que eu não era mais filha, eu era mãe e precisava ser mãe para ele. Com muita dificuldade ele mamava, mas eu insistia e prometia que não iria desistir, aliás, como minha mãe frisava: mulher nasce para ser mãe.

Nem todas, eu pensava com os meus botões.

Quando todos iam embora eu chorava. Ficar sozinha com meu filho era algo que me amedrontava. Não sei bem por que. Lembrei dos muitos artigos que li durante a gravidez. Sempre torci a cara para os que falavam de baby-blues e depressão pós-parto. Não entrava na minha cabeça como uma mulher poderia negar cuidar do próprio filho, ou se sentir incapaz de fazê-lo. Como uma mulher pode rejeitar um ser que habitou seu ventre? Isso era inconcebível. Lembrei dos programas que eu assistia sobre a chegada do bebê. Lembrava do sorriso da mãe, feliz ao relatar como se sentia apaixonada por aquele novo integrante da família. Lembrei dos muitos relatos que lia pelos blogs, onde as mães relatavam sentir o maior e imenso amor do mundo, e que nada se comparava a esse amor. Mas por que eu não me sentia feliz? Por que eu me sentia no meio de um furacão, prestes a ser levada?

Tentava ser forte, mas quando as visitas chegavam eu não conseguia controlar. As lágrimas desciam sem que eu pudesse impedir, mas eu não conseguia falar o que estava sentindo. Eu me sentia a pior mãe do mundo. O tempo todo me questionava se a adaptação também teria sido difícil para a Ivete Sangalo, ou Gisele Bündchen. Eu também queria parecer perfeita. Prometi que não daria declarações no blog, de como estava sendo difícil a adaptação para mim. Eu não queria ser a louca-maníaca-depressiva que tem medo de cuidar do filho.

Quando minha mãe falava que precisava sair, eu agarrava o braço dela e implorava para não me deixar sozinha com o Bryan. Não sei por que, mas com ela por perto tudo parecia ser mais fácil. Eu perguntava de segundos em segundos como ela conseguiu aguentar tudo aquilo quando eu era bebê? Como ela teria lidado com a avalanche que é a adaptação após ter um bebê. Ela me respondia que era fácil. E isso piorava tudo. Eu começava a achar que ficaria louca lidando com tanta responsabilidade e mudança.

Eu perguntava se os dias iriam passar voando, se eu ia me acostumar a ficar sem dormir, mas as minhas perguntas não tinham respostas. Não com a rapidez que eu desejava.

Quando enfim ficavámos só eu e meu esposo em casa, eu desabava. Na frente dele eu não precisava fingir ser forte. Eu chorava, pedia para tudo voltar a ser como era antes. Pensava que jamais retomaria minha vida, jamais teria tempo para namorar com ele, jamais assistiria um filme, ou iria ao cinema ficar de mãos dadas, como costumávamos fazer. Ele sorria, e dizia que eu era a melhor mãe do mundo. Aquilo mexia comigo, eu sabia que era a maior mentira do mundo, isso sim. Eu estava acabada, não conseguia amamentar todas as vezes, me recusava a dar banho no meu filho, não gostava de pensar na hipótese de ficar sozinha com ele, e mesmo assim meu marido sabia como acalmar as coisas e me fazer sentir melhor. Pra ele era fácil, eu pensava. Não era ele que servia somente como um par de peitos para satisfazer a fome do filho. Era assim que me sentia. No início.

Logo deixei de julgar aquelas mães. Aquelas que pertenciam a minoria, que chegavam em casa com seus filhos e se sentiam amedrontadas, sem saber o motivo de tanto pânico. Eu era como elas, mesmo que eu custasse a aceitar que estava entrando em depressão, porque tentava criar um padrão para a maternidade perfeita. Olhei para meu filho pela enésima vez no dia. Eu não conseguia sentir aquele amor arrebatador que todas as mulheres diziam sentir, mas eu sentia que ele era meu. Ele era único. Ninguém no mundo chorava como ele. Quando ele enterrava o rostinho no meu seio para mamar, era como se o mundo fosse só nóis dois, e nada mais importasse. Eu comecei a perceber que talvez tudo aquilo estivesse sendo difícil pra ele também. Durante 40 semanas, ele estave em um lugar fechado, quente e cheio de líquido, com um cordão ligado a mim, quando foi arrancado para viver em um mundo cheio de espaço, onde ele sentia o vazio e precisava aprender a sugar para sobreviver. Ele foi separado de mim, e deixou de ouvir seu som preferido, que o acalmava e confortava todos os dias: a batida do meu coração. Devia ser muito difícil pra ele também. Ele me escolheu pra ser mãe dele. Mesmo que no início eu não me sentisse mãe. Ele me escolheu. Aquelas palavras não saiam da minha cabeça. Percebi que tudo era difícil para nós dois.

Ainda passei 3 longas semanas chorando embaixo do chuveiro, me sentindo a pior mãe do mundo. Parei de pensar nas mães felizes e sorridentes das fotos nos livros e comerciais. Cada um vive a maternidade de um jeito totalmente diferente. Eu não tinha mais o modelo do bebê perfeito ou da mãe perfeita. O meu filho era perfeito e eu era perfeita pra ele. Nos completávamos. Aos poucos, as lágrimas embaixo do chuveiro deram espaço ao sorriso. Um sorriso de um pequeno bebê de 50cm tinha um extremo poder enigmático que eu jamais imaginaria. Eu decidi não me esconder no chuveiro. Decidi falar sobre meus medos, dúvidas e sentimentos. Minha família me ajudou muito, me escutando. Eu não precisava esconder a verdade e me camuflar pensando ser a mãe perfeita. E depois de 3 semanas me apaixonei novamente. Senti o amor mais arrebatador do mundo. Aquele que a pessoa sabe que é para sempre. Deixei de criar expectativas. Não existe o bebê perfeito. Existem bebês únicos. E o Bryan era único.

Nossa experiência juntos também seria única. E assim passei a aproveitar mais nossos momentos juntos, mesmo que essa experiência fosse uma crise de cólicas às 3:00 da madruga.

Quando o baby-blues acabou, a maternidade passou a ser uma experiência maravilhosa. Tão maravilhosa que 3 meses depois eu já pensava em ter outro filho (minha mãe diz que agora sim eu estou ficando louca).

Jacqueline: ex-futura bióloga, apaixonada por fotografia e literatura, mas que se descobriu farmacêutica. No meio disso tudo, ela desempenha o papel de Agente Especial Mamãe. Para saber mais da Jacqueline, clica aqui.