“O Google pode resolver as dúvidas de Hamlet?”

“O Google pode resolver as dúvidas de Hamlet?”

Por: Natalie Catuogno

 
A maioria de nós, que tem hoje entre 30 e 40 anos, cresceu lendo Pedro Bandeira. Acompanhamos, por exemplo, as aventuras de Feiurinha (de “O Fantástico Mistério de Feiurinha”), fomos amigos íntimos d’Os Karas (de livros como “A Droga da Obediência” e “Droga de Americana”), nos emocionamos com Isabel (de “A Marca de uma Lágrima”).

“Tenho dezenas de leitores que se tornaram meus amigos ao longo do tempo. Até hoje, adultos, profissionais, já casados, com filhos, ainda me escrevem, ainda gostam de mim. Para alguns deles já dediquei livros e agora ando dedicando livros aos filhos dos meus antigos leitores”, diz Pedro, que acaba de lançar mais uma obra, “A Mentira Cabeluda”, pela Editora Moderna.

Posso dizer, sem medo de errar, que Pedro Bandeira já é um clássico da literatura infantojuvenil brasileira. Pois é justamente com ele, que ajudou tantos de nós a amar os livros, que o MMqD inaugura essa nova série de posts: entrevistas mensais com escritores para crianças. Com toda a paciência do mundo, Pedro respondeu as zentas questões que mandamos para ele, por e-mail. E aí vai o melhor dessa conversa.

“Quando adolescente pobre, eu tinha conta numa livraria de um livreiro compreensivo de minha cidade, enquanto colegas meus tinham contas em bares e em boates. E podem estar certos de que, nos livros, me embriaguei muito mais do que muita gente!” (Foto: Eduardo Santaliestra/divulgação)

 

MMqD: Em “A Mentira Cabeluda” você mostra algumas atitudes corriqueiras das crianças e vai atribuindo valor a elas, sem necessariamente condenar ninguém. Quais reflexões quis provocar com o livro?

Pedro Bandeira: A idade dos leitores deste tipo de história corresponde ao início da tomada de uma certa consciência do que é faltar com a verdade, prejudicando outra pessoa. A consciência de verdade-mentira e certo-errado ainda está em seu início. Por isso, o educador ainda não pode condenar coisa alguma; apenas discutir as consequências danosas que às vezes o faltar com a verdade pode causar a alguém. Nessa idade, a criança fabula muito, imagina muito, e isso é bom, não faz mal a ninguém e é bom que aconteça. Nessa fase, nunca se deve chamar “mentira” àquilo que é apenas o fruto da imaginação normal da criança; no entanto, já é possível estimular a consciência da criança para que ela mesma aprenda a separar o que é pura imaginação do que pode ser uma mentira passível de prejudicar alguém.

 

MMqD: Diferenciar a mentira “boa” da mentira “ruim” tirou da história o peso e a parcialidade que teria se tachasse toda mentira como algo ruim a priori. Você faz parecer fácil debater esses temas complexos com as crianças. Para você, é fácil abordar esses temas, com essa profundidade?

 Pedro Bandeira: Na idade que provavelmente tem o leitor do tipo de história abordado em “A mentira cabeluda” (a chamada “segunda infância”), tem início a consciência do “relativo”. Em seu processo de amadurecimento, meu pequeno leitor está começando a relativizar as coisas, a compreender que seu pai-herói-poderoso-e-infalível tem o direito de às vezes lhe parecer com defeitos, que sua mãe-fada-linda-e-maravilhosa às vezes tem o direito de parecer uma bruxa, ao negar-lhe algo, ao castigar o filho, ao dar-lhe uma bronca. Para amadurecer com segurança, ele leitor precisa aprender que o mundo não é composto por anjos e por demônios facilmente reconhecíveis, mas por seres humanos, que são falíveis, que podem pisar na bola de vez em quando. Logo, isso levará o educando a compreender que ele mesmo faz parte dessa espécie humana, que pode cometer erros, mas que pode perdoar-se e ser perdoando. Por isso, eu jamais poderia condenar o menino que mentiu para defender-se; ele tem o direito à redenção.

 

MMqD: De que forma você entra em contato com esse universo infantil/juvenil que você representa tão bem? Que exercício você faz para não ser um “estranho” no ninho? Sua escrita parece um relato feito por alguém “de dentro”, por uma criança, por um jovem. 

 Pedro Bandeira: Escrever ficção exige talento,  na certa, mas sem estudo não se pode garantir o direcionamento de uma obra dedicada às várias faixas do desenvolvimento dos seres humanos. É necessário ter a sensibilidade de compreender a alma humana, mas é preciso uma fanática dedicação ao estudo dessa fascinante matéria que é o “interior” da cabeça das pequenas pessoas. Mas, no fundo (ou a princípio…) é preciso amar quem vai nos ler…

 

MMqD: Para os maiores, a grande referência são “Os Karas”. Todos os livros da série sempre tiveram algum pano de fundo relacionado a temas importantes para o País, para a sociedade, para o mundo (ditadura, meio ambiente, inter-relação social etc). Essa era uma proposta da série? 

Pedro Bandeira: A idade que eu pretendo atingir com essa série é a faixa que [Jean] Piaget determinou como a do nascimento da consciência de mundo, a última camada da cebola a ser ultrapassada pelo ser humano em seu desenvolvimento. Seria o início da “adolescência nuclear”, aí desde os 11 até os 15 anos, mais ou menos. Nessa faixa, o ser humano já compreende que há um mundo mais amplo, muito além de sua família, de sua rua, de sua escola. E que essa imensidão tem problemas. Assim, pensando, procurei abordar super-problemas, sempre de modo simbólico, ao discutir as ditaduras através da metáfora de um maluco que pretende fazer com que toda a juventude se torne cegamente obediente aos seus desígnios, ao apresentar um avião de ouro simbolizando a fortuna dos malfeitores, ao inventar um louco que pretende provocar uma terceira guerra mundial e assim por diante. Esses livros fizeram e fazem sucesso justamente porque são lidos por pessoas que estão atingindo a idade de tomar conhecimento dos grandes problemas da humanidade junto com a certeza de que devem preparar-se para enfrentá-los.

 

MMqD: Qual a importância, na sua opinião, dos pais participarem da leitura dos filhos? E quais os limites? Um pai de adolescente deve participar da leitura do filho tanto quanto um pai de criança na primeira infância?

Pedro Bandeira: A Arte deve ser apresentada às crianças pelos seus pais. Educação é um problema da família, não da escola. A escola entra tarde demais na vida da criança. Eis porque surgem tantas dificuldades para se trabalhar com crianças que, em casa, já não tenham sido previamente apresentadas às delícias da Literatura, da Música, do Teatro. Nos países adiantados, os professores não adotam livros de literatura para seus alunos, pois eles já os leem em casa, oferecidos por seus pais. No Brasil, como isso historicamente não acontece, nossos pobres professores são obrigados a complementar tudo aquilo que as famílias de seus alunos deixaram de fazer… Isso tem de mudar, se quisermos que o Brasil melhore.

 

 MMqD: Você, que escreve desde 1983 para esse público, avalia que houve muitas mudanças comparando-se a criança/o jovem da década de 80 com crianças/jovens de hoje? Muito se fala sobre impactos da tecnologia (geralmente negativos) na leitura, na aprendizagem; muito se fala sobre uma suposta maior dificuldade em formar leitores hoje em dia, já que ler “concorre” com muitas outras diversões mais dinâmicas. O que você pensa sobre isso?

Pedro Bandeira: Nada muda. O ser humano, no século 30 a.c. ou no século 30 d.c., sempre será o mesmo: ele sonhará, terá medo, terá inveja, terá esperança, desesperar-se-á, odiará, amará, sentirá ciúmes. Isso tudo é o objeto da Literatura, da minha Literatura. “A droga da obediência”, por exemplo, foi escrito em 1983 e publicado em 1984, e até hoje é lido e adorado por pessoas que têm 11 anos, 12 anos. Por quê? Porque o livro trata dos seres humanos, de seus amores, da força que reside dentro de cada um de nós para construir um mundo melhor. O que o progresso tecnológico pode mudar nisso? Por que Shakespeare é tão adorado até hoje? E não havia computador nem telefone celular em seu tempo! O Google pode resolver as dúvidas de Hamlet? Ah, eu tenho orgulho de ter escrito obras que estão se tornando clássicos!

 

MMqD: As mães que nos leem são muito interessadas em estimular a leitura nos pequenos, desde muito pequenos mesmo. É possível fazer alguém gostar de ler?

Pedro Bandeira: Claro que sim! Ponha o seu pequeno no colo e conte a história do João e Maria para ele. Ele se arrepiará de medo do abandono dos dois irmãozinhos mas, no dia seguinte, pedirá que você lhe conte a história de novo. Pronto! Ele já foi conquistado pelo fascínio da Literatura e justo pela voz mais linda do mundo: a voz de sua mamãe! Foi assim que eu comecei…

 

 

Natalie Catuogno, 32, é mãe do Enzo, jornalista, louca por livros. Junto com a cria, está (re) descobrindo as obras para crianças. Vai assinar a série de posts do MMqD sobre literatura infantojuvenil e também escreve sobre maternidade no blog www.maederna.wordpress.com