O amor de nós três

O amor de nós três

Por: André

“Filho, o papai e a mamãe ainda se amam. Muito. Mas é um outro tipo de amor. É um amor de amigos, de parceiros na tarefa linda e louca de trazer você a este mundo. E de tão grande, esse amor já não cabe numa casa só. Então, agora você vai ter dois quartos, duas camas, duas vezes mais brinquedos e, principalmente, duas pessoas diferentes que amam você igualzinho: para sempre.”

Foi mais ou menos assim que expliquei ao meu filho João, um rapazinho de cinco anos, que eu estava saindo de casa. Duro, doído, mas real. Há mais ou menos sete anos, quando a mãe dele e eu resolvemos caminhar juntos, a gente gostava de pensar que a nossa criança já esperava em alguma fila, de algum departamento lá nas esferas superiores, pelo momento em que resolvêssemos trazê-la cá para baixo.

E quando ele veio, numa manhãzinha de junho de 2007, seus pais já tinham vivido dois anos de um amor intenso, bonito e flagrante que para ser completo só carecia de um terceiro elemento: ele, o nosso João. E foi lindo. O amor apegado, romântico e egoísta do começo explodiu num sentimento colorido, forte, espirrando vida para todos os lados como o conteúdo de um liquidificador ligado sem tampa, borrifando o ar, escorrendo pelas paredes, enchendo a cozinha e a vida de um cheiro novo e doce.

O mundo para nós três foi o melhor que já houve. Nossos primeiros anos juntos foram o enredo de uma história de amor perfeita. Nossos dias de festa, nossas noites sem dormir, a descoberta da asma do João – herança minha, homem talhado em inalações e corticoides – , nossas alegrias, nossas dores. E nossas centenas de fotografias feitas, refeitas e só imaginadas. Tudo isso decerto ajudou a fazer do João uma criança feliz e de seus pais, pessoas melhores.

No entanto, ninguém é tão genial para agradar alguém vinte e quatro horas por dia. Um dia a gente cresce, muda, as vontades se transformam, a vida nos apresenta outras cenas, outros caminhos. E o amor para dois, intenso, bonito e flagrante que viera para fazer de nós um casal e nos transformar em pais um dia se foi. Mas deixou conosco seu herdeiro legítimo, seu único filho: o amor de nós três. E esse não acaba. A gente não deixa.

A verdade é que na vida há pessoas a quem todos devemos amor incondicional para sempre. Mesmo longe, ausente, sempre há de haver alguém essencial em nossa biografia. Pais, avós, amigos, companheiros. Gente de carne e osso e unhas que em algum momento manifesta sua existência a favor da nossa. Meu filho é a pessoa mais importante da minha vida. E ele veio de uma parceria feliz que um dia eu tive com a mãe dele. Agora o casal acabou. Mas a família continua. A minha, a dela, a dele. A nossa família de duas casas.

André J. Gomes, 38 anos, jornalista, publicitário e professor universitário, é pai do João e ex-marido da Letícia, de quem continua muito amigo. 

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