Nós, os outros e a cama compartilhada

Nós, os outros e a cama compartilhada

Por: Ludmila Carvalho

 

Imaginem a seguinte cena: você, seu marido e o bebê de seis meses encontram um casal de amigos com uma bebezinha linda um pouco mais velha que o seu. Logo surge o assunto favorito de onze entre dez pais novatos – o sono da criança – e você conta que seu filho só dorme se for na sua cama. A amiga faz aquela cara de pena e diz que a filha dela dorme a noite toda no bercinho no quarto dela desde que nasceu. E ainda se despede com um “boa sorte” e manda você ler a encantadora de bebês. Você abaixa a cabeça, dá com os ombros como quem pede desculpas e agradece a dica.

 

Essa situação aconteceu comigo há alguns meses. Até hoje fico repassando a conversa em minha cabeça e me perguntando vários “porquês?”: Porque será que, ao comparar a situação dela à minha, minha amiga imediatamente me colocou (e ao meu filho) numa posição inferior, de alguém que tem um problema a ser resolvido? E porque será que eu aceitei tão natural e facilmente essa posição?

 

Porque a mãe que dorme ao lado do filho é considerada aberrante, enquanto deixar chorar (crueldade), recorrer a rígidas (e pouco naturais) técnicas de adestramento ou (virar zumbi) acordar de duas em duas horas para recolocar o bebê no berço é considerado normal? Ora, porque na nossa sociedade a cama compartilhada virou um tabu imenso, assim como o colo e a amamentação em livre demanda. Ou seja, os comportamentos instintivos estão sendo abolidos um a um em nome de uma pseudo-qualidade de vida moderna.

 

Confesso que eu mesma quase caí nessa armadilha. Assim que meu filho começou a dar pintas de que não iria dormir lindão a noite toda em seu quartinho, quase pirei. Achei que tinha alguma coisa errada com ele, que já estava “viciado” no colo. Ou comigo, afinal que espécie de mãe não consegue fazer seu próprio filho dormir? Hesitei durante semanas a coloca-lo na minha cama com medo, vejam só, medo de seguir meu instinto materno e protetor, medo de simplesmente escutar o que meu filho estava me pedindo.

 

Foram noites insones e desesperadas, até que comecei a ler artigos, livros e relatos na internet (*) sobre a cama compartilhada que me esclareceram e tranquilizaram. Uma frase, da psicanalista Laura Gutman, me marcou profundamente. Ela diz que a noite é um abismo longo e escuro demais para os bebês terem que atravessar sozinhos. Os bebês, sobretudo os menores, precisam de contato físico constante, de apego, e a hora de dormir é um momento crucial. Se eu posso estar perto e atender meu filho durante a madrugada, porque lutar contra isso? Porque esperar que ele acorde sozinho e chore por mim?

 

Aliás, aqui cabe um parêntesis: alguns relatos sobre a cama compartilhada são pouco realistas e podem criar ainda mais inseguranças em mães insones. Sim, a cama compartilhada é prática e pode ser uma maravilha, mas não é para todas. Não são todas as mães que conseguem relaxar com o bebê tão próximo, ou que conseguem amamentar sem despertar por completo. Assim como não são todos os bebês que se adaptam ou que necessitam desta proximidade, alguns dormem melhor sozinhos mesmo. Nem todas as noites são boas e sem interrupções. É necessário um certo compromisso, principalmente por parte do marido que precisa apoiar completamente a decisão, e não da boca para fora. E olha, tem noites em que eu preferiria dormir abraçadinha ao meu marido, e não ao meu filho #prontofalei.

 

Enfim, com todos os prós e contras, hoje em dia acredito e defendo os benefícios da cama compartilhada. Hoje em dia talvez eu tivesse a coragem de falar à minha amiga algo do tipo: “Tadinha porque? Eu durmo muito bem à noite ao lado do meu filho, e ele também, obrigada”. E citaria toda prosa o doutor Carlos Gonzalez, para quem dormir com os filhos é um instinto natural e benéfico à nossa espécie. E citaria o Dr. Sears, para quem dormir com os filhos cria crianças mais seguras e independentes. E citaria a Elizabeth Pantley, que denuncia a crueldade dos métodos de adestrar bebês a dormirem sozinhos.

 

O problema é que não é nada fácil peitar certas decisões contra-hegemônicas durante um período complicadíssimo que é o puerpério (que a Laura Gutman definiu brilhantemente como um período de consciência alterada, ou seja, uma loucurinha básica mesmo), em que a gente vira um poço de insegurança invadido por uma tsunami de conselhos, regras e informações muitas vezes contraditórios vindos de todos os lados (incluindo os bem-intencionados parentes, amigos, especialistas, livros, internet etc.). É preciso tempo, muita paciência e sobretudo coragem para separar o que queremos ficar, descartar o resto e ouvir a nós mesmas e aos nossos filhos.

 

 

(*) Referências que me ajudaram e que podem ajudar a outras mães:

· Comunidade no Facebook dedicada ao livro “Soluções para uma noite sem choro”, de Elizabeth Pantley;

· Comunidade “Eu pratico cama compartilhada”;

· Página do Dr. Sears com artigos em inglês sobre co-sleeping;

· Página da Dra. Laura Gutman com referências aos seus livros;

· Página da Wikipedia com referências aos livros do Dr. Carlos Gonzalez;

· Artigo sobre cama compartilhada no excelente blog Cientista que virou mãe;

 

Ludmila Carvalho, 31 anos, mãe do pequeno Marcel, jornalista e pesquisadora. Já pensou mil vezes em escrever um blog sobre maternidade, mas achou melhor guardar seus pensamentos só para ela e seu filho. Escreve um blog de comidas e receitas, o The Inner Life of Food (http://receitasdalud.blogspot.com/).