Nem Anna, nem Mia!

Nem Anna, nem Mia!

Por: Pérola Boudakian

Não há um jeito mais tranquilo de falar sobre isso…

Temos que ir direto ao ponto. Sem demora!

Outro dia assisti dois programas no canal Discovery Home & Health que me deixaram de cabelo em pé. Um deles “8 anos e anoréxica” e o outro “Anorexia Virtual”. Fiquei triste e chocada com ambos. No primeiro, uma garotinha de oito aninhos que parou de comer. Simplesmente não comia para não engordar, ela ficou 15 dias sem comer e chegou ao impensável de torcer o fio do soro glicosado para não entrar em seu corpo quando foi internada. O segundo, um documentário, mostrou meninas na Inglaterra que criam sites para gerar apoio ao desenvolvimento dos dois distúrbios alimentares mais sérios e graves: a anorexia, que recebe o código de “ana” e à bulimia , chamada de “mia”. Assisti a tudo aquilo com tristeza e pensava se havia aqui no Brasil redes de blogs e sites assim, com uma curiosidade recheada de medo, eu cliquei no Google e digitei os codinomes, chocada vi sites e blogs que disseminam cardápios, meninas adoecidas que entraram nesse universo e estão perdidas em si mesmas. No documentário inglês foi exibida a forma como as meninas incentivam dietas de menos de 300 calorias diárias, formas de ficar sem comer por dias e “painéis” de incentivo com mulheres magérrimas, beirando a morte. A ideia é que quanto mais osso, apareça, melhor. Um desvirtuamento absurdo da estética, do corpo, da auto-imagem.

Aí, eu mãe de dois, mulher E psicóloga, penso no mundo que nos cerca hoje, uma sociedade permeada de futilidades “vendidas” como essenciais, de exibições, de vitrines do corpo perfeito, da vida perfeita, das dietas e da falta de pertencimento. Me lembro da filha do Tom Cruise e suas exibições de vestimentas, glorificadas por seus pais enquanto a garotinha tem apenas 4 aninhos, vejo os concursos de pequenas misses, com menininhas de 03 aninhos sendo depiladas, bronzeadas artificialmente e tratadas feito bonequinhas nos EUA, me recordo das propagandas de sapatinhos de salto, de meninas-crianças sendo tratadas como mini-adultas, com mini-saias, esmaltes e maquiagem, me lembro da erotização infantil, e porque não da pedofilia, que cerca esse universo perversamente!

E penso, com mais tristeza, que essas meninas tomam para si uma cobrança gigantesca de corresponderem a imagens inatingíveis postas como “verdade” pela mídia, pela novela, pelas cantoras, modelos e revistas! E essas meninas acreditam que para ser feliz tem que pesar X, que para ser bonita tem que pesar Y, Que precisam exibir ossos. E idolatram a doença. Idolatram a doença! (repita isso e veja o quanto é dolorido pensar nesse universo!) Desejam a doença. Onde começa e onde termina esse ciclo vicioso? Como, nós mães e pais, professoras, psicólogas, tias, avós podemos intervir? Qual é nosso papel?

Do lado de cá, posso dizer como mãe que não incentivo, não estimulo e NEGO essa forma deturpada de posicionar meninas-crianças, meninas-adolescentes e meninas-jovens no mundo. Como profissional vejo um caminho de possibilidades: encontrar o equilíbrio, acolher a dor dessas meninas, revelar a si mesmas a “boniteza” de ser quem é, de abraçar a imagem real. Um longo caminho para dentro de si mesmas que é sim possível e que pode ter um desfecho diferente.

Todo mundo quer se sentir bem consigo mesmo, ser bonito, ter saúde e um corpo bacana. Mas é preciso rever a lógica em que um número dita a felicidade: seja de manequim, da balança ou o que quer que seja. Ser e estar saudável, feliz consigo mesma envolve muitos aspectos, muitas nuances e cada pessoa precisa ser olhada em sua singularidade, acima de tudo com amorosidade, com ternura e com assertividade.

Precisamos rever com urgência essa realidade maldosa, perversa que cerca meninas pelo mundo. Me parece algo universal, algo que nos pede atenção e cuidado!

E você? O que pensa disso? Como pode mudar isso a partir de sua realidade?

 

Texto originalmente publicado em fevereiro/2012

 

Pérola Boudakian, mãe de dois, psicóloga | terapeuta clínica, abraçou a maternidade , a profissão e suas tonalidades, acredita na transformação e na potência que cada um trás dentro de si de ser feliz em suas escolhas e caminhos.