Não me deixe para trás

Não me deixe para trás

Por: Raphaela Rezende

Eu sempre falo sobre empatia. Acredito que esse é o sentimento básico ao lidar com o outro, principalmente se o outro for uma criança. Digo que é básico pois você pode não amar a criança, pode ser uma desconhecida, mas ainda assim você consegue sentir empatia.

Existem atitudes que são feitas sem nenhuma reflexão, sem analisar o que elas podem acarretar. É claro que ninguém consegue viver de forma plena analisando cada ação e pensamento, por isso eu gosto de ler as experiências de outros e também gosto de escrever, para assim compartilhar as reflexões que fiz e, quem sabe, ajudar alguém a refletir comigo.

Uma situação corriqueira é ver famílias andando com seus filhos e quando um deles “empaca”, os pais saem andando e logo a criança sai correndo para alcançá-los.

É uma ação eficiente, eu devo reconhecer. É rápido, a criança levanta e vai.

Agora imagine que você está passeando acompanhada por alguém e quer parar para ver algo interessante. A pessoa que te acompanha não espera e segue andando. Ou imagine que você nem sabe para onde vai, mas quando reclama sobre ser levada, a pessoa vira as costas e segue. Ou que você queira fazer algo totalmente diferente, ou tenha fome, ou sono, ou cansaço, ou qualquer outra coisa, mas quando você reclama, dão as costas para você.

Peço que você se imagine nessa situação e tente pensar sobre o que sentiria.

Talvez eu sentisse raiva. Eu me sentiria desrespeitada. Mas o principal sentimento seria a insegurança.

Você pode dizer que não há insegurança, que era “frescura”, pois a criança saiu correndo feliz e contente.

Mas veja bem: se o que a criança quer é representado pelo “empacamento”, qual é o motivo para que ela saia correndo e desista da demonstração que estava fazendo?

Eu acredito que a criança saia correndo por acreditar que será deixada ali. Afinal, se acreditasse que não seria deixada ela poderia ficar sentada esperando os pais voltarem, correto?

Se a criança acredita que será deixada ali, quer dizer que sentiu-se insegura a ponto de duvidar da capacidade dos pais a protegerem.

Se a criança se sentiu insegura e duvidou da capacidade dos pais a protegerem, quer dizer que se sentiu abandonada. Acredito que é duro ler isso, mas peço que você mantenha o coração aberto. Esse texto não acusa ou julga quem pratica essas ações, mas visa sugerir uma reflexão que talvez mude a ação.

Você acredita que educar usando abandono e insegurança podem ser boas formas de lidar com uma criança?

Eu repito: funciona rápido.

Mas o que você ensina a longo prazo? Ensina que você não é confiável.

Que o sentimento da criança não é importante o suficiente para que você dê atenção.

Que se a criança age de forma não desejada pelos pais, pode ser deixada para trás.

Que sentir e expressar pode não ser algo bom, mas sim algo que abale a relação com os pais, causando abandono, mesmo que por poucos segundos.

Será que a criança terá coragem de continuar sentada para testar até onde os pais irão sem ela? É saudável uma criança precisar testar o que os pais sentem por ela? E caso a criança espere sentada, os pais voltarão e darão atenção? Se a única forma de fazer a criança cooperar é mostrar o quanto nós adultos somos fortes e maiores (acredite, as crianças sabem), como esperar que cooperem quando eles também crescerem e se tornarem mais fortes?

Agindo dessa forma (eu sei que a sua intenção não é abandonar a criança), uma oportunidade de dialogar sobre o que a criança está sentindo será perdida. Podem existir inúmeros motivos para uma criança “empacar” no caminho. E todos eles são válidos, se não forem para você, o são para ela mesma. Uma família sempre anda junta. Apoiando uns aos outros e esperando por quem precisa.

 

Raphaela Rezende é cientista social, mãe da Alice, casada com um professor universitário nerd, flautista, pintora, bonsaísta, costureira sem máquina de costura e a cada semana inventa ser mais alguma coisa. É dona do blog Ciranda Materna e da página Maternar Consciente.