Na fogueira dos sutiãs, ficaram muitos corações

Na fogueira dos sutiãs, ficaram muitos corações

Por Lia

No início da minha adolescência, planejava ser advogada. Era inteligente, uma das melhores alunas da escola, e tinha a personalidade ideal para uma profissão que consiste basicamente em brigar (me corrijam se não é isso que significa litígio). Seria um excelente destino para todo o meu potencial: uma carreira de sucesso, independência, reconhecimento. Ah, como é bom ser reconhecida e aprovada!

Aos 16 anos, prestei vestibular pra Direito na universidade pública da minha cidade e fui aprovada, mas como ainda não havia concluído o ensino médio, deixei o projeto para o ano seguinte.

No ano seguinte, tudo mudou. Eu, que tinha planejado minha vida com detalhes – entraria na universidade aos 18 anos, me formaria aos 22, me casaria aos 24 e teria meu primeiro filho aos 26 –, resolvi que faria Comunicação Social, e não Direito. E também que sairia da casa dos meus pais para estudar em outra cidade.

O projeto ficou menos tradicional, já que Direito é uma carreira bem mais prestigiada que jornalismo. Mas o espírito permanecia o mesmo: a busca de autonomia.

Logo que comecei o curso, fui tratando de encontrar alguma atividade remunerada. Fui monitora e depois professora de idiomas e participei de projetos de iniciação científica com bolsa na faculdade. Era sempre pouco dinheiro, mas o suficiente para que eu sentisse que estava construindo meu próprio caminho.

Assim que me graduei, já desiludida com o jornalismo e sem ânimo para buscar emprego no mercado, decidi prestar concursos públicos. Nunca foi um sonho meu ser servidora pública; pelo contrário, sempre fui muito reticente quanto a essa carreira. Mas para mim, concluída a faculdade, era a hora de eu buscar meu próprio sustento e desincumbir meus pais dessa função. E, assim, voltei a Brasília para assumir um cargo público muito mal pago, mas que era meu primeiro emprego real.

A verdade é que, desde o início, nunca fui feliz no serviço público. Eu trabalhava porque me sentia na obrigação de trabalhar. Era minha responsabilidade, e não mais a dos meus pais. De onde surgiu esse senso de obrigação eu não sei, mas era assim.

Mesmo presa a uma profissão – não tanto por questão de sobrevivência, mas de moral –, continuei revendo minha vocação. E decidi que queria ser tradutora.

Alguém poderia dizer aqui: “essa pessoa está perdida; não sabe o que quer”. Mas quantas pessoas sabem, aos 17 anos, o que querem fazer de sua vida? Eu não sabia. Apenas com a maturidade, pude descobrir onde meus talentos se encaixavam melhor, e onde eu me sentiria realizada.

Assim, entrei novamente na universidade para cursar Letras – Tradução, me desdobrando entre uma jornada de 40h/s no trabalho e aqueles horários completamente aleatórios oferecidos por uma instituição pública. Enquanto isso, casei com um homem fantástico, que sempre me apoiou nos meus projetos e acreditou em mim. E que, acima de tudo, queria que eu fosse feliz.

Nesse turbilhão, surgiu o desejo da maternidade. Eu havia mudado de emprego e estava quase concluindo minha segunda graduação, quando uma pré-depressão se instalou. O grande vilão era ele, o trabalho. Uma insatisfação profunda, a impossibilidade de exercer meus dons no meu ambiente profissional, um sentimento de inadequação. Já naquela época eu tinha momentos em que me perguntava: “O que estou fazendo aqui?”. Mas era um bom emprego, cobiçado por muitos, e eu não tinha o direito de abandoná-lo. Ou pelo menos eu assim achava.

Até que veio minha primeira gravidez. Como mágica, toda a tristeza se esvaiu. O trabalho não era mais o centro da minha vida. Era uma pena com os dias contados para acabar. Eu sairia para uma longa licença maternidade e tudo ficaria bem. Mas eu não contava com o fato de que minha licença não duraria para sempre.

Meu puerpério foi o paraíso. Encontrei-me completamente, entendi por que Deus me havia colocado no mundo. Tinha a impressão que, com o nascimento da minha filha, Deus havia aberto uma portinha no céu para que eu desfrutasse, por um breve momento, da perfeição. Eu e minha filha, fundidas numa só, flutuávamos acima da realidade. Nada mais existia. Tudo era bom.

O tempo foi passando e o parto foi ficando distante. Ao mesmo tempo, descendo de volta em direção à Terra, comecei a avistar o que me esperava. Retornaria ao trabalho em tempo integral, ficaria de sol a sol fazendo algo no qual eu não encontrava qualquer prazer e – o pior – no qual eu via pouco sentido. Enquanto isso, meu bebê que mal se alimentava de outras coisas que não fossem o meu seio, passaria 9h por dia em uma instituição, longe da mãe e do pai.

Quando Emília tinha seis meses e eu pelejava para que ela começasse a comer antes que eu retornasse ao trabalho, tive herpes. O vírus veio fulminante, deixando cicatrizes na minha testa que são visíveis até hoje. A vida seguiu. Ela se adaptou bem à creche, retornei à minha jornada.

Não muito tempo depois, tive meu primeiro torcicolo desde a gestação (tenho duas hérnias na cervical, mas os sintomas ficaram controlados durante toda a minha licença). No mês seguinte, adoeci e fui parar no pronto socorro, onde ganhei uma benzetacil que praticamente secou meu leite por dois dias. Pouco depois foi a vez de Emília cair enferma, de uma otite que a deixou dez dias sem comer praticamente nada. Tudo isso num período de 4 meses.

A otite foi a gota d’água. Há tempos eu conversava com o meu marido sobre a possibilidade de eu me afastar do meu trabalho para fazer um mestrado em tradução e investir numa carreira onde eu tivesse mais flexibilidade e uma jornada reduzida e que, além de tudo, me desse prazer. Com minha filha ardendo em febre nos meus braços, senti uma das dores mais profundas que jamais havia sentido, e disse: “basta”. Meu marido me acolheu e fizemos os planos. Eu pararia de trabalhar, era urgente.

Existia um problema, óbvio: o dinheiro. Mas teria de dar. O salário dele tinha de ser suficiente, pelo menos até as crianças crescerem um pouco e eu começar a ganhar alguma coisa na minha nova profissão. Eu não queria ser obrigada a trabalhar para sustentar a minha casa. Queria ter a liberdade para estar presente para os meus filhos enquanto fosse necessário.

Estive por um fio de pedir uma licença não-remunerada, quando engravidei novamente. E, outra vez, tudo o que era ruim desapareceu. Não conseguia mais ver os problemas, era como se todo o mal fosse se dissolver com o nascimento de mais esse pequeno. Agora não era estratégico eu me afastar. Em poucos meses, eu teria uma nova licença maternidade.

Mas isso não mudou nossa decisão. A escolha estava feita, e era irremediável. Sairei, mas não posso mais retornar. Porque já errei uma vez, quando deixei Emília. Não posso errar de novo.

Falei agora há pouco de liberdade. Era isso que as mulheres buscavam quando encabeçaram o movimento feminista. Queriam autonomia em relação aos homens, daí brigar pelo direito ao trabalho. Mas eis que essa liberdade foi tomada novamente pelos homens – porque o sistema capitalista é masculino por natureza, mesmo que repleto de mulheres – e o direito se transformou em obrigação. A mulher não pode trabalhar; ela tem que trabalhar. O cuidado com o lar e com os filhos ficou desvalorizado; afinal, não é necessário curso superior para isso. Como se cuidar das crianças não fosse a atividade mais importante do mundo.

Muitas mães estão felizes com suas carreiras, e conseguem ser excelentes mães. Mas muitas, muitas não estão. Por mais que incendiemos sutiãs, é ilusório, e eu diria até que é um desrespeito à própria natureza feminina, achar que homens e mulheres são iguais. Não somos. Homens não gestam, não parem, não amamentam (apesar de terem inventado toda sorte de recursos tecnológicos para parir as mulheres e nutrir suas crias artificialmente). Homens não vão à partolândia, não se perdem na loucura do puerpério, não têm a capacidade inata de se alienarem completamente da realidade para atender um recém-nascido.

Homens são maravilhosos. Dou graças a Deus por ter o marido que eu tenho, e por poder dar a meus filhos um pai como ele. Homens permitem que as mulheres não sufoquem seus filhos, que os deixem ir. Homens são lúdicos. Mas homens são homens, e mulheres são mulheres.

E então? O que fazer com todo aquele bom desempenho escolar que sempre tive, com minhas aptidões alheias à maternidade? Sim, procurarei exercer meus dons, todos eles. Mas sempre em algo que EU encontre sentido. Não posso manter uma carreira estável e bem paga só porque todo mundo diz que esse é o melhor caminho, se meu coração, meu corpo e o corpo da minha filha berram dizendo que não é por aí.

Toda aquela descrição que fiz do meu puerpério é verdadeira, e não vou mais aceitar que me digam que isso é uma ilusão. Como se tudo que fosse poético fosse ilusório. E se só o que for poesia for real? Para mim, ilusão é achar que existe qualquer coisa neste mundo – dinheiro, estabilidade, um bom plano de saúde, uma previdência privada – que garantam a nossa segurança. Nesse mundo, só as pessoas importam. É tudo o que levaremos daqui.

Vou trabalhar, sim, na hora certa, e na medida certa. Mas não vou abrir mão do direito que tenho de ser mãe e mulher na minha plenitude. Por mim. Pelos meus filhos. Pelo meu marido. E por todas as mães e crianças deste mundo.

Lia, 29, casada, cearense, ex-jornalista e futura tradutora, mãe da pequena Emília e com o segundinho na barriga. Lia é autora do blog Um, dois, três, saco de farinha!