muito prazer: eu sou a mãe que se esconde atrás do arbusto da escola

muito prazer: eu sou a mãe que se esconde atrás do arbusto da escola

Por: Roberta Ferec. Post original publicado aqui.

Todo meu respeito a quem decide não mandar a cria pra escola antes dos 3 anos.

Não só entendo como apóio, colegas. Alguém aqui ainda tem dúvidas de que cada mãe sabe o que é melhor pra si e para os seus?

Meu filho foi pra escola antes da idade recomendada pelos pediatras e, nem mesmo em meio às piores crises de perebeiras escolares, eu cogitei fazê-lo diferente.

Cada criança tem um perfil, o meu tem perfil escoleiro, uai. Nasceu assim o rapaz.

E acho que eu sei bem a quem ele puxou. Tenho adoração pelo ambiente escolar, e, não raro, sou meio que expulsa de lá. Sabe o tipo de mãe que não sabe a hora de dar tchau pra moça pedagoga? A que se esconde atrás de um arbusto, só pra continuar vendo o filho sem que ele a veja?

Esta mãe sou eu, muito prazer.

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Quando eu era pequena eu queria ser assistente de açougueiro. No açougue perto de casa tinha o açougueiro e tinha o assistente dele, o Antônio (vamos chamá-lo assim).

Na minha cabeça, Antônio tinha a profissão mais legal do mundo e eu invejava cada minuto em que ele tinha a chance de colocar as mãos naquela carne geladinha, depois embrulhá-la num plástico fininnho, para logo depois embrulhá-la novamente num daqueles papéis vermelho-pardo.

Eu era da altura do balcão mas ficava na ponta dos pés e espichava os olhos curiosos de modo que conseguia enxergar aquele, que era pra mim, o momento mais legal da profissão: Antônio sacava a bic de trás da orelha, jogava a bichinha pra cima, a caneta rodopiava e caia na mão dele, já na posição correta pra escrever. Daí era só escrever cento-e-vinte-cruzeiros no tal papel pardo e entregar a carne ao freguês.

– Não, mãe, eu nunca vou mudar de idéia: quando eu crescer vou ser assistente de açougueiro e pronto.

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Passado algum tempo, o encanto terminou e eu decidi que queria ser freira. Daí me disseram que como freira eu não poderia casar, e o meu desejo de ser freira quadruplicou. Perfeito, pensei.

Até que alguém do meu colégio (de freira) me contou que as freiras viviam a vida inteira no mesmo lugar. Nunca mudavam. E que, depois de mortas, eram enterradas bem ali, no cemitério atrás da escola. Que diga-se de passagem era bem mal assombrado.

Eu adorava a minha escola, mas a idéia de passar a vida inteira (e até a morte inteira!) ali, no mesmo lugar, me desanimou um pouco. Então eu pedi perdão a Jesus Cristo e mudei de idéia.

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Um dia eu descobri que a cobradora do banheiro do parque de diverões tinha sua própria carteira (escolar, aquelas de madeira) modelo abre-fecha. A carteira abre-fecha era a carteira dos meus sonhos e que ironicamente nunca foi minha. A carteira escolar abre-fecha tinha um tampo que abria, para que o aluno pudesse ali guardar seus livros de escola.

Pois não é que a cobradora do banheiro do parque de diversões guardava o dinheiro que recebia dentro de uma carteira escolar abre-fecha como aquela? Lembro como se fosse hoje: fiquei do ladinho dela e até ajudei a cobrar os “clientes”. Tem que ficar de olho, dizia ela, tem gente que quer mijar mas não quer pagar. Eu fiz que sim com a cabeça. Mas no fundo eu sabia que não ia gostar de trabalhar num lugar que só deixava a pessoa fazer xixi se ela tivesse dinheiro.

Eu mesma, no auge dos meus 6 anos de idade, já tinha feito muito xixi na vida sem um puto no bolso. Acho que isso de cobrar de gente apertada não é pra mim, pensei. E fui embora, sem olhar pra trás.

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Dali pra frente já quis trabalhar na ONU, já quis ser bombeira e mulher de negócios (abre parêntese pra dizer que eu assinava meus cheques de mentirinha com o nome Suelen Heiwort, nome este, que, na época, me remetia a uma importante mulher de negócios).

E no final das contas acabei não sendo nada daquilo, mas sendo sempre um pouco de tudo o que eu queria ser: pura sorte e cara de pau, minha mãe já dizia.

***

Assistente de açougueiro, freira, cobradora de xixi – tudo isso perdeu seu encanto. O que eu queria agora era trabalhar bem próxima ao meu filho. Próxima, tipo próxima de verdade. Tipo DENTRO da escola dele.

Entendam, eu sou uma adoradora profissional de escolas. Não, não me refiro ao mundo acadêmico e suas universidades inspiradoras de gente.

Me refiro à escola que seu filho frequenta, a escola que tem cheiro de suco misturado com suor. Depois que Noah passou a frequentar a escola, então, aquele lugar virou um templo pra mim. E já que agora moramos pertinho del templo, vez em quando me dou ao luxo de passar por ela. E lá está ele: o cheiro de suco com suor, uma coisa meio canja de galinha sabor framboesa, compreendem?

Toda mãe sensata sofre um pouco na adaptação escolar. Eu até finjo que sofri, mas ao contrário: tinha até uma invejinha do meu filho (alô, seu terapeuta!) que ia ficar ali brincando com o tal do lúdico, com seus lenços coloridos e plantações de batata e peixes no aquário e tals. Enquanto eu tinha que voltar pro mundo adulto, onde te cobram pra mijar e onde Suelen Heiwort não é bem uma moça de negócios.

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Ai, enfim. Daí que mãe assim é uma praga pra escola em si, concorda? Que a pessoa vai pra deixar o filho e ir embora, essa é a idéia. Pois eu sempre fico um pouco mais. Noah nem me vê, mas eu estou ali: troco idéia com o porteiro, vou até a cozinha dar hello as cozinheiras, experimento o plat du jour, entro na fila do bebedouro e, por fim, me escondo atrás de algum arbusto, só pra dar aquela derradeira miradinha na criança.

E mãe desse tipo desenvolve uma inveja nociva para com aquela pobre moça, a nutricionista da escola, que não só se dá ao luxo de dar uma espiada na filhota dela o tempo todo, como trabalha DENTRO da escola. Nem de arbusto ela precisa, a magricela.

E eu pergunto: isso é um mundo justo, dona nutricionista?

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Enquanto não me permitem passar mais horas dentro da escola, seja como consultora de moda ou astróloga infantil (idéia! idéia!), o negócio é ir quando dá. Meu conselho para quem quer participar mais do dia-a-dia na escola do filhote é:

– Vá as reuniões pedagógica, todas.

– Durante a reunião pedagógica seja CDF, sente na primeira fileira, faça perguntas, levante a mão, sirva café.

– Se ofereça como voluntária: trabalhos voluntários na escola implicam que você passe mais tempo dentro da – adivinha – escola! Quando a diretora perguntar “quem de vocês gostaria de ser voluntária…” já levante o braço bem alto e repita sem parar EU, EU, EU, EU, EU.

– Não perca a oportunidade de esquecer o celular na escola: esqueça sempre, volte pra buscar, esqueça, volte, esqueça…

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E se ainda assim você sentir que está longe, muito longe desse mundo delicioso de suco e suor, então convença a diretora a deixá-la trazer seu lap top e trabalhar no pátio da escola. Não será fácil, mas argumentos não faltam:

– Diretora, eu entendo que seja uma escola que segue a idéia construtivista, mas ainda assim é imprescindível ,nos dias de hoje, que as crianças assistam de perto como funciona o capitalismo desenfreado. Eu vou sentar aqui, pode fazer de conta que eu não existo. Beijão!

– Diretora, eu estive conversando com um hindu sábio pacas e ele me disse que eu teria que passar grande parte do dia aqui, nesta casa. Alguma coisa a ver com energias pendentes de vidas passadas, entende? Mas não quero incomodar, pode deixar que eu sei o caminho do cafezinho. Beijo, gata!

Se ela for mãe ela vai entender.

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Nota da autora: Mais de um ano se passou desde que escrevi esse post. De lá pra cá, só faço aperfeiçoar minhas técnicas de esquecimento celulástico e esconderice arbustral. Cada dia mais doida participativa.