Minha mãe que disse

Minha mãe que disse

Por: Renato Kaufmann

Como os temas livres são assustadores, a gente acaba tentando se agarrar em algo como um afogado agarra uma boia. E tendo recebido esse convite, com um tema livre amarrado a meus pés como um sapato de cimento, me segurei ali, no nome do blog: minha mãe que disse.

Minha mãe disse que quando a gente vira pai, a gente aprende a ser filho. Ela disse, mais de uma vez que se eu não parasse de responder meus dentes iam parar na nuca. Ela disse que estava só esperando eu ter filhos pra se vingar de toda a preocupação que eu causei, e olha, não foi pouca. Torço pela não existência de leis cármicas.

Minha mãe disse “caiu, levanta”. Dá um desamparo louco quando tudo que a gente quer é um colo, mas é uma das lições mais importantes na vida. Quando eu tive o acidente de moto que quase acabou com a minha perna, não dava pra levantar, mas eu consegui fazer uma piada ou outra, na ambulância, no hospital, e minha mãe disse “se você me fizer passar por isso de novo eu mesmo te mato, seu desgraçado.” E eu fiquei pensando, fazer ela passar por isso? E eu? Fui eu que ganhei 14 pinos e que não eram nada de adamantium. Mas eu não tinha a Lucia ainda, então não tinha ideia.

Minha mãe nunca disse que vencer uma discussão não significa que você está certo, nem que vai conseguir o que queria só porque argumentou bem, mas acho que ela tentou ensinar isso na prática me dizendo pra não dar mais um pio sequer senão eu ia ver só. Ela nunca disse também que as pessoas detestam quem está com a razão, e isso é uma triste verdade. As pessoas que estão com a razão acabam sendo as mais intransigentes.

Ela disse mais de uma vez “vai doer mais em mim do que em você”, o que eu sempre achei uma afronta, óbvio que ia doer mais em mim! E, também aí, ao ter filhos a gente entende as coisas de outro modo. Mesmo hoje ainda não sei se acredito 100% nisso, “mais do que em mim” eu duvido, mas posso concordar com um empate.

Renato Kaufmann é escritor, pai da Lucia e fica menos despreparado a cada dia. Deve estar pronto em mais uns vinte ou trinta anos. É autor dos livros “Diário de um grávido” e “Como nascem os pais”, da Mescla Editorial, ambos inspirados no blog www.diariogravido.com.br