Meu filho será pai um dia

Meu filho será pai um dia

Por: Renata Rivas

Ainda refletindo sobre a importância paterna no cotidiano das crianças na semana do Dia dos Pais, dei-me conta que meu filho será pai um dia. E como eu e todas as mães de meninos sabem, em uma sociedade machista como a nossa, é difícil mesmo educar nossos filhos. Será que, como mães, estamos preparando os meninos para receberem suas futuras mulheres e serem formadores de outras crianças? Porque para as filhas meninas isso fica bem claro praticamente nas primeiras bonecas recebidas. Para os meninos, é sempre ensinar a falar palavrão, não chorar nunca, gritar como “macho”. Aliás, quer xingamento mais usado pra criticar os meninos do que dizer que eles fazem algo como “uma menininha”?

Se um menino resolve brincar de “casinha”, uma chuva de comentários recaem sobre ele questionando isso ou aquilo. Quanta besteira! Como podem nossos filhos desenvolver a paternidade se nunca brincaram e deram asas para o dia que eles fosses “papais”?  O contrário, enfatizo, acontece muito cedo para as meninas. A maioria das brincadeiras de meninos são envolvendo lutas, guerras e jogos. Onde ficam as brincadeiras prevendo o “futuro”?  Desde cedo a mensagem é clara: o futuro do homem é o conflito, as mulheres que se virem pra conciliar casa e família.

Quando bebês, o azul é a cor do menino e o rosa a da menina. Depois, a sociedade dita bonecas para meninas, carrinhos para meninos. Na adolescência, impera o ditado: “prendam suas cabritas que meu bode está solto” (e me doe o coração cada vez que eu ouço isso, sério!). Ensina-se que existe mulher pra casar e mulher pra ficar, e as do segundo grupo não devem ser respeitadas…O que estamos ensinando para nossos filhos??

Um dia, quando estávamos no aeroporto de Brasília, meu enteado mais novo (na época com 4 anos), na brinquedoteca local com um mix de brinquedos tanto para meninas quanto para meninos, foi cozinhar. Depois pegou um bebê e fez dormir. Parei e pensei, “que legal, ele está brincando de ser pai, assim como o pai dele faz”. E pensei: “na nossa casa ele não teria essa oportunidade, afinal não temos esse tipo de brinquedo”. Ele também relata o quanto gosta de brincar com as amigas de casinha e quando pergunto o que ele faz nas brincadeiras, ele responde: “sou o pai, oras”. Oras, Renata, que pergunta idiota, né?

Acho que esse tipo de brincadeira aumenta muito as chances dele ser um pai presente na vida da família que ele irá construir um dia. E todas nós sabemos que ainda vivemos em uma cultura onde o pai não recebe incentivo nenhum para participar da educação dos filhos. No máximo, quando ele é um “supermarido”, fala-se que ele AJUDA com os filhos em casa. Oras, ele não deveria DIVIDIR e não apenas ajudar? Por que as mulheres ainda batem no peito pra dizer: eu cuido do trabalho, da casa, dos filhos e do marido que gosta de janta quentinha? Isso não nos faz super mulheres, isso nos faz mulheres cansadas, eternamente culpadas e com parceiros acomodados.

E por que ainda não incentivamos as crianças a serem livres para brincar com o que quiserem? Será que as meninas também não tem vontade de brincar de carrinhos? Eu, por exemplo, adorava jogar futebol e ver corrida de fórmula 1 com meu pai. Ok, não tenho irmãos, talvez por isso meu pai quisesse a minha presença em algo considerado “para meninos”. Quanto ao meu filho, ele ganhou um boneco e adorou. E sabe o que eu pensei? “Que bom, ele está treinando para ser um bom pai um dia”. Sabe o que os outros pensaram? Nem eu, e nem quero saber.

Encontrei um artigo da revista Crescer bem interessante. A frase que mais me tocou foi a seguinte:

“Se há 30 anos o número de mulheres que trabalhavam era menor, agora é crescente a presença delas no mercado de trabalho. Esse aumento fez com que a distribuição de papéis dentro de casa se modificasse. Em algumas famílias, o papel de cuidador da mulher está invertido, há cada vez mais casos em que a mãe trabalha e o pai fica com os filhos. Essas mudanças chegaram às brincadeiras também. Quando a criança troca de papel, treina como lidar com relações diferentes e emoções, tanto dela mesma como das outras pessoas. É um treino de tolerância e de lidar com a diversidade.”

Portanto, quando nossos meninos quiserem brincar de casinha com as amigas, acho bem salutar pensarmos que são nessas brincadeiras que construiremos os pais de amanhã, mais participativos e engajados na criação das crianças. Se o seu tio machista achar um absurdo e dizer que você está incentivando mariquices, você tem duas opções:

a) Cara de alface nele;

b) Estou incentivando meu filho a ser livre.

 

Renata Rivas, Doula e educadora perinatal, autora do blog: Beta Positivo