Meu filho não come! E agora?!

Meu filho não come! E agora?!

Por: Talita Guedes Bittioli

A alimentação infantil é, por vezes, muito difícil. Quando uma criança não come adequadamente, o processo para mudar seus hábitos alimentares e tornar as refeições mais saudáveis, tranqüilas e divertidas, leva tempo e exige muita paciência, amor e compreensão por parte dos pais!

Mas, antes disso, precisamos pensar o que há por trás desse ‘não comer’. A criança não tem apetite? Está com algum problema de saúde? Houve algum acontecimento que propiciou a não vontade de comer?

Alimentar-se, seja para adultos ou crianças, é, antes de tudo, vida! Biologicamente falando, necessitamos de ao menos três refeições diárias para nossa sobrevivência. Mais que sentir prazer em comer, comer para satisfazer vontades e desejos, o alimento nos proporciona vida, saúde, crescimento e sustento.

E, pensando nisso, na vida que o alimento proporciona através de seus nutrientes, podemos ir mais além. O sabor! O alimento proporciona a vida e dá sabor à ela! Através do paladar, temos a possibilidade de escolher o sabor que queremos sentir. E qual será o motivo de uma criança não querer saborear a vida? É tão intenso isso… Há alguma incoerência aí… E, é muito importante para a vida desse pequenino ser que o motivo seja percebido, compreendido e cuidado.

São muitos os casos, e, cada criança tem uma particularidade em especial. Algumas crianças deixam de comer porque sofreram alguma inflamação na garganta, o que gerou dificuldade em se alimentar e depois, quando sarou, ficou com medo; o paladar da criança pode já estar bastante definido e ela, de fato, não gostar do sabor do alimento; a criança pode estar percebendo algo diferente no ambiente familiar e chamar a atenção para si através do não comer; pode ter acontecido algum episódio que a marcou, em relação a determinado alimento; estímulos publicitários podem definir vontades não saudáveis, ou, intrigantes; a criança pode estar passando por um momento de tristeza, ansiedade, estresse, mudança, e, a relação com a comida é alterada. Enfim, inúmeras são as possibilidades.

O mais importante no processo todo é que os pais ou cuidadores sejam presentes, atenciosos, engajados e muito pacientes. O trabalho em conjunto com profissionais, como Psicólogos, Nutricionistas, Pediatras e Educadores Físicos pode tornar a mudança mais suave, além de ser possível contar com toda assistência que essa equipe pode oferecer. Mas, pais, compreendam: vocês são os atores principais, os agentes de mudança, os maiores exemplos na vida dos pequenos.

Algumas orientações básicas podem ser úteis nesse momento delicado:

– É preciso que os pais tenham paciência e sejam firmes. Claro, de vez em quando flexibilidade é necessário, mas, é preciso ser firme nas decisões e deixar claro para os pequenos que são vocês, os pais, que definem as regras e os limites. Inclusive na alimentação.

– Em geral, quando uma criança é filho único, pode ser criado o hábito de chamar mais atenção dos pais, de diversas formas. Uma delas pode ser a alimentação.

– Sempre estabeleçam horários para as refeições e para os lanches, com intervalos de duas a três horas (seguir orientação de Nutricionista).

– Nunca troque refeições principais (café da manhã, almoço e jantar) por outro alimento. Se a criança não quiser comer, espere meia hora ou uma hora e ofereça novamente a mesma comida. Se ainda assim ela recusar, espere mais tempo até que ela dê sinais de estar com fome.

– Toda criança troca facilmente a refeição por suco. Então, limitem bebidas durante a refeição. Ofereça um pouco antes e um pouco depois, mas não durante, para que o apetite seja mantido. Dêem preferência aos sucos naturais. Assim, a criança já terá os nutrientes das frutas. Evite ao máximo qualquer tipo e sabor de refrigerante!

– Lembrem-se sempre que é um processo longo e poderá ser cansativo, mas, não desistam. Evitem ao máximo as artimanhas do tipo: “se comer tudo, ganha um brinquedo”, “se não comer, fica de castigo”. Isso pode fazer com que a criança supervalorize o prêmio e odeie a comida, que a castiga. E isso pode ser torturante.

– Sejam firmes com o pequeno, mas não extremamente rígidos, para não deixá-lo angustiado e ansioso. Um chocolate fora de hora, de vez em quando, até que faz bem, é divertido e gostoso.

– Criança pequena tem estômago pequeno, por isso nem adianta encher muito o prato. Se não, só de olhar, ela já vai ficar saciada. Coloque pouca comida e, se ela quiser repetir, coloque menos ainda. Experimentem deixar ela fazer o prato. Pode ser divertido e estimular que a criança coma!

– Não demonstrem irritação ou ansiedade no momento da recusa. A criança precisa se sentir confortável no momento da refeição.

– Estabeleçam o tempo de duração e os horários das refeições, evitando a oferta de alimentos a todo o momento.

– Durante a refeição, o ambiente deve ser agradável, na ausência de ruídos, televisão ligada, o que distrai a atenção. A refeição deve ser um momento lúdico, divertido, alegre e confortável. Mas, o foco é a refeição! Não usem de distrações. A criança deve entender que aquele é o momento de comer. O ambiente da refeição deve ser tranqüilo, sem TV, música e muito menos gritaria. Deixe as conversas sérias e broncas para depois.

– Todas as refeições (lanches inclusive) devem ser feitas à mesa, preferencialmente. Procurem fazer o máximo possível de refeições juntos, em família, e, o que é muito importante: vocês são os maiores exemplos dos filhos! Não adianta esperarem que eles comam aquilo que vocês mesmos não comerem! Crianças a partir de 2/3 anos podem fazer refeições iguais as dos pais. Se os pais jantarem uma macarronada, por exemplo, o prato dos pequenos não poderá ser brócolis com cenouras!

– Incluam nas refeições comidas que a criança possa pegar com as mãos: cenoura baby, tomate-cereja, espiga de milho, hortaliças cortadas em palito. A experiência é diferente e pode dar certo. Cada dia será uma nova tentativa!

– Coloquem os alimentos que compõem a refeição separadamente no prato ou em cumbucas individuais. Eles devem ter cores e texturas diferentes. Deixe a criança se servir sozinha e provar cada uma das diferentes porções. Se assim ela desejar! Não forcem, mas a convençam de que aquilo será bom!

– Não cozinhem demais os legumes. Quando estão crocantes, além de serem mais interessantes visualmente, porque mantêm a forma e as cores ficam mais vivas, eles são também muito mais saborosos e nutritivos.

– Usem da criatividade na hora das refeições e estimulem os pequenos nesse momento: façam desenhos em cima do purê de batata. Coisas simples, como formas geométricas (já é uma forma dela aprender), números, casinhas. Usem para isso ervilhas, cenouras ou beterraba em cubinhos, por exemplo. Outra idéia é espetar flores de brócolis japonês cozidas al dente sobre o purê. Fica mais gostoso quando a própria criança quem faz a decoração de seu prato.

– Comer é gostoso, mas, para algumas crianças, pode ser entediante. Variem diariamente o preparo de cada alimento: um dia sirva cru, outro em forma de bolinhos, ou refogado, cortado em rodelas, ralado etc. Dá mais trabalho, mas, é só um momento…

– Lembrem-se: brincar com a apresentação do prato não significa esconder algum tipo de alimento. Cenoura é cenoura, milho é milho, alface é alface (e não ‘verdinho’!), tomate é tomate, mesmo que eles sejam, por exemplo, apresentados em forma de flor.

– Comer é um processo instintivo. Estudos dizem que o organismo regula a quantidade de energia que precisa por dia, então, se a criança não comer nada no almoço, por exemplo, ela acabará compensando nas outras refeições. Portanto, a todo o momento lembrem que é um processo, não há como saber se será rápido ou não, respirem fundo e esperem o pequeno sentir fome.

– Nenhum alimento é insubstituível. A criança não quer comer cenoura? Ofereçam abóbora, mamão ou outros vegetais amarelos e alaranjados, e as fontes de vitamina A estão garantidas.

– Não sirvam no jantar o mesmo cardápio do almoço. Se for reaproveitar os pratos, reinvente as combinações. Isso vale para o almoço na escola, se possível. Tentem variar o cardápio do almoço e contem com a ajuda dos professores e cuidadores nesse momento! Lembrem-se de agir da mesma forma todos os dias da semana, incluindo os sábados e domingos, as férias e viagens. Ao menos no começo, será preciso ter mais disciplina. Com o tempo, a rotina se torna mais viável.

– Não “ajudem” a criança terminar a refeição. Cada um come aquilo que está no seu próprio prato, a quantidade que achar necessária.

– Não obriguem a criança a comer. Mas, quando ela tiver fome, ofereçam somente aquilo que é saudável.

– Não façam ameaças de nenhum tipo, como dizer para o filho que, se ele não comer, ficará doente e terá de ir ao médico. Ao contrário, usem temas positivos, como por exemplo, dizer que pra ter uma “super visão” e nunca precisar de óculos, ele precisa comer cenouras. Pra ter bastante força e ser um ótimo esportista ou uma ótima bailarina, eles devem comer beterraba, e coisas do tipo.

– Quando a criança comer tudo, premiar também não é uma boa prática. É comum os pais sugerirem que a criança deve comer os legumes, por exemplo, para poder ter a sobremesa. Nenhuma parte da refeição é um prêmio, cada uma tem a sua função, porção e lugar. Expliquem isso para ela. Qual legume faz bem para o quê, qual verdura faz bem para o quê e etc. Contem com a ajuda de um Nutricionista para isso.

– Crianças pequenas estão na fase de estímulos primários. Elas são atraídas por cores, formas, novidades. Nessa fase, o correto é proporcionar novas experiências gastronômicas, apresentando os diferentes sabores dos alimentos. Sabemos que algumas crianças têm certa dificuldade em aceitar as novidades, mas, isso pode ser trabalhado em terapia, por exemplo. O importante é tentar sempre.

– Levem a criança o máximo possível para a cozinha. Quando as crianças preparam o próprio alimento, em geral, querem provar o que fizeram. É uma experiência lúdica, prazerosa, como deve ser a relação com a comida.

– Todo alimento que seu filho não gosta não deve ser forçado, mas, proposto diversas vezes e de formas diferentes. Proponham que ele prove um pedaço (tem de ser pequeno mesmo) e, se não gostar, não precisa comer. Dê um tempo e ofereçam pelo menos por mais cinco vezes, em ocasiões e formas de preparo diferentes.

– Ofereçam as comidas que as crianças gostam, preparadas de forma mais saudável. Por exemplo, a batata que todo pequeno é fã: troque a frita por aquela cortada em cubinhos, regada com um pouco de azeite e sal e assada no forno por cerca de 40 minutos. Pode ser aquela “smile” também. A Nutricionista pode dar mais dicas sobre isso.

– No lugar do doce com açúcar refinado, ofereça banana-passa, por exemplo. O açúcar da fruta pode saciar a vontade irresistível de comer um doce.

– A bisnaguinha, que é grande companheira da maioria das crianças, pode ser oferecida na forma integral (mais saudável). Já existe a venda em alguns supermercados, vale a pena pesquisar. Tentem, dia a dia, colocar um recheio. Um queijo, uma folhinha de alface, um pouquinho de cenoura ralada.

Essas são apenas algumas orientações.

A ludoterapia (terapia infantil) é um processo que pode auxiliar muito nesse momento de vida da criança. Caso os pais entendam que é necessário, não hesitem em procurar ajuda profissional. Como citado anteriormente, uma assistência integral e multidisciplinar pode fortalecer o processo.

Talita Guedes Bittioli, psicóloga graduada pela Universidade Metodista de São Paulo, com extensão na abordagem Fenomenológico-Existencial. Palestrante em Escolas sobre diversos temas relacionados ao contexto Infantil, para pais e alunos. Ainda não sou mãe, mas já é apaixonada pela maternidade e principalmente pela Família.