Manifesto da perda – ou por que o “logo vem outro” é irritante

Manifesto da perda – ou por que o “logo vem outro” é irritante

Por: Claudia Borges

Eu preciso falar, eu ainda estou abalada depois da perda de meu bebê com sete semanas de gestação, há 18 dias. Para os outros eu tento ser forte, sorrir, dizer que estou bem, recuperada, mas por dentro ainda estou despedaçada. Choro ainda, às vezes, escondida do meu marido, para ele não ficar triste também. Mas de vez em quando vai na frente dele mesmo, que já não sabe mais o que dizer, além de me abraçar.

Tenho tentando me distrair, me divertir, mas às vezes me sinto fazendo a coisa errada por estar sorrindo, fingindo que nada aconteceu. É uma sensação estranha. Tenho me condicionado a não pensar muito no assunto. Mas é impossível fazer isso 24 horas. Meu bebê, por mais minúsculo que fosse, ele existiu e nos encheu de amor.

As pessoas tentam me animar dizendo frases clichês do tipo: “logo vem outro”, “isso é um bom sinal, de que você consegue engravidar”, “Deus sabe a hora certa”, “pelo menos foi no começo”, “se não foi agora é porque ia ter problema”. As reações são quase as mesmas. Entendo que é por carinho, para não me ver triste e até por não saber como reagir, mas é um pouco irritante, né não? Porque não conforta. Porque eu queria muito. E queria agora.

Não foi uma viagem que perdi e “logo vem outra”. Não foi um test-drive para saber que era um “sinal” que eu sabia dirigir para depois comprar um carro. E outra, eu não era menos mãe por ter perdido meu filho no começo da gestação.

O que me parece é que a perda de um bebê ainda é de fato um tabu, principalmente quando se fala a palavra aborto. Parece que ela ainda tem o mesmo impacto que a palavra câncer tinha antigamente. Senhorinhas até abaixavam o tom de voz para falar “fulano tem câncer”.

As pessoas não sabem lidar e acham que devem nos dar um tempo, se afastar. É claro que isso depende de cada personalidade. Nós necessitamos daquele tempo quietinhas em nosso canto, mas precisamos de atenção sim. É um choque passar por isso, é um choque também passar de mãe para “tentante” de volta (palavra que eu tenho terror, na verdade). A realidade vem e te dá um tapa na cara.

É absolutamente necessário chorar, até para exorcizar um pouco aquele aperto no peito. Nós nos sentimos incapacitadas, culpadas por termos feito alguma coisa que causou a perda. Mas tenho plena consciência de que não deve ser assim o tempo todo, por mais fortes que esses sentimentos se manifestem.

É isso que eu quero passar para quem está lendo esse texto. A perda geralmente acontece por algum motivo que não podemos controlar. Não é nossa culpa, nem de ninguém. Mas é de nossa responsabilidade tentar se reerguer da tristeza, sorrir e renovar as esperanças. Bola pra frente. Dê tempo ao tempo. Cada mulher sabe de quanto precisa.

Se quiser chorar, chore. Se quiser se afundar no chocolate, se afunde. Se quiser se jogar numa balada forte bebendo todas e dançando muito, faça isso se for te deixar mais alegre. Não se culpe e nem deixe os outros te culparem. Ninguém é igual a ninguém. Talvez assim seja até mais fácil de recuperar.

Já para quem ainda sofre muito por uma perda recente, a atitude positiva pode demorar um pouquinho a aparecer novamente, mas ela vai vir e lhe trará uma nova vida. Tenha certeza disso. Eu tenho.

 

Claudia Borges – Publicitária desgarrada que flerta com o jornalismo há algum tempo, está na jornada pela maternidade e percebeu que, como tudo na vida, engravidar não é nada fácil. Atualmente, uma “desblogada”, mas pensando seriamente no assunto de retornar a esse mundo.

 



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