“Literatura não tem que ensinar nada; por isso, ensina tudo”

“Literatura não tem que ensinar nada; por isso, ensina tudo”

Por: Natalie Catuogno

Foi contando histórias para crianças, em 1992, como estagiário de psicologia, que Ilan Brenman, 39, descobriu a paixão pela literatura infantojuvenil. Seguiu com seu curso, depois fez mestrado e doutorado, mas a literatura virou seu ofício.

“Minha vida sempre esteve rodeada por histórias, gostava de contá-las e recriá-las, a decisão de virar escritor foi uma consequência da minha busca incessante por narrativas que me alimentassem a alma”, diz ele.

De 1997 para cá, já escreveu mais de 50 livros, vários premiados, entre eles “O Alvo”, de 2011, editado pela Ática. Está lançando mais um título: “Pai, não fui eu!”, pela Companhia das Letrinhas. Sobre isso –e muitos outros temas-, Ilan concedeu essa entrevista ao “MMqD”, por e-mail. Aí vão os principais trechos do bate-papo.

MMqD: Em “Pai, não fui eu!”, você narra um episódio muito divertido, e, ao mesmo tempo, que faz pensar. O pai da história, além de paciente, se insere no universo infantil para poder dialogar com a filha. Ele não espera que ela se comunique como um adulto, no universo “maduro”. Ao contrário, entra na brincadeira e assume como real o universo da criança. Os adultos deveriam fazer isso mais vezes?

Ilan Brenman: Não sei a resposta, sei que eu gosto de fazer isso de vez em quando, é muito divertido.

MMqD: Imagino que suas filhas, os colegas delas, o universo infantil de um modo geral devam ser fontes inesgotáveis de ideias e inspiração. Como você dá conta de dar vazão a tudo isso?O que efetivamente te inspira a escrever?

Ilan Brenman: Sou um observador atento do meu cotidiano, tudo me interessa. Minhas antenas funcionam o ano inteiro, sem descanso.

MMqD: O universo das crianças é muito rico e pleno de criatividade e sentido. Por outro lado, nós, adultos, tendemos a achar que nós é que ampliamos o repertório dos nossos filhos. É possível ensinar as crianças sem tolher a criatividade delas? Que papel têm os livros nisso (tanto em estimular a criatividade quanto em “ensinar” alguma coisa)?

Ilan Brenman: Literatura não tem que ensinar nada, por isso ensina tudo. O mundo já está cheio de ferramentas educativas, as crianças têm de ter uma válvula de escape onde a liberdade imaginativa esteja no seu controle. Literatura é o espelho da alma. O papel de ensinar é dos cuidadores das crianças: pais, professores etc. Não podemos terceirizar a educação dos nossos filhos para os livros.

MMqD: A literatura tem sido considerada anacrônica por muitos especialistas, algo fadado a desaparecer frente às novas mídias. O que você pensa sobre isso? O que nota nos seus pequenos leitores?

Ilan Brenman: Não é o que mostram os números do mercado editorial, os livros de papel continuam sendo uma referência para milhões e milhões de leitores. É evidente que os leitores eletrônicos estão invadindo o mundo, mas isso quer dizer mais leitores, não menos leitores de literatura. Para criança isso é um pouco diferente, o livro de papel para ela é fundamental! A forma do livro, o peso, as cores e, principalmente, o silêncio das páginas que não parecem um videogame ou um aplicativo de celular. Tudo isso é fundamental para o leitor mirim desenvolver sua paixão pelas palavras.

MMqD: Você escreve para os pais ou para os filhos? Ou para ambos?

Ilan Brenman: Não penso muito nisso. Escrevo porque tenho ideias, porque tenho duas filhas sapecas, porque amo, sofro, escrevo porque é o meu oficio fazê-lo.

MMqD: Você diz que as crianças não são politicamente corretas e que os livros para elas também não deveriam ser. O que isso significa na prática?

Ilan Brenman: Significa que as crianças querem histórias que dialoguem com seu mundo interior, não querem histórias moralizantes e que façam o papel de professores e pais, ou seja, que tenham uma intenção educadora.

MMqD: Ainda pensando em “politicamente correto”, de que forma podemos, como pais e leitores que somos para nossos filhos, abordar temas delicados como racismo, machismo, crueldade? O “politicamente correto” não ajuda um pouco nessa tarefa?

Ilan Brenman: Eu acredito que o “politicamente correto” faz exatamente o oposto disso, ele leva o olhar da criança para um local que nunca interessou a ela. Alguém acredita mesmo que os leitores do [Monteiro] Lobato viraram racistas por causa da leitura de sua obra? Não existe fundamento nisso. Muito pelo contrário, os leitores do Lobato foram agraciados com alta nutrição simbólica. Quem deve trabalhar esses temas ditos polêmicos são pais e educadores, não os livros. Deixemos os livros falarem dos temas que interessam à vida infantil: terror, amor, suspense, escatologia, aventura, felicidade, tristeza, medo…

MMqD: Gostaria que você contasse um pouco sua experiência como pai que também trabalha em casa e sobre as adaptações profissionais que fez para ter mais tempo para as filhas. Em geral, vemos mães fazendo isso. Seria bacana um ponto de vista masculino.

Ilan Brenman: Já faz muitos anos que trabalho em casa, já existe uma dinâmica estabelecida. Quando elas eram bem pequenas, fiz parte de toda a rotina da casa: fraldas, alimentação, berçários, médicos etc. Adorei fazê-lo e, é claro, acabei me alimentado de muitas histórias que até hoje rendem frutos literários.

*todas as imagens são do livro “Pai, não fui eu!”, lançado pela Companhia das Letrinhas.

Natalie Catuogno, 32, é mãe do Enzo, jornalista, louca por livros. Junto com a cria, está (re) descobrindo as obras para crianças. Assina esta série de posts sobre literatura infantojuvenil e também escreve sobre maternidade no blog www.maederna.wordpress.com

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