Infância livre de consumismo

Infância livre de consumismo

Por: Pérola

Eu ando muito atenta a uma importante questão que me chama atenção há algum tempo, o consumismo infantil  E publicidade infantil. E vamos combinar que nem a palavra consumismo, nem a palavra publicidade se ajustam com o universo infantil. São ambos do universo adulto e confesso que me gera muita estranheza vê-los juntos por aí como uma nova forma de posicionamento no mundo contemporâneo. É sabido que crianças e adolescentes, ou seja de 0 à 18 anos incompletos não são portadores de discernimento pleno e que são, por sua vez, sujeitos em desenvolvimento, ou seja, devem ser preservados em seus direitos e resguardados, em especial, de ações ou intervenções que visem objetivamente o lucro do adulto. Essas e muitas questões referentes aos direitos de crianças e adolescentes são facilmente encontrados no Estatuto da Criança e do Adolescente –  Lei 8069/90 e mais, essa Lei Federal preconiza que a família, o Estado e a comunidade em geral devem zelar para efetivação desses direitos. Portanto quando falamos em  publicidade direcionada ao público infantil ou em consumismo infantil, falamos necessariamente a partir dessa compreensão o que por si só já mostra tamanha incoerência. Responsabilizar somente os pais ou isolar fatores nessa questão é negá-la, torna a criança objeto da ação do adultos e me trás resquícios requintados de um certo Código de Menores. Se a responsabilidade é de todos, então que todos, sem exceção construam essa realidade pautada na efetivação e defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes com FOCO único e exclusivo no bem estar e saúde de crianças e adolescentes!

Para falar com muita propriedade desse assunto, trouxe uma pequena entrevista que fiz com duas mulheres, mães e militantes da blogosfera que representam o  “Infância Livre de Consumismo”  [https://www.facebook.com/InfanciaLivredeConsumismo] uma fanpage informativa que apresenta argumentos interessantes e plausíveis para essas questões e contrapõem a uma campanha liderada pela ABAP  – Associação Brasileira de Agências de Publicidade. Aproveitem! Taís Vinha escreve no Ombudsmãe  e Mariana Machado de Sá do blog Viciados em colo

Qual a principal motivação para a mobilização de mães e pais criarem o Infância Livre de Consumismo? Qual o objetivo?

Tais Vinha – Somos pais e mães que há anos discutem o consumismo infantil. Quando vimos a campanha da ABAP  – Associação Brasileira de Agências de Publicidade – tivemos duas reações. A primeira de revolta, pois a campanha é enganosa. Ela afirma que a responsabilidade é de todos no título, mas no discurso isenta anunciantes e publicitários de qualquer responsabilidade pelo quadro atual de consumismo na infância. É uma campanha que claramente defende a manutenção do atual sistema de controle da publicidade infantil, onde quem dita as regras são eles. E joga nas famílias a difícil responsabilidade de equilibrar o jogo.

A segunda reação nossa,aceitar o convite e entrar para o debate. Foi aí que vimos que não éramos bem vindas. Nossos comentários foram alvo de respostas grosseiras e irônicas. Censuraram-nos, apagando comentários e duas mães foram bloqueadas. Ficou claro que a ABAP é contra a censura apenas de fachada. Na hora de defender os interesses próprios usaram sem hesitar este recurso.

Tudo isso nos motivou a fazer um movimento contrário, que desse voz ao outro lado: as famílias. E promovesse um debate verdadeiro.

 

Mariana Machado de Sá – A principal motivação para o início do movimento foi a percepção que um espaço, em tese, aberto para debates não aceitava o contraditório que tentamos apresentar a cada depoimento. Percebemos que estamos num momento crucial da tramitação de um Projeto de Lei que tenta proibir a publicidade infantil e o discurso dos que se opõem à aprovação está direcionado para colocá-lo como tentativa de censura ou intervenção do Estado em assuntos de família. E nós, mães, pais e cidadãos, que refutamos esta tese queríamos nos manifestar, mas fomos mal tratados pela moderação da página. O fato é que a internet e esta explosão de redes sociais possibilita a aproximação de pessoas com pensamentos parecidos e que jamais se encontrariam na ‘vida real’. Abrir este espaço de encontro, juntar este pessoal insatisfeito com o status quo – relacionada à publicidade e consumismo infantil – e demonstrar para a sociedade que existem pais, mães e cidadãos que desejam regras mais severa para o setor foi o que nos motivou.

 

O que o movimento almeja em termos concretos?

 

Tais Vinha – Mobilizar os pais para a questão e inseri-los no debate. Despertar consciência. Mostrar para governantes, publicitários e anunciantes que nós também temos voz e que esse debate é falso sem a nossa presença. Não permitir que nos manipulem da forma descarada como tentaram fazer na campanha da ABAP. Obrigar que o setor passe a operar sob regras muito mais rígidas que as atuais, impedindo-os de autorregularem a publicidade infantil. A autorregulação praticada hoje não funciona.

 

Mariana Machado de Sá – O movimento deseja fornecer contra-argumentos para aqueles que acham que as famílias tem o poder de neutralizar tudo. Isso não é possível! Mesmo com todos os cuidados, com todas as restrições, a publicidade chega. E os prejuízos chegam junto. Por isso, pensamos ser função de Estado – mesmo o mais capitalista – regular as relações comerciais, especialmente quando há um lado claramente mais fraco neste elo. Sem censura, sem cerceamento de liberdade de expressão comercial, sem ditadura, as empresas podem levar suas mensagens de maneira clara e limpa aos pais, àqueles que pagam a conta e deixar as crianças com a cabeça livre para serem crianças.

 

 

 

Qual a importância da mobilização das famílias em torno do debate pela regulamentação da publicidade infantil?

 

Tais Vinha – Total. Este debate não pode ser conduzido apenas pelo lado que tem interesse financeiro na questão. Estamos tratando de seres humanos em formação, algo que vai muito além dos interesses de publicitários e anunciantes. Se somos todos responsáveis, como eles afirmam, precisamos mostrar nosso peso e nossa influência nesse assunto, inclusive para que os governantes levem em consideração nossas angústias, inseguranças e dificuldades em lidar com o tema.

 

Mariana Machado de Sá – Quando um pai ou uma mãe se aproxima do debate em relação à publicidade infantil dificilmente vai deixar de reconhecer os prejuízos que traz aos seus filhos. Individualmente, vamos delineando estratégias de sobrevivência para lidar com este fenômeno. Uns são mais bem sucedidos e outros não. Quando nos juntamos, acabamos refletindo sobre estas estratégias e aprendendo a perceber as entrelinhas dos discursos. O fato é que as famílias insatisfeitas com a autorregulamentação se juntaram para mostrar aos legisladores o que não vem funcionando e apontar alternativas ao já estabelecido. A importância é demonstrar que esta causa não é restrita a meia dúzias de ONGs ou de militantes mais sectários, mas está cada dia mais amplificada na sociedade e com muitos interessados.

 

Enquanto pais, como vocês observam a influência da publicidade infantil?

Tais Vinha – A criança não tem discernimento para saber o que é fantasia e realidade. Eles acreditam no que os adultos dizem. E hoje elas são expostas cada vez mais cedo aos estímulos ao consumo, quando suas defesas ainda não existem. Mais que isso, me preocupa estarmos usando os meios de comunicação, que são consessões públicas, para formar consumidores e não cidadãos. As pessoas cada vez mais precisam consumir para se sentir importantes. Para ter algum valor na sociedade. Consumir virou motivo de vida. E essa é uma construção que vem desde a infância. Hoje é preciso ter cabelo liso, estar maquiada, usar a mochila da moda, ter barriga de tanquinho, o celular tal ou não se é alguém. É inaceitável que atribuam apenas aos pais a responsabilidade por resolver essa questão. Muitos pais por falta de tempo, ou por estarem alheios à esta questão não estão preparados para lidar com o assunto. Sempre lembrando que do outro lado estão profissionais treinados para persuadir. E que dispõem de ferramentas avançadas, verbas milionárias, pesquisas avançadas e conhecimento de psicologia e sociologia. Querer que os pais possam competir com eles é injusto.

 

Tem também a questão ambiental. Sabe-se que se mantivermos o atual nível de consumo, o planeta sucumbirá. Temos que formar os novos moradores do planeta, as futuras gerações, para o consumo consciente e sustentável. Regras que irão restringir a publicidade fazem parte dessa nova formação. É uma necessidade nova que surgiu nos anos recentes, mas que não pode de forma alguma ser ignorada neste debate.

 

Mariana Machado de Sá – Sou publicitária e sempre fui muito crítica em relação ao consumo de mídia por meus filhos. A mais velha tinha muitas restrições para acessar televisão e internet, de modo que tive poucos impactos na minha casa. Todos os cuidados não me salvaram desta avalanche de personagens e colecionáveis, mas consegui escapar dos saltos altos, das maquiagens, das vaidades e da futilidade. Há muitos anos, observo as colegas de minha filha (que hoje tem sete anos) e sempre fiquei entristecida quando uma amiga deixa de brincar para não estragar o cabelo, ou não consegue correr porque está com salto. Já tive momentos de desespero ao ver uma colega dela de cinco anos cuspindo um chocolate para não engordar e um outro amiguinho de três dizendo que ia sair para “pegar mulher”. É óbvia a influência da publicidade nestes conteúdos. Felizmente consegui tempo e espaço para que ela vivesse a infância plenamente, sem preocupações que só devem fazer parte do repertório de crianças mais velhas ou de adolescentes. Se os pais e as mães não estão de antenas ligadas, essas coisas vão passando “como engraçadinhas” e quando percebemos a infância passou.

 

 

De que forma a publicidade infantil  pode afetar o consumidor adulto que hoje é criança?Há alguma relação, nesse sentido, com questão da sustentabilidade?

 

Tais Vinha – Ops, respondi acima!

 

Complemento que as crianças de hoje crescem sob os mantras do consumo: compre, use, colecione, coma, beba, peça, implore, tenha, exiba…quando adultos, é natural que mantenham o padrão de consumo. Que se tornem pais alheios ao problema, pois nunca refletiram sobre ele. São vítimas de um sistema cruel, que nos obriga a viver para ganhar dinheiro e consumir.

 

Mariana Machado de Sá – Nós que temos menos de 40-45 anos somos a primeira geração consumista do planeta. Somos a geração do descartável, do substituível, da inovação e do modelo mais novo. Muitas vezes nós mesmos somos vítima deste modelo. Quantas vezes nos vimos diante de uma prateleira a pensar sobre a REAL necessidade de adquirir aquele item? Quantas vezes nos vimos diante de uma peça de roupa que nem lembrávamos que tínhamos comprado? Quantas vezes não descartamos produtos em perfeito estado de uso, apenas para adquirir o novo modelo? Algumas pessoas conseguiram refletir e escapar deste esquema, por mais difícil que esteja. Formar consumidores deste o berço é algo que as famílias não poderão sustentar. Nem as famílias, nem o Estado e nem o planeta.

 

Deixem uma reflexão para os pais e mães que nos lêem e que buscam mais informações sobre o assunto.

 

Tais Vinha – Estamos vivendo tempos maravilhosos. Pela primeira vez na história, não somos obrigados a engolir calados as “verdades” que nos são impostas por quem detém os meios de comunicação. Hoje temos voz e ferramentas para que todos nos escutem. Não podemos permitir que mais uma vez, a opinião pública seja manipulada para que a família seja a culpada por mais um problema social. A família é responsável, claro. Mas todos os demais tem sua responsabilidade no consumismo infantil. E isso é o que a ABAP não quer que vejamos. A única forma deles assumirem a parte que lhes cabe é dando nossa opinião sobre o assunto e obrigando-os a nos escutarem. É participando desse debate. É cobrando dos órgãos fiscalizadores que atuem com mais rigor. É sendo responsáveis, mas não da forma passiva que eles querem.

 

Mariana Machado de Sá – Existe a possibilidade de diminuirmos os apelos consumistas aos nossos filhos. Zerar é impossível, sabemos que as empresas têm outras e terão novas maneiras de alcança-los. Mas cada mensagem a menos é um apelo consumista a menos. Tirar da programação infantil a publicidade mercadológica vai liberar nossos filhos para outros conteúdos, de mais qualidade. Saber que como pais e mães não somos onipresentes e onipotentes, portanto nossa capacidade de controle é limitada, que nosso “não” se contrapõe a uma mensagem que ensina a conseguir o “sim” e nos coloca como bruxas-más. A reflexão é que devemos, sim, esperar que o Estado se co-responsabilize pela cuidado com a saúde das nossas crianças e que regule esta relação criança x mercado de maneira mais severa e conseqüente.

 

Obrigada meninas! Estamos acompanhando de perto e junto de vocês nessa empreitada!

Se você acabou de ler e está se coçando na cadeira de curiosidade e quer arregaçar as mangas para lutar junto desse coletivo, aqui você encontra mais informação:

Instituto Alana – http://www.alana.org.br/

Aliança pela Infância – http://aliancapelainfancia.wordpress.com/

Instituto Akatu –http://www.akatu.org.br/

Links excelentes para  informação de qualidade: http://www.alana.org.br/CriancaConsumo/Biblioteca.aspx?v=10

Pérola Boudakian, mãe de dois, psicóloga | terapeuta clínica, abraçou a maternidade , a profissão e suas tonalidades, acredita na transformação e na potência que cada um trás dentro de si de ser feliz em suas escolhas e caminhos.

Para saber mais sobre o trabalho de Pérola, aqui.