In my life: os jogos da filha e as reflexões da mãe

In my life: os jogos da filha e as reflexões da mãe

Por Paloma

 

There are places I’ll remember all my life,

Though some have changed,

Some forever, not for better,

Some have gone and some remain.(…)

 

Though I know I’ll never lose affection

For people and things that went before,

I know I’ll often stop and think about them,

In my life I’ll love you more.

 

(primeira e quarta estrofes da música “In my life”, dos Beatles)

 

Cecília, minha primogênita de 6 anos, criou um jogo que à primeira vista me pareceu um passatempo engraçado e só, mas que depois me fez refletir – e eu adoro quando ela me faz pensar. Agora que passamos mais tempo juntas, temos brincado mais e tenho percebido o quanto as brincadeiras mostram sobre as crianças, sobre o que elas pensam das coisas, refletem seus aprendizados e suas experiências.

Mas voltemos ao jogo dela. É um jogo rápido, de perguntas e respostas. Ela sempre começa: “Tal pessoa nasceu onde?”, pergunta. Aí eu tenho de responder. “E mora onde?”, continua. Ela aguarda ansiosamente a minha resposta para, tal qual uma juíza, dar o ser veredito: “Ganhou!” ou “Perdeu!”. Tudo em ritmo frenético, como numa gincana. Nem eu posso errar os locais de nascimento e residência nem ela pode errar o veredito. E sempre damos muita risada. Ela, da brincadeira, da correria com que ela é feita, e eu, dos vereditos.

É um jogo que pode durar longos minutos, visto que ela não se cansa fácil e, quando acaba o leque de pessoas queridas, ela não se melindra em recomeçar, ignorando a repetição infinita de nomes e lugares. Até porque é disso o que ela mais gosta, das pessoas e dos lugares. O veredito é só um detalhe, mas que também diz muito de sua visão de mundo.

O que define os ganhadores e perdedores? O fato de como, eu, ela, e o pai dela, nascerem em um lugar e morarem em outro. Aqui em casa, a única que “perdeu” foi a Clarice, que nasceu e mora em Brasília (por enquanto). E, com isso, vimos que, na nossa família, a maioria das pessoas saiu de sua cidade ou país de origem e hoje mora em outro lugar.

E, se ela considera quem saiu do seu lugar um ganhador (ela inclusa, pois nasceu em São Paulo), é porque na cabecinha dela, com 4 anos de estrada, o legal é isso mesmo: mudar! Eu não deixo de achar isso bom, já que o meu espírito é de mudança também e, se a minha filha acha isso natural e até positivo, tanto melhor!

E, nas minhas eternas elocubrações, eu não posso deixar de relacionar isso com a maternidade, pois, quando a gente se permite ser transformada por esta experiência, a gente sai do nosso lugar de origem. Ainda que não seja fisicamente. A gente troca os parâmetros, relativiza um monte de coisa e muda. Sim, a gente muda tudo dentro da gente para se (re)descobrir mãe.

Por isso acho que quem passa pela maternidade esperando levar a mesma vida que levava antes sai perdendo. Fico um pouco triste quando vejo as pessoas seguindo a mesmíssima vida de antes, tratando os filhos como mero detalhes e defendendo esta postura, como se este fosse um modelo a seguir, já que a vida social e a produção no trabalho não podem decair nem por um instante. Por que não se abrir para o novo e se permitir mudar?

Para mim, ser mãe é tomar decisões sempre levando em conta o bem-estar dos filhos, é chamar para si a responsabilidade da criação indivíduos em formação, é escolher pelos filhos quando eles ainda não podem decidir conscientemente o que é melhor para eles, é refletir, é ousar, é lutar por eles, é sair do seu lugar de origem, é sair do lugar-comum.

Este é o meu ponto de vista, de alguém que mudou – e muito – desde que se tornou mãe e é considerada “ganhadora” pela filha, seja no jogo, seja na vida. E fico feliz de estar aqui hoje, tão bem acompanhada das comadres Flávia, Roberta e Mari (super ganhadoras, em todos os conceitos), compartilhando-o com vocês.Porque ninguém disse que seria fácil, mas, se a gente conseguir acabar com as cobranças para voltar o mais rapidamente possível à vida de antes, a gente tem mais chances de ser bem-sucedida no que realmente importa.

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Paloma, mãe de Cecília e Clarice, é jornalista, idealista, baiana, do mundo, curiosa, agitada, antenada, defensora dos direitos da infância e da mulher (a definição é dela, mas nós concordamos com cada vírgula!).